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Vamos aos 20 Grand Slams? Roger that

Marin Cilic e Roger Federer jogam este domingo a final do Open da Austrália em ténis. Para um deles, será a 30ª final de um Grand Slam e poderá ser o 20.º título. É preciso escrever quem é?

Diogo Pombo

XIN LI/Getty

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Não sendo o choro uma vergonha para ninguém, imagino que, para um desportista, não haja pior do que as lágrimas da impotência. Ter uma vida dedicada a praticar algo o melhor que pode e consegue e ter a consciência de que não é capaz de fazer mais contra alguém ou alguma coisa. Ou, pior ainda, frente a ambas ao mesmo tempo. Consequentemente, os olhos de Marin Cilic encheram-se de lágrimas. E ele chorou.

Impecavelmente vestido de branco, sentado num banco na relva de Wimbledon, visto por milhares no estádio e por milhões na televisão e acabado de ser quebrado no serviço, um homem feito de 28 anos e 1,98 metros chorava perante a inevitabilidade de algo e de alguém que o destino lhe pôs à frente — esse algo eram bolhas gigantes num dos pés que lhe limitavam os movimentos na sua primeira final no mais típico dos Grand Slams; e logo contra o alguém que era Roger Federer.

E Cilic, um dos bons gigantes do circuito, forte servidor e agressivo batedor de bolas a partir da linha de fundo, vencedor de um major, não susteve as lágrimas quando percebeu que não seria ali nem assim que ganharia o seu segundo torneio do Grand Slam. Ser-lhe-ia impossível competir ao melhor nível contra o tenista que, para ser derrotado, tem de estar num dia mau e ter pela frente um adversário a jogar o jogo de uma vida (caso esse adversário não tenha Djokovic, Nadal ou Murray como apelido). “Não doía assim tanto que me fizesse chorar. Mas foi muito difícil, emocionalmente, saber que não podia dar o meu melhor num encontro tão importante”, reconheceu, quando Federer, o trintão cujo corpo se temeu demasiado gasto para continuar a dar uso a tanto talento, já segurava o seu 19º troféu de um Grand Slam.

Na manhã de domingo (8h30, Eurosport), este mesmo Federer jogará para ganhar o 20º título entre os quatro torneios mais importantes do ténis. E, desta vez, sem que haja alguma coisa entre ele e Marin Cilic. O croata tem-se “sentido muito bem”, deixando-nos antever que, pelo menos, não passará os dois dias de descanso anteriores à final com agulhas espetadas nos pés para drenar bolhas. Federer terá apenas um dia para recuperar, mas terá, como sempre, muita coisa que Cilic não tem.

As 29 finais de majors que já jogou, as 19 épocas consecutivas a chegar a finais, as 302 semanas como líder do ranking, as seis decisões do Open da Austrália disputadas, onde só Rafael Nadal foi capaz de o vencer (em 2009)... No domingo terá 36 anos e 174 dias de vida, os quais podiam ser uma desvantagem a nível físico mas que acabam por contribuir para fortalecer uma lenda que melhora a cada volta que o sol completa.

Mesmo que Federer, sorridente e descontraído como se tem apresentado, tenha dito que “adoro estar, de novo, na posição de poder ganhar um Grand Slam pela primeira vez”, quando Jim Courier lhe perguntou o que achava da final feminina de sábado (entre Simona Halep e Caroline Wozniacki, ambas sem majors), esta vida batida e cheia de títulos faz a diferença — Cilic está com 29 anos e vai jogar a final de um Grand Slam apenas pela terceira vez. Antes de chorar, e perder, contra Federer na última edição de Wimbledon, o croata venceu o US Open, em 2014, torneio em que conseguiu a sua única vitória em nove encontros contra Roger Federer. E logo no mesmo tipo de superfície: o piso rápido que beneficia os poderosos matulões, apologistas de um ténis de serviço monstruoso, pancadas fortes e curtas trocas de bola. Como o suíço bem se recorda: “Ele traz poder para o court. Já me esmagou uma vez.”

O problema do croata é que Roger Federer tem como apanágio trazer, constantemente, tudo o resto — um ténis tão bom que se torna redundante tentar elogiar. Cilic disse, antes de saber que defrontaria o suíço, que “gostava de jogar a final contra alguém que consiga vencer”. Afinal, o ténis não é como uma luta, em que, se não o podes vencer, então junta-te a ele. Mesmo que, durante as férias, eles tenham treinado juntos, nas Maldivas, Federer será sempre Federer e tem hoje a hipótese de aumentar a sua lenda com o 20º título do Grand Slam. Roger that?