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Novak Djokovic está a perder a luta contra ele próprio

O sérvio que vendia por uma fortuna cada ponto que o tinha ao barulho está irreconhecível: dos seis jogos que tem em 2018, venceu três e perdeu outros tantos. Os últimos na primeira ronda de Indian Wells e, na sexta-feira, em Miami, onde Novak Djokovic, vencedor de 12 Grand Slams, soltou uma confissão: "Estou a tentar, mas isto não está a funcionar. Continuo a enfrentar-me a mim mesmo"

Diogo Pombo

Al Bello

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Não há desportista, e isto ainda nem é sobre ténis, que ache piada a este tipo de efemérides, no caso de se aplicarem a ele: há quase 11 anos que não perdia três jogos seguidos.

Muito menos graça achará se, olhando-se ao espelho, recordar que é o tenista que já passou 223 semanas da sua vida a liderar um ranking que junta todos os homens que escolheram jogar ténis profissionalmente; que ganhou 12 Grand Slams cujos troféus estarão guardados, lá em casa, não muito longe desse espelho; que tem o recorde conjunto de 30 torneios do Masters 1000 conquistados; que fechou 10 anos consecutivos entre os três primeiros classificados da tal hierarquia do ténis mundial.

Vendo-se a um espelho, não em casa, mas no balneário do estádio do Miami Open, nos EUA, Novak Djokovic terá ficado ainda mais desgostado do que as palavras o fizeram parecer: "Estou a tentar, mas não está a resultar. É isso. Quero conseguir jogar melhor, mas, neste momento, é impossível".

O sérvio, um dos campeões dos campeões que imperou sobre o ténis na última década - a meias com Roger Federer e Rafael Nadal -, perdeu dois sets (6-3, 6-4) e 63 minutos para Benoit Paire. Foi a terceira derrota consecutiva ao sexto jogo que fez nos últimos oito meses.

E não houve vislumbre do tenista devorador, que não se cansava, ia buscar respostas impossíveis com o corpo esticado e distorcido, que se agigantava perante quem estava do outro lado da rede só com o desânimo e desgaste psicológico que causava. Porque Djokovic era o tipo que não desistia, chegava a todas as bolas e sempre as devolvia mais difíceis. Tudo com uma técnica monstruosa para todo o gesto e pancada.

Mas, agora, Novak é o tenista com 31 anos desta vida que perde contra tipos inferiores em tudo (talento, técnica e ranking), como perdeu antes com Taro Dariel (japonês, 111º), em Indian Wells, sem aparentar que, alguma vez, tivesse hipótese de o evitar.

O sérvio foi operado há cinco semanas ao cotovelo direito, a articulação que o manteve sem competir durante meses, antes do Open da Austrália. "Não iria para o court se não achasse que tinha hipótese de ganhar um jogo de ténis. Ninguém me está a forçar. Infelizmente, não estou ao nível que gostaria de estar. Mas, é a vida", desabafou, em Miami.

Clive Brunskill

Até este conformismo, espécie de encolher de ombros face ao que o rodeia, é estranho em Djokovic - o velho, o ambicioso, o revoltado Djokovic, ter-se-ia inflamado contra uma derrota aquém do esperado e deixado isso claro nas suas palavras.

Mas, hoje, a cabeça de Novak não é a dele, mas a de um tenista sem confiança, duvidoso e frágil. A mente da qual, antes, tudo o que fazia com o corpo ia a reboque, é a que, desde o ano passado, despediu toda a equipa técnica que o acompanhava há mais de 10 anos, contratou André Agassi, mudou de patrocinador (Uniqlo para a Lacoste) e se tornou, inesperadamente, filosófica:

"Sei que não podes ser a pessoa que eras ontem. Ou o tenista que já foste. Mas tens de ir treinando, evoluindo, tentando melhorar o teu jogo. Continuo a enfrentar-me a mim mesmo, marcando objetivos, respeito a minha saúde e o meu ténis. Não sei o que posso esperar. Realmente, não espero nada. A vida continua."

A de Novak Djokovic continuará a 15 de abril, em Monte Carlo, no primeiro teste da época de terra batida. Outro torneio do Masters 1000, mais uma oportunidade para se aproximar um pouco da sua versão fidedigna.

Ou pode também ser outra ocasião para o sérvio lutar contra ele próprio - e, uma vez mais, perder.