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Se todos os Sousas fossem sempre assim

Foi uma batalha de quebras de serviço, match points salvos, potentes esquerdas e amortis tecnicamente sem espinhas. Ao contrário do que se vê no ranking, houve muito pouco a separar João Sousa de Pedro Sousa na terra batida, onde só após mais de 2h30 de jogo é que o teoricamente melhor dos Sousas conseguiu, na prática, levar o melhor do outro (4-6, 7-6 (1) e 7-5). João Sousa está nos quartos-de-final do Estoril Open

Diogo Pombo

Carlos Rodrigues

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Olhar para os números e estreitar as nossas expetativas neles quando temos um jogo de ténis à frente até nem é coisa para correr mal. É uma modalidade em que há surpresas, é certo, e por isso é que gostamos de desporto. O tipo de surpresas a que me refiro, que é ver um teoricamente pior tenista a ganhar a alguém melhor do que ele, não é assim tão comum para esperarmos que o 143º classificado do ranking mundial vença quem está na 68ª posição.

Ainda para mais quando o tenista que está por cima, para lá dos pontos, tem mais experiência de viajar e jogar em torneios de Grand Slam, contra os melhores jogadores que há e que jogam a outro ritmo e intensidade. Esse tenista é João Sousa, há alguns anos a cara do ténis português, acostumado a partilhar courts com tenistas que estão entre os 20, 30, 40 ou 50 melhores do mundo, em torneios maiores e mais importantes que este Estoril Open.

A prova à qual o outro tenista, Pedro Sousa, chegou depois de disputar cinco torneios Challenger, uma espécie de quinta categoria de provas no circuito mundial da modalidade. Apesar de terem a mesma idade e de se conhecerem há muito tempo, ele não está, de longe, habituado às andanças a que o vimaranense se adaptou, que é de quando em vez defrontar lendas como Roger Federer, Rafael Nadal ou Novak Djokovic.

Mas, durante mais de hora e meia, nenhuma destas diferenças é percetível no que interessa, que é o ténis jogado entre dois portugueses que se equivalem no pó de tijolo. Aliás, o Sousa de quem talvez menos se espera até é o que mais mostra, porque Pedro vence o primeiro set por 6-4 e prossegue com a sua arrasadora esquerda a duas mãos, potente e colocada, até obrigar o segundo jogo a esticar-se até um tie-break.

É a única altura do encontro em que é João a ganhar sem espinhas (6-0) e levar o segundo set por 7-6. É quase uma segunda vida para a vivência que o melhor tenista português tem no jogo, porque já tinha salvado dois match points e era quem menos winners, pancadas vistosas e pontos ditadores conseguia juntar no encontro. Só que, aos poucos, e mesmo sem baixar o lado técnico das pancadas, dos amorti de esquerda ou das acelerações de ponto, Pedro Sousa começa a quebrar no físico.

Ele apoia as mãos nos joelhos, assume posturas de quem aproveita cada segundo morto no jogo para descansar, tira o boné da cabeça e volta a colocá-lo, dá sinais de cansaço, mas vai conseguindo manter João Sousa pressionado no risco que toma em tentar encurtar os pontos.

A sua postura denuncia que o encontro, para ele, já é uma espécie de sofrimento suportável, um sacrifício a que a ocasião o obriga e ao qual Pedro responde aguentando o seu ténis lá em cima. O melhor elogio fazível ao tenista lisboeta é sublinhar como, pela segunda vez, ainda é capaz de ter um jogo de serviço para fechar o encontro contra o vimaranense com mais ritmo e mais capaz de manter esta intensidade.

Até que, findas mais de duas horas e meia do quiçá melhor encontro desta edição do torneio, o físico atraiçoa de vez Pedro Sousa. Agarra-se ao último set com tudo e consegue salvar quatro match points perante a agressividade que João Sousa coloca em todas as pancadas, como um predador que já sente a presa combalida e sabe que é altura de atacar com tudo. E o jogo termina com Pedro Sousa a mostrar-nos o porquê de este jogo ter sido, provavelmente, o melhor do Estoril Open até ao momento.

Porque ele ataca a última bola com tudo, numa esquerda em suspensão que sai demasiado longa e o leva até à rede para dar um longo abraço a João Sousa, que avançou para os quartos-de-final e resumiu, após o encontro, o que estará na cabeça de toda a gente que os viu a jogar: "Vai ficar para a memória, sem dúvida, para mais tarde recordar".