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Têm noção do que é ganhar 50 sets consecutivos?

Não é que necessitasse de mais recordes no legado que deixará para trás, mas Rafael Nadal insistiu em bater um que já durava há 34 anos: o espanhol é o tenista que mais sets consecutivos ganhou numa mesma superfície. Aconteceu no Masters de Madrid e só podia ser em terra batida, claro

Diogo Pombo

Rafael Nadal tornou-se no tenista que mais sets seguidos ganhou sobre uma mesma superfície. Só poderia ter sido em terra batida.

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John McEnroe era um homem com noção, ou quase, vá, do que era conseguir esses 50 sets consecutivos.

O americano de mau feitio, fervilhante a muito baixas temperaturas, quem mais barafustava no campo, teve uma altura na sua vida em que, literalmente, ganhou a toda a gente que lhe aparecia do outro lado da rede. Desde que estivesse a pisar carpete sintética, superfície entretanto abolida pela ATP em 2009, a bem das lesões, não havia tenista que lhe vencesse.

Como tudo na vida, essa imbatibilidade era efémera e, durante esse ano de 1984, o americano acabaria por ser derrotado. Mas apenas o foi ao fim de 49 encontros, número que prevaleceu como recorde durante 34 anos. Até aparecer Rafael Nadal, o tenista que mais nos faz acreditar que poderia existir uma igreja da invencibilidade no desporto da raquete na mão se, no chão, houvesse pó de tijolo.

Porque, a pisá-lo, seria sempre o espanhol o mais próximo que a humanidade teria de um ser imbatível, como o provou esta quinta-feira. Em Madrid, ele ganhou o quinquagésimo set consecutivo na terra mais batida e lenta do ténis, onde as rotações por segundo que Nadal corta na bola e a potência do seu físico musculado mais imperam. Rafael Nadal bateu Diego Schwartzman (6-3 e 6-4) e deu mais uma razão ao já reformado e, supostamente, calmo McEnroe perdeu um pouco dos seus carretes.

Nadal bateu o recorde do americano e conseguiu encadear uma série de 50 sets vencidos sobre a mesma superfície. Um atropelo figurativo e alaranjado a 20 adversários, entre os 290 jogos de serviço ganhos e os 105 que perdeu. Alexander Zverev foi quem mais ousou, e logrou, roubar-lhe jogos (nove) e Dominic Thiem quem mais tentou, e falhou - o único a defrontar o espanhol duas vezes nesta série.

Alex Caparros

Simbólico, porque foi com o austríaco que tudo começou, a 19 de maio de 2017, em Roma, e contra quem tudo poderá acabar. A meia centena de vitórias fez Nadal alinhar-se, de novo, com Thiem, nos quartos-de-final do Masters da capital espanhola, esta sexta-feira. O terceiro choque entre o jogo estético e gracioso de um dos herdeiros da esquerda a uma mão e a agressividade técnica do melhor defensor, atacante e batedor de top spin que o ténis produziu em terra batida.

Estamos nós, e quem gosta de ténis, no geral, a discutir e a escrever sobre mais um recorde na carreira dele, e já Rafael Nadal desconsiderava o feito.

Com a sua humildade e o desportivismo que ele transmite como respeito e verdadeiro amor ao desporto que escolheu dominar - após vencer Schwartzman, levantou-se do banco para aplaudir o argentino, enquanto abandonava o estádio -, o espanhol reagiu assim: “Não menosprezo qualquer recorde, mas quando saio para jogar não penso nessas coisas. Quando terminar a carreira os recordes lá estarão, é muito difícil ganhar 50 sets seguidos, mas pronto, já está. Não falemos mais neles e pensemos no que aí vem, que é isso que me importa”.

Rafael Nadal é quem mais noção tem do que é estar perto de ser imbatível, se jogar ténis sobre uma dada superfície, mas, simplesmente, parece nem querer saber.

  • Chegou aquela altura do ano em que o monstro acorda

    Ténis

    O ténis entrou na temporada em que os campos ficam laranjas e o calçado dos tenista sujo com pó de tijolo. O que é um sinónimo para a fase da época em que Rafael Nadal parece cair no seu caldeirão de poção mágica para ninguém ser capaz de competir com ele. O espanhol venceu em Monte Carlo pela 11ª vez na carreira, sem perder um set, já é o tenista com mais torneios do Masters 1000 da história e as atenções, agora, viram-se para o sítio do costume: Roland Garros