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Federer, o líder mais velho de sempre (e já nada temos para dizer sobre ele)

Roger Federer será o líder do ranking mundial mais velho de sempre, com os seus 36 anos já a meio caminho dos 37. Para sermos sinceros, não temos grande coisa mais a dizer sobre o suíço e, como não queremos redundar em elogios, resolvemos ir ver o que falta ao suíço vencer nesta vida (quase nada) em que vai personificando aquele famoso ditado sobre vinhos

Diogo Pombo

Jan Kok/Soccrates

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Verdade seja dita, já praticamente tudo foi dito, escrito e batido sobre Roger Federer, o tenista singular que fez de todos nós pessoas redundantes, óbvias e que se repetem - há um limite para elogiar o elogiável e esse limiar traça-se no ponto em que o alvo, neste caso o suíço, começa a estar num nível onde os adjetivos não chegam. Ele lá está há já algum tempo e, portanto, sem mais delongas, eis o motivo para mais um texto sobre o mesmo tenista de sempre:

Federer, aos 36 anos e 195 dias passados nesta vida, é, a partir de segunda-feira, o mais velho de sempre a alcançar o topo do ranking em que a ATP ordena todos os tenistas profissionais.

Podemos encará-lo como mais uma consequência de um ciclo, uma serpente viciada em morder a própria cauda. Porque se o suíço, que já era o homem com mais tempo contado como número um do mundo, vai entrar na 303ª semana da carreira nesta condição (equivale a quase seis anos a existir assim), tal deve-se ao acumular de feitos extraordinários que Fededer nos habituou.

O suíço sabia que, em Roterdão, vencendo pelo menos três jogos e adversários no torneio de categoria 500, garantiria pontos suficientes para retornar ao trono que não se moldava à sua figura desde outubro de 2012. Ele venceu Ruben Bemelmans, Philipp Kohlschreiber e Robin Haase, seus inferiores em diferentes escalas, com maior ou menor dificuldade, e confirmou o regresso a número um pois, na Austrália, reeditou a conquista que lograra o ano passado e continuou a envelhecer mediante a mesma fórmula que, dizem, os bons vinhos se tornam melhores: com o tempo.

O suceder dos segundos, minutos, horas, dias e anos, especialmente as últimas duas voltas ao sol, deixaram que Roger Federer descobrisse o bom que pode haver numa lesão e parasse. Treinou, desligou-se da corrente do ténis competitivo, aprimorou a esquerda, reabilitou o corpo e, desde há quase 18 meses, não mais foi o mesmo. Descodificando, ele era excelente e tornou-se exímio, o fantástico passou a extraordinário, de lendário subiu a… bom, acrescentou estórias à sua lenda.

Assim era Roger Federer em outubro de 2012, na última vez em que tinha ocupado o primeiro lugar do ranking ATP

Assim era Roger Federer em outubro de 2012, na última vez em que tinha ocupado o primeiro lugar do ranking ATP

Matthew Stockman

As vitórias em três Grand Slams (Open da Austrália, por duas vezes, e Wimbledon), combinada com as maleitas nos corpos de Rafael Nadal, Novak Djokovic ou Andy Murray, que têm lidado com a passagem do tempo pior do que o suíço, construíram o ciclo que acabou por devolver Federer à liderança do ranking. Com esta idade.

Assim supera o recorde de Andre Agassi, um muito bom e icónico tenista, dono dos seus oito majors, que marcava 33 anos na idade quando, pela última vez, liderou a hierarquia mundial. Portanto, e fugindo aos elogios, é quase preferível olhar para Roger Federer com os óculos do que, factualmente, ainda lhe falta fazer.

Que é muito pouco. Olhando para o currículo do suíço que bate numa bola de ténis como se a acariciasse, a única proeza que não alcançou foi sair de uns Jogos Olímpicos com uma medalha de ouro ao pescoço, pelo que fez individualmente - em 2008, deixou Pequim com a vitória no torneio de pares, dividindo o court com Stan Wawrinka.

Não que ele esteja a pensar muito em colocar o check nesse feito. “Se ainda estiver a jogar, ótimo. Mas não digo que tenho de ir a mais uns Jogos antes de me retirar. Não é um tema de discussão, digamos assim. Ainda falta tanto tempo”, disse, esta semana, numa entrevista ao "The Guardian".

Noventa e seis conquistas em que cabem 20 majors, seis ATP Finals, 27 torneios do Masters 1000, 19 ATP 500 e 24 de categoria 250. Elas advêm de 145 finais de competições que jogou, incluindo as 30 em torneios do Grand Slam.

Roterdão poderá ser um título mais na carreira de Roger Federer se este sábado vencer e, no domingo, o fizer de novo. Elogiá-lo, adjetivar este e outros feitos ou tentar amplificá-lo ainda mais já parece, nesta altura, nada acrescentar.