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Insultos e ameaças de morte em Miami levam Caroline a pensar em boicote

Caroline Wozniacki foi eliminada há coisa de um mês,na segunda ronda do Masters de Miami e queixou-se da forma como o público ameaçou a tenista e a sua família, mas a organização disse que nada viu ou ouviu. Portanto, a número dois do ranking está a ponderar boicotar o torneio até que a postura de quem o rege, que é James Blake, um ex-tenista, mudar: "Vou tomar uma decisão. Esperava que ele tivesse tomado uma posição, mas não o fez"

Diogo Pombo

Caroline Wozniacki com o troféu do Open da Austrália, que conquistou em janeiro. Foi o primeiro Grand Slam na carreira da dinamarquesa.

Chaz Niell/Icon Sportswire

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Há quase um mês, duas tenistas defrontaram-se na segunda ronda do torneio de Miami e, naturalmente, uma delas perdeu, derrota que foi estranha por vários motivos no geral e três em particular. Caroline Wozniacki, então número dois do ranking e fresca de uma vitória no Open da Austrália, perder contra Monica Puig, apenas a 82ª melhor jogadora, não é usual; muito menos num jogo em que o primeiro set é um 0-6 limpo como um algodão para a dinamarquesa – antes de um duplo 6-4; depois, há o motivo que fez Wozniacki voltar a falar sobre o encontro, esta quinta-feira.

A dinamarquesa, de 27 anos, está a ponderar boicotar o Masters 1000 de Miami. Por outras palavras, tem como hipótese recusar-se a voltar a jogar num dos mais importantes torneios no ténis (fora os Grand Slams) devido à postura da organização, ou falta dela, em relação ao jogo em que foi eliminada na última edição da prova - e ao tal terceiro motivo.

Durante esse encontro, a juíza de cadeira projetou a voz no microfone, dezenas de vezes, pedindo ao público presente no estádio para se calarem. Porque, com o passar dos minutos e dos pontos, os gritos entre o primeiro e o segundo serviço - pior, entre as bolas que eram batidas - aumentava e sempre quando era as pancadas eram de Caroline Wozniacki. “Caroline, não posso parar os pontos. Quantas vezes já lhes disse para pararem?”, chegou a dizer, perante mais uma queixa da dinamarquesa.

Ela e qualquer outro ou outra tenista estão acostumados a jogar envoltos em silêncio quando um ponto está a ser disputado. É natural que qualquer grito, aplaudo ou ruído lhe afete a concentração.

A dinamarquesa, notou-se, esteve quase sempre fora da zona e, perdendo, esperou um dia para pegar no telemóvel e redigir uma nota que partilhou nas redes sociais. “Durante o jogo, pessoas que estavam no público ameaçaram a minha família, fizeram ameaças de morte ao meu pai e à minha mãe e chamaram-me nomes que não posso repetir aqui. Disseram aos sobrinhos do meio noivo (que têm 10 anos) para se sentarem e shut the f*ck up”, leu-se, no desabafo.

Wozniacki nunca se queixou do que ouviu como sendo uma desculpa. Frisou que perdeu “contra uma grande adversária” e que está “bem ciente de que o ténis é um jogo de vitórias e derrotas”, justificando o seu lamento público com o estado “miserável” em que o ténis fica “para ambas as competidoras” quando “alguns limites são ultrapassados”.

Logo após o jogo, questionada sobre o assunto, Mónica Puig afirmou não ter despistado qualquer ameaça ou insulto vindos do público. A tenista, medalha de ouro nos últimos Jogos Olímpicos, é natural de Porto Rico, vive em Miami há 23 dos 24 anos que tem, uma zona onde vivem muitos imigrantes ou descendentes porto-riquenhos.

Perante as queixas da dinamarquesa, a organização teve de pronunciar-se e fê-lo pela voz do diretor do torneio. Um rapaz conhecido, de seu nome James Blake, antigo tenista que chegou a ser número um dos EUA e quarto classificado do ranking mundial. “Tínhamos staff do torneio e da WTA [Women’s Tennis Association], e também seguranças, junto ao court. Eles não testemunharam, nem foram notificados, de quaisquer ameaças especificamente feitas aos jogadores ou às suas famílias”, defendeu, na altura.

Foi esta resposta que desagradou a Caroline Wozniacki, que é dinamarquesa e vive no Mónaco, embora passe bastante tempos por terras americanas, por ser noiva de David Lee, basquetebolista da NBA e dos San Antonio Spurs.

E as pistas que deu, esta quinta-feira, sobre um possível boicote ao Masters de Miami, que no fundo poderá vir a ser uma recusa em jogar no torneio, também podem ser encaradas como uma forma de pressionar Blake e a organização: ou tomam uma posição que valide as queixas de Caroline Wozniacki e, pelo menos, reconheça o que a tenista diz ter ouvido e sofrido, ou ficarão sem a presença de uma das mais mediáticas e populares caras do ténis feminino.

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    Seis anos depois de ter perdido a liderança do ranking WTA, a tenista dinamarquesa de 27 anos recuperou a coroa de glória, após derrotar, este sábado, no Open da Austrália, a romena Simona Halep que entrou no court como n.º1. Foi o primeiro título em torneios do Grand Slam para Wozniacki, depois de duas finais perdidas no US Open