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Não clames contra o apagar da luz que finda, Roger

Ninguém sabe o que há dentro da cabeça do melhor, mais titulado, elegante e gracioso tenista da história. O Roger Federer de 36 anos acabou de ganhar o seu vigésimo torneio do Grand Slam, na Austrália, e imaginámos que tipo de coisas diria ao Roger Federer de 21 anos, que venceu o primeiro, em Wimbledon, em 2003

Diogo Pombo

Michael Dodge

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Roger,

guarda esse sorriso. Guarda-o, não é grande coisa, estás tão tímido quanto feliz e radiante, mal mostras os dentes. Conténs a alegria quase por instinto, como se escondesses algo, essa mesma coisa que o rabo de cavalo a prender o farto cabelo, ou a t-shirt demasiado larga para o esqueleto e os músculos que tens. Essa coisa é a história. E guarda esse sorriso, vais precisar dele quando não fores capaz de aguentar o choro.

Tens 21 anos, sei que nunca pensaste muito nisso, mas, no fundo, lá no fundo, sabias que Wimbledon não é apenas um sonho. Despachas, abruptamente, a primeira entrevista que dás, no court, como campeão de um torneio do Grand Slam, porque não és capaz de ignorar tamanha emoção, tantos sentimentos misturados, e, aí, começas a abraçar o que te faz ser como eu sou hoje: a certeza.

Cresceste a ser um miúdo emotivo, mais conflituoso contigo do que com os outros. Nunca foste menos que bom, só às vezes aquém do muito bom e, raramente, não foste o melhor. Mas refilavas para o ar ou contra os juízes de cadeira, e atiravas raquetes ao chão entre o ser miúdo e o sair da idade do armário, a fase em que até oxigenavas o cabelo e dizias que o que mais gostavas de comer era “arroz, pizza e massa”.

Ainda só te davas à certeza ocasionalmente. Como aquela vez, tinhas 12 ou 13, em que os pais te levaram de Basel a Ecublens, perto de Lausanne, de carro, até às captações para um programa de desenvolvimento de jogadores juniores, onde foram todos os miúdos suíços que sabiam segurar numa raquete. O campo, de tão brilhante e encerado que estava, tornava irrelevante a tua esquerda, já bonita e fiel à única mão, unicamente dependente no slice.

Apenas confiavas em inclinar a raquete, cortar a bola, senti-la a roçar nas cordas, e percebeste que terias de a bater por cima, mais chapada e com mais balanço. Nunca arriscaras o top-spin em jogos, muito menos atrevido a dominar essa pancada, mas sabias que só assim impressionarias os treinadores. Tinhas a certeza. Apostaste nessa certeza, confiaste na capacidade de o teu jogo de pés, a postura do corpo, a posição do pulso e da raquete se adaptarem à situação. E foste aceite no programa.

Tiveste a certeza.

Prepara-te, porque continuarás certo de ti próprio e a melhorar o teu jogo de serviço variado e eficaz. A tua direita fiável no fundo do court, perto da rede, a abrir ângulos de dentro para fora ou a acelerar pontos de fora para dentro, ou a improvisar passing shots que te sairão naturalmente, mas farão as pessoas maravilhar-se. A tua esquerda, que nunca te deu jeito bater com duas mãos na raquete, ficará mais precisa com o tempo, a coreografar-te o corpo num gesto gracioso e fluído cuja estética as mesmas pessoas vão admirar, mesmo quando não acertares na bola que dela sair.

Unirás estas partes do teu jogo com os teus pés, de tão natural que te sairá o sapateado e a destreza que devem existir num tenista, para se mover no court. Nem sei bem como me descrever a ti, porque tudo me é tão natural e instintivo que me fica difícil explicá-lo, ou até contá-lo. Mas, garanto-te, podes ter a certeza que as coisas se vão alinhar para ti.

Alex Livesey

Depois de Wimbledon, só terás que esperar uns meses para seres o número um do mundo. Estarás em Melbourne, com calor e a suar como, anormalmente, não costumas, numa cidade diferente do mesmo país onde conheceste a Mirka, também tenista, há uns anos, durante os Jogos Olímpicos de Sydney. Isso já tu sabes.

O que desconheces são as vitórias que terás, a partir daí. Nesse ano, vais reconquistar Wimbledon e ganhar o US Open, para acabares 2004 com três majors, um feito que não se via desde 1988, com o Mats Wilander. Esses feitos melhorados e os recordes quebrados tornar-se-ão banais, de tanto os conseguires. Não te maçarei com o futuro, não quero roubar-te as surpresas, digo-te apenas que serás líder do ranking durante 302 semanas, 237 consecutivas. São quatro anos e meio, mais ou menos.

Neste período até 2010, dois mil e dez, para não pensares que me atrapalhei com o teclado, ganharás seis vezes em Wimbledon, cinco no US Open (consecutivamente), quatro no Open da Austrália e uma vez em Roland Garros. Estarás em 10 finais e 23 meias-finais consecutivas de torneios do Grand Slam. Até uma medalha de ouro de pares levaste para casa, em Pequim. Sei que não gostas destas coisas, porque és humilde, bem-educado e cordial, mas, nessa fase, serás praticamente imbatível. Invencível. Inquebrável.

Terás 29 anos e serás visto como um formidável do ténis, chamar-te-ão extraterrestre escondido num corpo humano, uma máquina que nunca falha, o contrário de um relógio suíço que, mesmo estragado, acerta duas vezes por dia - às tantas, vai parecer acertar pancadas é uma omnipresença em ti, que nunca falhas, nem alguma vez falharás. É a partir daí que terás de ter a certeza.

Porque, até chegares aos 35 anos, as costas vão-te chatear mais vezes, serás falível como as pessoas normais, o teu ténis, mesmo maravilhoso, vai emperrar e sofrer do mal que afeta todo e qualquer desportista - dias haverá em que não estarás nos teus dias. Entre 2010 e 2017, lamento, continuarás a jogar na ocasional final de um major, mas vencerás apenas um, em Wimbledon (2012), onde mais gostas e a bola mais acelera para teu proveito.

Serás, isso sim, muito chateado por alguns tenistas, dois em especial. Rafael Nadal, o potente, forte e poderoso como tu nunca o serás, será quem te afetará mais. Jogos haverá em que não terás hipótese (sim, leste bem, aceita-o) contra a pancada deste espanhol, o mais rápido e rotativo top-spin do ténis, que fará a bola subir bem alto após cada ressalto, mais alto do que é possível para conseguires responder como queres, e não apenas como podes.

E chorarás por causa dele, quando admitires, na Austrália, que uma derrota imposta por ele te está a desfazer por dentro. “Meus Deus, está a matar-me”, dirás, antes de Nadal te confortar e ajudar, como bons amigos que, mais tarde, ficarão.

liewig christian

Ao mesmo tempo, a resistência, o físico, a aparente imunidade ao cansaço e o jogo que ataca, defendendo, de Novak Djokovic, vai-te moer e corroer, com o tempo. O sérvio chegará a bolas que julgas já serem pontos e devolverá, quase todas, tão complicadas para ti como as bateste para ele.

Neste momento, talvez nem saibas bem quem eles são, ou onde poderão chegar. Mas perderás finais com os dois e estarás a perder no confronto direto com ambos, quando chegares ao lado pesado da terceira década da tua vida.

Altura chegará em que as costas, as não tantas vitórias, a única conquista de um Grand Slam em cinco anos já te fizeram encarar mais o ténis a pensar sobre ele, do que a adorá-lo, se vão cruzar com o azar. Perdoa-me tanta informação em poucas palavras, mas, um dia, estarás a preparar a banheira para dar banho a um dos dois pares de gémeos que te têm como pai, e vais escorregar e rasgar o menisco. O método, a preparação e a sorte que te livrarão, durante toda a carreira, de lesões graves, não te vão proteger contra isto.

Terás que ser operado e optarás por descansar. Vais passar seis meses sem competir, apenas a viver, a desfrutar de raríssimas semanas de treino consecutivas, a tentar bater bolas e pancadas só porque sim, como fazias em miúdo. Sem te preocupares em que sítio do court a bola vai cair. Gozarás de tempo com a Mirka, com os teus filhos e filhas (desculpa-me, outra vez) e contigo próprio, a pensar no ténis imune a pressões, jogos, resultados e competições.

Voltarás a sentir, e a ter, a tal certeza.

Perceberás que adoras, vibras e amas o ténis, o prazer que retiras de jogá-lo é muito superior a todas as chatices que as viagens de avião, os hotéis, o cansaço, as entrevistas, os patrocinadores e o desgaste que esta vida implica. E, sobretudo, vais mudar a forma como bates a tua esquerda - dar-lhe mais top-spin, trabalhar a rotação e batê-la mais cedo, com a bola mais em baixo e uns passos à frente no campo.

Michael Steele

Surpreenderás muita gente, e tu mesmo, quando regressares desse hiato auto-imposto e, logo em janeiro, ganhares o Open da Austrália, contra o Rafa, como lhe chamarás. As pessoas que te sempre te admiraram, mas que, cientes da tua humanidade e do inexorável que é o tempo no desgaste que dá ao corpo, se tinham conformado com a tua decadência. A tua suposta decadência.

É aí que rirás, festejarás e te emocionarás como um miúdo grande, e mostrarás o sorriso que pedi para guardares. Vais pular e celebrar como um adolescente, enquanto os jornalistas e o mundo de pessoas que seguem o ténis dirão que estás a viver um renascimento, uma segunda juventude. Já sabes como é o homem, tem de arranjar algo ao qual se agarrar quanto não tem capacidade para entender o que se está a passar.

Porque ainda vencerás em Wimbledon e na Austrália quando chegares aqui, de onde te escrevo, a meio caminho entre os 36 e os 37 anos. Vais ter 20 - vinte, XX, duas dezenas - de torneios do Grand Slam conquistados em 30 finais jogadas. E vais dizer e repetir que o teu corpo está bem, não sentes dores, com o luxo de poderes decidir se abdicas, ou não, da temporada de terra batida, a superfície mais lenta e que mais te mói as pernas.

Vais sentir o que sinto hoje, quando choro e não contenho as lágrimas, na vitória, por, simplesmente, desfrutar ao máximo de tudo o que ainda me é possível fazer. Estou, e estarás, com os 40 à vista, a vencer majors e a desfrutar do quão sortudo sou por ainda conseguir ser o melhor e mais saudável, entre tipos bem mais novos que eu, cujos joelhos, cotovelos, ancas e pulsos limitam as carreiras. E tu, o mais velho de sempre a ganhar um Grand Slam.

Sabes porquê? Pois aceitarás esta fase, estes últimos anos, com a mesma graciosidade, elegância e naturalidade com que te sai uma pancada de esquerda. Não vais lutar contra a velhice, o desgaste do corpo ou a evidência de que, fisicamente, já te custa mais fazer certas coisas. Será o contrário do que recita um poema de Dylan Thomas:

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Tu, nós, não vamos clamar contra a luz que finda. Vamos aceitá-la e desfrutá-la, enquanto durar.