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"Eu jogo muito mais do que o gajo". Tinhas razão, João Sousa

Começou por ser o velho João Sousa: refilão, volátil, desconcentrado e a berrar para o ar. Foi atropelado no primeiro set, mas a cabeça tem destas coisas e a do tenista português assentou para ganhar a Jared Donaldson (1-6, 6-3 e 6-4) e passar aos oitavos-de-final do Masters 1000 de Miami pela primeira vez na carreira

Diogo Pombo

Matthew Stockman

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A bola vinha tensa e baixa, com pouca força e a passar pouco por cima da tela. Jared Donaldson dera uma pancada em jeito defensivo, com alguma rotação na bola e apontando-a para os pés de João Sousa. Os pés que o português acelerou em demasia, a pressa de quem corre para chegar a uma bola difícil. Precipitou-se, quis responder em volley, arriscou uma pancada em que tudo depende das mãos e da técnica.

Foi para fora. Uma quebra de serviço nunca vem em boa altura, mas quando acontece ao terceiro jogo da primeira partida, em qualquer coisa como 10 minutos, é bastante mau para seja qual for o tenista.

E muito mau foi para João Sousa, o volátil português que já vimos a frustrar-se e irritar-se a ele próprio quando as coisas não lhe correm bem. Precisamente nos momentos em que a cabeça deve ser um refúgio para de lá se sair mais forte, concentrado e estável.

Mas não ele, que erra sem ser forçado a errar. Não tem a leveza de pés que teve dias antes, para eliminar o número nove do mundo, David Goffin. Não coloca pancadas longas e aos cantos do court. Não consegue atacar uns passos à frente, na linha de fundo, e não tem no próprio serviço uma base para ser superior.

Aos poucos, João Sousa torna-se no João Sousa que já vimos algumas vezes, sempre vezes demais.

- "Epá, não consigo perceber. Zero intensidade, zero nada! Não consigo perceber", grita para o ar, com alguns palavrões a servirem de vírgulas. Logo a seguir, uma dupla falta, uma das cinco que fez durante a primeira partida do encontro.

- "Eu jogo muito mais do que o gajo", berra, virado para Frederico Marques, o treinador que está na bancada, impávido. Pouco depois perde o set por 1-6, ao fim de apenas 25 minutos de jogo.

O João Sousa distraído, remoída dele próprio e a deixar-se derrotar pela figura que tem dentro dele e hoje já costuma ser capaz de esconder a um canto. A figura que refila, se revolta e protesta com o mundo quando as coisas não lhe correm bem e que faz com que o João Sousa que está entre nós leve uma advertência do árbitro de cadeira, mal arranca o segundo set

Matthew Stockman

- "Não percebo, não me consigo concentrar!"

Curioso, porque não passam muitos minutos após esta confissão disparada para o ar até o português, aos poucos, se acalmar. Começa a acertar mais bolas em que arrisca abrir os ângulos, responde melhor aos serviços de Donaldson, os pés já não estão tão estáticos e as esquerdas já caem nos limites do campo.

O português quebra o serviço ao americano para o 4-3 e ganha os dois jogos seguintes para reclamar a segunda partida. O 6-3 que demora 42 minutos é do João Sousa intenso, a disparar winners nas pancadas de direita, a ser capaz de pressionar Donaldson com quase todas as bolas que lhe saiam da raquete.

A mente é uma coisa tão volátil como brilhante, e imprevisível. Por mais estudos que se façam, inexplicáveis deverão continuar a ser os desportistas que perdem a cabeça e a ganham; que caem e se levantam por causa dela; que parecem derrotados e viram ganhadores em questão de minutos. O terceiro e decisivo set é prova disso.

João Sousa é agressivo, mais do que móvel, salta e troca os pés com a naturalidade que o ténis pede. Ganha pontos e não treme no seu serviço, abusa da sua direita e ameaça o de Donaldson.

E o bom jogo de ténis que se pôs foi-se jogando com muito pouco a separar os dois tenistas até ao ponto, ou aos pontos, em que houve apenas uma ténue linha a separar João Sousa dos oitavos-de-final. Essa pequena barreira, chamada Jared Donaldson, ainda aguentou quatro match points com o seu serviço, mas, ao quinto, o português gritou com tudo o que tinha.

A cinco dias de dizer olá aos 29 anos de vinda, João Sousa berrou com a vitória no encontro em revisitou o seu velho eu, transformou-se, reconquistou a cabeça e regressou ao bom momento de ténis no qual tem jogado nas últimas duas semanas.

O tipo de ténis que dá razão ao que disse quando a cabeça não estava com ele. "Eu sou melhor que o gajo". É verdade, João. Agora está pela primeira vez na quarta ronda de um Masters em piso rápido.

E agora terá que ser melhor que Hyeon Chung, o sul-coreano de 21 anos que parece não se cansar e que, este ano, já defrontou Roger Federer nas meias-finais do Open da Austrália.

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