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O tenista macedónio que fabricou a sua história e enganou (quase) toda a gente

Darko Grncarov era um tenista macedónio, de 20 anos, que teve um derrame cerebral e ficou em coma durante seis meses, que voltou a jogar ténis em tempo recorde. Era uma bonita e inspiradora história de superação - se fosse verdadeira. Este macedónio, que realmente existe, terá inventado patrocínios, jogos feitos e contas nas redes sociais para interagir com tenistas a sério e órgãos de comunicação, incluindo a BBC e a Tribuna Expresso

Diogo Pombo

D.R.

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Em novembro, a Tribuna Expresso soube de uma história que, no mínimo, era invulgar.

Pelos vistos, um tenista da Macedónia, de 20 anos, de tanto treinar, jogar e se esforçar para ser melhor a fazer o que fazia, sofrera um derrame cerebral que o mantivera preso a um coma durante seis meses. Quando acordou não sentia as pernas, os médicos disseram-lhe que voltar a andar já seria difícil - demoraria, pelo menos, sete anos - quanto mais jogar ténis, mas ele, de seu nome Darko Grncarov, insistiu e fez exercícios e forçou e aconselhou-se com fisioterapeutas até recuperar o uso dos membros inferiores em tempo recorde. Já estava a treinar e a preparar-se para usufruia de uns quantos wildcards para torneios ATP.

Tudo isto foi contado por Grncarov no Twitter, via conversa direta, o que culminou no artigo publicado pela Tribuna Expresso a 24 de novembro.

Era uma história bonita, cativante, inspiradora e impressionante - não fosse, ao que parece, falsa em muita coisa.

Porque o Slate, um site norte-americano, passou semanas a investigar, falar com pessoas, a tentar confirmar informações e a cruzar as que ia obtendo a partir do momento em que este Darko Grncarov começou, realmente, a ser falado: durante o Open da Austrália, quando Serena Williams interagiu com ele no Twitter, Martina Navratilova o elogiou e a Adidas chegou a confirmar que o estava a patrocinar.

Mas ele, que disseram que antes de entrar em coma jogara alguns torneios na base da pirâmide do mundo do ténis, realmente, nunca o fez. Há meses, a imprensa macedónia contava como Darko Grncarov vencera dois adversários num torneio em Sharm el-Sheikh, no Egito. Esse é o único registo que, de facto, existe na sua página no site da ITF, embora lá esteja explícito que abdicou de disputar o encontro que tinha agendado. No único jogo que, de facto, disputou, em 2015, foi derrotado por duplo 6-0 em Podgorica, Macedónia, resultado confirmado pelo próprio tenista que o venceu, Nikola Vukotic.

O Slate mostrou como o macedónio utilizara imagens e vídeos, sem mostrar a cara, de Cameron Henricy, um desconhecido tenista espanhol, fazendo-se passar por ele. Que mantivera ativas várias contas nas redes sociais (sobretudo no Twitter) para vangloriarem e apoiarem a suposta conta verdadeira do atleta - para chamarem a atenção, criarem buzz, aumentarem a exposição de tudo o que escrevia ou publicava. E assim, eventualmente, a sua história, que era propagada e confirmada em vários jornais da Macedónia, chegou a publicações estrangeiras.

E quando Ben Rothenberg, o jornalista da Slate, o confrontou com tudo isto, também via Twitter, ele evadiu os temas, acusou-o de má educação, deixou de responder e apagou tudo o que era contas em qualquer rede social.

A Adidas, mesmo tendo escrito "bem-vindo à família", confirmando a relação com o atleta, desmentiu, entretanto, que alguma vez o tenha patrocinado. A Wilson, marca de raquetes, idem. Viktor Troicki, sérvio que já esteve entre os 20 melhores do ranking e com quem Grncarov dizia treinar, muitas vezes, também revelou que nunca ouviu falar dele.

Darko Grncarov é de facto tenista e tem um registo na ITF (International Tennis Federation) que o prova. Mas nunca terá existido tal e qual como disse - não foi possível confirmar se, de facto, ele esteve ou não em coma. O macedónio, isso sim, conseguiu enganar deliberadamente publicações como a BBC, que o entrevistou para um programa de rádio, em janeiro, a Metro ou a Tribuna Expresso.