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Venus bateu Serena num duelo adiado por 17 anos e muitos ressentimentos

Na edição de 2001 do torneio de Indian Wells, Venus desistiu da meia-final com a irmã Serena e o público não perdoou, assobiando e apupando a mais nova na final. Entre alegações de resultados combinados de um lado e racismo de outro, as Williams boicotaram o torneio durante quase década e meia. Na última madrugada, voltaram a encontrar-se naquele que é considerado o 5.º torneio do Grand Slam. E a mais velha foi mais forte

Lídia Paralta Gomes

Kevork Djansezian/Getty

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Vamos retroceder 17 anos.

Em 2001, Venus e Serena Williams, então com 20 e 19 anos, respetivamente, estavam em pleno ataque furtivo à dominação do ténis mundial. Elas, duas miúdas negras num desporto que ainda hoje é maioritariamente branco. A mais velha tinha já dois títulos do Grand Slam no bolso. A caçula havia sido a primeira afroamericana a vencer um dos quatro majors na Era Open, no Open dos Estados Unidos de 1999.

Assim, as meias-finais do Indian Wells de 2001 eram um happening tenístico. Lotação esgotada no court principal, honras de horário nobre na ESPN. Até que, golpe de teatro, 10 minutos antes de as manas começarem o aquecimento, Venus alegou uma tendinite no joelho para desistir. O público californiano, vendo a sua expectativa defraudada, assobiou. Serena, essa, estava automaticamente na final, sem ter que jogar sequer um ponto na meia-final.

Dois dias depois, Venus e o pai das Williams, o idiossincrático Richard Williams, preparavam-se para tomar os seus lugares para assistir à final entre Serena e a belga Kim Clijsters. Mal entraram no estádio, receberam das 15 mil pessoas que ali estavam um chorrilho de assobios e apupos. O mesmo tratamento para Serena - jogava no seu país, mas era como se estivesse na mais longínqua das nações.

A cada ponto de Clijsters, o público festejava. A cada erro não forçado da norte-americana, o público batia palmas, infringindo uma das mais elementares regras não escritas do adepto de ténis. Mesmo assim, Serena Williams venceu. E daí até 2015 nunca mais meteu os pés em Indian Wells, aquele que é, para muitos, como que um 5.º torneio do Grand Slam.

Venus voltou em 2016. Mas só na última madrugada Indian Wells conseguiu ver aquele encontro que ficou adiado por 17 anos. Venus com 37 anos e Serena com 36. E a mais velha levou a melhor, por 6-3 e 6-4, garantindo assim um lugar nos oitavos de final do torneio.

Racismo, resultados combinados, uma explicação nunca clara

Nas semanas que antecederam os acontecimentos de Indian Wells, falava-se à boca pequena que Richard, patriarca da família Williams, que tinha criado as duas filhas para serem máquinas de ténis, dominava de tal maneira o filme da vida de Venus e Serena que decidiria até os resultados dos jogos em que ambas se defrontavam. E a desistência de Venus na meia-final de Indian Wells veio aumentar ainda mais as suspeitas da influência de Richard no destino das filhas - o que explica em parte a reação enfurecida do público.

O patriarca acusaria mais tarde o público de Indian Wells de insultos de teor racista naquela infame tarde de 2001. Serena disse ter ouvido várias vezes a palavra "nigger" vinda das bancadas. A organização começou por refutar as alegações dos Williams, mas o certo é que durante década e meia, nem Serena nem Venus jogaram em Indian Wells.

Quando anunciou o regresso ao torneio, em 2015, num artigo de opinião escrito na revista “Time”, Serena falou do quão “dolorosas” foram as acusações de resultados combinados, as supostas injúrias racistas e de como se sentiu “pouco bem-vinda, sozinha e amedrontada” naquele que era um dos seus torneios favoritos. De como chorou horas a fio no balneário após vencer o torneio em 2001. E de como teve de ultrapassar o medo de entrar no court e ser apupada.

Richard e Venus Williams congratulam Serena após a vitória na final de Indian Wells em 2001: Serena foi apupada durante todo o jogo

Richard e Venus Williams congratulam Serena após a vitória na final de Indian Wells em 2001: Serena foi apupada durante todo o jogo

O reencontro com a irmã teria de esperar mais uns anos e acabou por pender para a mais velha. Foi como o fechar de uma ferida com o torneio. Antes do encontro, Serena frisou que já nem pensa no assunto e que o que a preocupava mesmo era ter a irmã como rival: “Preferia enfrentar qualquer outra, abomino ter de jogar contra a Venus”.

A última vez que as irmãs Williams se encontraram, na final do Open da Austrália de 2017, Serena já estava grávida da pequena Alexis, que nasceu a 1 de setembro - Serena venceu por duplo 6-4. Está agora de regresso ao circuito e ainda à procura da forma que faz dela uma das melhores da história.