Tribuna Expresso

Perfil

Ténis

O estilo – ou, para os metafísicos entre vós, a alma – pode mais que os joelhos

Em 1753, ainda não existia o ténis moderno mas já Paris era eterna, o conde de Buffon proferiu, entre outras que entretanto pereceram, as imortais palavras: “O estilo é o homem”. Bruno Vieira Amaral explica o que é que isto tem que ver com Rafael Nadal, o homem que “tornou Roland Garros no seu campo de treinos, a coutada onde recebe anualmente os aspirantes e lhes aplica corretivos impiedosos que eles são obrigados a aceitar com o prazer masoquista do discípulo perante o mestre”. Nadal venceu este domingo o torneio francês pela 11ª vez.

Bruno Vieira Amaral

reuters

Partilhar

O Rei da Terra Batida

Haverá algo de jocoso em chamar Rafael Nadal de “rei da terra batida”? A mim, a expressão não evoca soberania nem poderio. Lembra-me, ao invés, outros monarcas duvidosos, como o “rei dos frangos”, o “rei das meias” ou os “Gipsy Kings”. Friamente analisada, não servirá a expressão apenas para circunscrever ao território vulgar da “superfície de pó de tijolo” as legítimas aspirações reais de Nadal? Após mais uma conquista em Roland Garros, o tenista espanhol, el de Manacor, com os seus bíceps de servente das obras, o aspeto de jornaleiro andaluz curtido pelo sol, o rosto com aquela ligeira inclinação do touro antes da investida, regressa a casa com a taça dos mosqueteiros e uma coroa de madeira pintada a guache onde alguém gravou as iniciais: RNRTB. Daqui a uns meses, ainda a sacudir o pó dos calções e a limpar os pés no tapete do All England Club, irá desafiar uma vez mais o rei legítimo, D. Roger, com os seus imaculados calções brancos e aquela forma graciosa de deslizar sobre a relva que separa os bailarinos dos cabouqueiros. Ainda que o derrote – e não seria a primeira vez que tal acontecia em Wimbledon, como bem se lembram todos os que viram a célebre final de 2008 –, no próximo ano Nadal voltará a ser o incontestável e plebeu “rei da terra batida”.

reuters

Porém, podemos olhar para o título de “rei da terra batida” e não ver nele nada de jocoso. Olhando para os números, até parece mais um eufemismo: Nadal é o tenista com mais títulos em Roland Garros (11, cincos dos quais consecutivos, também um recorde; o que mais se aproxima é Björn Borg, sueco do tempo das raquetas de madeira, com 6 triunfos), é o tenista com a maior série de vitórias consecutivas numa única superfície (81 vitórias em terra batida entre 2005 e 2007), é o único tenista a ter ganhado um torneio 11 vezes (além de Roland Garros, ganhou 11 vezes em Barcelona e em Monte Carlo) e o recordista de títulos em terra batida (57). Em terra batida, ninguém vira frangos, vende meias e toca guitarra como Nadal. A diferença para os outros, mesmo para os melhores, é tão grande que dá a impressão de se tratar de um desporto diferente. Novak Djokovic e Federer, que ao todo ganharam 32 torneios do Grand Slam, exibem envergonhadamente duas vitórias em Paris, uma para cada um, sendo que em nenhuma delas tiveram de enfrentar Nadal. O tenista maiorquino transformou Roland Garros no seu campo de treinos, a coutada onde recebe anualmente os aspirantes e lhes aplica corretivos impiedosos que eles são obrigados a aceitar com o prazer masoquista do discípulo perante o mestre. No court Philippe Chatrier, dir-se-ia que Rafa joga de roupão e chinelos se o seu estilo agressivo não desaconselhasse metáforas tão domésticas e fleumáticas.

epa

Pois, o estilo. Em 1753, ainda não existia o ténis moderno mas já Paris era eterna, o conde de Buffon proferiu, entre outras que entretanto pereceram, as imortais palavras: “O estilo é o homem”. Além dos títulos ambíguos e das inequívocas estatísticas, Rafael Nadal é um estilo, uma determinada maneira de se movimentar no court (como um touro a sair do curro disparado para a arena, se me é permitida uma derradeira analogia tauromáquica), um modo de atacar a bola e até de festejar os pontos que, muitas vezes, eclipsam a excelência técnica. É como se Nadal tivesse todos os requisitos físicos, técnicos e psicológicos do bad boy ou – pardon my french – do enfant terrible e canalizasse esses atributos não para a destruição de equipamentos, os insultos a árbitros ou a hostilização do público, mas para a tarefa metódica de demolir adversários em três sets. Por causa do seu estilo “eminentemente físico” – talvez em oposição ao jogo “eminentemente etéreo” de Federer – houve quem lhe augurasse um auge fulgurante mas breve, numa argumentação que, mais do que conhecimentos técnicos, implicava considerações anatómicas rebuscadas sobre a resistência de meniscos e rótulas. Eu fui uma dessas Cassandras e em minha defesa invoco o facto de sempre ter feito tais profecias perante auditórios modestíssimos e benevolentes. Hoje, quando Nadal, aos 32 anos, continua a ganhar em Roland Garros com a facilidade com que Aníbal triunfou na batalha de Canas, fica provado que o estilo – ou, para os metafísicos entre vós, a alma – pode mais que os joelhos. E que a ser verdade que um título como “rei da terra batida” tem algo de jocoso, no fim é Rafael Nadal quem ri melhor.

  • Com que moral se joga ténis contra este homem, em terra batida?

    Ténis

    Rafael Nadal, uma vez mais, demonstrou todo o seu poderio e omnipresença para dominar qualquer troca de bolas em terra batida, ao desmantelar (6-4, 6-1 e 6-2) Juan Martín del Potro e garantir a 11ª presença na final do seu torneio predileto. No domingo (14h, Eurosport), o espanhol vai jogar a decisão de Roland Garros contra Dominic Thiem, o austríaco que foi o único a conseguir derrotá-lo nos últimos tempos, sobre o pó de tijolo