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Com que moral se joga ténis contra este homem, em terra batida?

Rafael Nadal, uma vez mais, demonstrou todo o seu poderio e omnipresença para dominar qualquer troca de bolas em terra batida, ao desmantelar (6-4, 6-1 e 6-2) Juan Martín del Potro e garantir a 11ª presença na final do seu torneio predileto. No domingo (14h, Eurosport), o espanhol vai jogar a decisão de Roland Garros contra Dominic Thiem, o austríaco que foi o único a conseguir derrotá-lo nos últimos tempos, sobre o pó de tijolo

Diogo Pombo

Chaz Niell/Icon Sportswire

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O bom gigante cerra os punhos e ergue os braços, a raquete está numa das mãos. Abana-os, olha para o céu e sorri. É uma postura festiva, de alguém que se regozija por ter logrado um certo tipo de conquista, alguma coisa boa pela qual lutou e batalhou. Antes de o aplaudirem, as pessoas que assistem no court central riem-se um pouco, não de Juan Martín del Potro, mas com ele, pelo tamanho sarcasmo que mistura com a pitada de alegria possível.

O argentino acaba de conseguir o primeiro jogo, na primeira vez que impede o adversário de lhe quebrar o serviço. Acabou de evitar que a história do segundo set fosse um 6-0 e um completo desmantelamento, peça por peça, de um tenista ao outro.

Ele faz o 5-1, adia o inevitável e celebra com aquele festejo. Escolha de um desportista que opta por ser sarcástico perante as circunstâncias que a vida lhe dá, e a qualquer alma que se ponha num court de terra batida com Rafael Nadal, este tenista tão particular que faz um dos melhores jogadores do mundo (número seis do ranking) reduzir-se a este gesto que, por muita piada que tenha, obriga a perguntar:

Que moral sobrará em qualquer tenista profissional que tenha de defrontar o rei da terra batida no seu próprio território, com ele em forma e motivado, intenso e esfomeado por títulos?

A resposta será pouca, ou muito pouca, tendo em conta a enésima prova de supremacia que Nadal demonstrou, esta sexta-feira, ao derrotar Del Potro em três sets e pouco mais de duas horas, por 6-4, 6-1 e 6-2. Parciais que não enganam e nos quais os sete jogos de serviço que o argentino ainda resgatou até abonam a seu favor, porque ilustram uma dose de luta que, no fundo, ele nunca chegou a dar.

THOMAS SAMSON

O argentino é o tenista que estava fora do top-10 à entrada para 2018 e, hoje, jogou a quinta meia-final de um Grand Slam da sua carreira. Garantiu que vai igualar, a partir de segunda-feira, a sua melhor classificação de sempre (4º), mostrando como as lesões nos pulsos, que quase lhe mataram a carreira, também privaram o ténis, durante mais de dois anos, de um dos melhores talentos desta geração.

Mas para ele, como para todos os homens que jogam ténis por estes dias, existe um teto quando sujam as sapatilhas com pó de tijolo. Esse limite é Rafael Nadal, a besta indomável que prossegue, aparentemente imparável, para a 11ª final em Roland Garros tendo ganhado na dezena de vezes anterior em que lá chegou.

Será a vigésima quarta final de um torneio do Grand Slam que o espanhol jogará, aos 32 anos. Nadal deveria estar a esmorecer, a sofrer as consequências do avançar da idade e a abrir caminho para tenistas mais mortais e terrenos, mesma expetativa que se esperaria de Roger Federer, o outro único jogador que foi capaz de jogar 11 finais de um mesmo torneio (Wimbledon, no seu caso).

Mas não, o seu jogo do top-spin mais rotativo do ténis, o poderio em qualquer pancada e da capacidade em ir buscar qualquer bola só parecem estar a melhorar. E a contribuir, cada vez mais, para uma estatística destas - em 444 encontros jogados sobre terra batida, apenas perdeu 36.

Dessas esporádicas derrotas, as últimas duas, que surgiram no último par de anos, foram causadas pelo mesmo adversário. Por Dominic Thiem, o austríaco cuja aptidão nesta superfície apenas fica aquém de Rafael Nadal e a questão, no domingo (14h, Eurosport), será ver o quão afastado está do nível do espanhol - ou se estará num daqueles dias em que o tudo se alinha para o seu lado e o superará, como há uns meses, quando lhe interrompeu o recorde de 50 sets seguidos em terra batida.

Uma parte dessa questão, com certeza, recairá na moral e na confiança possíveis com que entrará no court com o monstruoso espanhol.

CHRISTOPHE SIMON