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"O João Sousa sempre foi refilão. Quando éramos mais pequenos e treinávamos para a Taça Davis tínhamos de lhe dizer ‘eh pá, cala-te e joga’"

O primeiro português a chegar à final do Estoril Open fala na primeira pessoa sobre a vitória de João Sousa na edição deste ano da competição. Fred Gil, que em 2010 perdeu por 6/2, 6/7 e 7/5 com Albert Montañes, naquela que foi até então a final mais disputada de sempre, confessa que quando conheceu João Sousa nunca lhe passou pela cabeça que fosse capaz de chegar onde chegou

Texto Frederico Gil (depoimento recolhido e construído por Alexandra Simões de Abreu)

João Sousa venceu este domingo o Estoril Open

JOSE SENA GOULAO/ lusa

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Antes de mais, parabéns ao João Sousa. Fiquei extremamente contente pelo João e pelo Frederico Marques, o seu treinador, porque o Fred também é meu amigo desde criança. Treinámos juntos na Federação Portuguesa de Ténis e no clube do João Cunha e Silva, o Fred sempre foi um companheiro e amigo e acho que os dois merecem este título, que já perseguiam há algum tempo. Saliento que, nos últimos anos, o João tinha tido algumas dificuldades em lidar com o fator casa. Fiquei muito feliz por ter derrubado mais esta barreira psicológica, para todos nós, porque nunca nenhum português tinha ganho em casa.

O fator casa tem dois lados. É verdade que em casa temos um maior apoio do público. Mas também temos muita ilusão e muita vontade de conseguir perante as nossas pessoas vencer um torneio que é dos mais queridos desde que somos pequeninos. Lembro-me de em criança ir ao Estoril Open e sonhar com a vitória. Aliás, ainda hoje continua presente o meu sonho de ganhar o Estoril Open. Todos nós, os bons jogadores, temos esse sonho dentro de nós. Conquistar o maior torneio que há em Portugal. Se por um lado existe aquela motivação de demonstrar que é possível, do outro há a pressão e o pensamento “não vai correr bem, se calhar vou envergonhar-me aqui, se calhar aqui onde quero jogar mais é onde jogo pior”.

O João tinha passado por isso nos últimos anos. E nunca tinha lidado bem com essa situação. Aliás, nesta edição, no jogo contra o Pedro de Sousa, ele esteve muito perto de não conseguir. Esteve a perder 6-4, 5-2 e naquele dia, naquele momento, o jogo era para o Pedro. Mas o João teve o mérito de se aguentar, de lutar e conseguiu. Depois, com a confiança, com a motivação e o corpo já mais recuperado, conseguiu vencer, o que foi incrível. Isto é uma lição para todos nós. Não é nada que eu não saiba mas o jogo de ténis só acaba mesmo depois do último ponto, porque pode mudar a qualquer momento e é preciso estar lá o tempo todo. O João é um exemplo nesse sentido. É um orgulho, a capacidade que ele tem de aguentar, de lutar, de persistir e de acreditar, é muito forte.

A celebração de João Sousa

A celebração de João Sousa

FOTO JOSÉ SENA GOULÃO / LUSA

Recordo que eu, em 2010, já estava satisfeito por ter conseguido ir à final, porque não estava à espera. Entrei para o torneio vindo de uma fase em que não estava a ganhar muitos jogos. Fui numa de ganhar ritmo, fazer o melhor possível e pouco a pouco fui subindo de forma ao longo do torneio. Quando me deparei com a situação de ter o torneio pela frente para ganhar, sou sincero, não estava preparado mentalmente para ganhar o Estoril Open. Quando tive a oportunidade não consegui agarrá-la, porque comecei a pensar ‘como é que vou festejar, como é que vai ser’, e de repente o meu foco saiu do ténis, do jogo. Já só estava pensar como é que ia festejar. Ganhei uma dose extra de adrenalina e de ansiedade, com a qual não soube lidar bem. Ainda estive a ganhar 4-2, mas o meu adversário Albert Montañes começou a ser muito sólido e comecei a não conseguir jogar o que estava a jogar até àquele momento. A minha oportunidade passou. E isto passa tudo num instante, é tudo muito rápido no jogo. O Montañes era mais experiente do que o americano Frances Tiafoe, que defrontou o João. O Montañes tinha ganho o Estoril Open no ano anterior, tinha ganho ao Federer um dia antes, já tinha ganho vários títulos ATP, é um jogador com um calo e experiência grandes. Eu era muito puto e o ele foi esperto, esperou, esperou, esperou pelos meus erros, esperou que eu ficasse um bocado mais nervoso e só a seguir é que veio para o ataque. Quando se viu a perder 3-0 e 4-2 comigo, jogou de forma consistente, jogou sólido. Eu atrapalhei-me com aquilo tudo, era muito verde, mais inexperiente.

Aqui é completamente diferente, o João já vem de ganhar títulos, já passou por isto, tem outro ranking, apanhou um Tiafoe mais cansado, que não é especialista na terra batida, e o público também ajudou muito. Ou seja, as condições estavam muito mais a favor do João do que propriamente na final que eu joguei. Eu podia ter ganho na mesma, mas faltou ali um bocadinho... .

Foto José Sena Goulão / Lusa

Mas vamos ao João Sousa. Conheço-o desde miúdo. Recordo-me que quando jogávamos a Taça Davis, era eu o nº1 e ele era dos mais fraquinhos do nosso grupo, era o nº3, nº4 da seleção. Treinava muito, mas estava sempre a reclamar, ora eram as bolas, os árbitros, os treinadores, estava sempre a refilar ao ponto de nós dizermos “eh pá, cala-te e joga”, “pára de reclamar, parece que está sempre tudo contra ti”. Ele tinha uma atitude má em campo, que o prejudicava muito. Melhorou muito esse aspeto no jogo dele com o Frederico Marques e com a psicóloga em Espanha. Virou aquilo no sentido da agressividade em campo. Tem feito um excelente trabalho nesse sentido.

Lembro-me do João pequenino, que ficava no meu quarto. Era muito certinho, falava sempre com a namorada, descansava, observava-me, a mim e aos outros jogadores, era fechado até, muito profissional, muito normal no bom sentido. Mas quando íamos treinar virava bicho, passava-se. Quando competia, transformava-se, ficava num modo autodestrutivo. Reclamava muito consigo. Confesso que naquela altura não me passava pela cabeça que conseguisse chegar onde chegou. Sempre pensei que o João era capaz de chegar a nº70, quanto muito 60 do mundo, por isso surpreendeu-me pela positiva. Pouco a pouco também evoluiu na parte técnica e tática do jogo. Nisso o Fred Marques está a fazer um excelente trabalho. Mas sou sincero, nunca pensei que o João viesse a ser um top 30 e ganhasse vários ATP. Acho que a relação de longa data que ele tem com a namorada, a Júlia, que foi com ele para Barcelona, e com o Fred Marques dá-lhe muita estabilidade.

JOSé SENA GOULão /lusa

Quanto ao futuro, o João tem muitos aspetos ainda a melhorar no seu jogo. A nível técnico, principalmente. A nível tático está muito bom, a nível físico está excelente, a nível mental gosto, mas mesmo assim acho que ainda reclama muito. Está sempre a olhar para a bancada e com os “porquê, porquê?” quando falha bolas. Não entendo essa atitude e não gosto, está sempre a reclamar, sempre a olhar para o treinador. Não gosto desse tipo de atitude, não me revejo, não acho que seja saudável, que seja bom. Julgo que tem de melhorar bastante a esquerda dele também. Ele segura o jogo, mas não consegue fazer grande mossa com a esquerda. O serviço está porreiro, o vólei também, a direita é boa, mas tem de melhorar o lado esquerdo do jogo para chegar a outro patamar. Para conseguir fazer mossa a top 10 e ganhar torneios grandes, o jogo que tem ainda não é suficiente. Ele ganha muito pela persistência mas tem de estar sempre muito no limite. Num determinado nível depois não aguenta porque não tem mais soluções. Tem de conseguir fazer mais mossa com menos esforço. E não ter de depender tanto do físico e do adversário mas mais dele.

De qualquer maneira, o que ele faz já é incrível. Com o que tem dá tudo e essa atitude é top.

Uma última palavra para o Presidente da República. Todos sabemos que Marcelo Rebelo de Sousa gosta muito de ténis e foi bom ter aparecido porque esta é uma vitória para todos nós, não só para o João, é uma vitória para Portugal também.