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A melhor final de sempre entre os melhores de sempre aconteceu exatamente há 10 anos

Durou quatro horas e quarenta e oito minutos, foi interrompida duas vezes por causa da chuva e, quando terminou, já era noite. Há uma década, neste dia, Rafael Nadal vencia Roger Federer no seu território, na sua relva, fazia o suíço chorar e ambos davam ao mundo, provavelmente, a melhor final da história de um Grand Slam. Desde aí que os dois monstros lendários não se encontram em Wimbledon

Diogo Pombo

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Que saudosos e idos tempos, em que a marca da qual Roger Federer arrepiou caminho tinha um respeito solene pelas tradições de Wimbledon e o fazia entrar no court central vestido com um clássico e abotoado casaco de malha. Parecia um senhor respeitável a encaminhar-se para o sofá preferido, estrategicamente colocado à frente da lareira.

Eram os tempos, também, que ainda tinham Rafael Nadal a esforçar-se na sua melhor imitação de pirata, ornamentado com os calções compridos, a roçar os joelhos, e as t-shirts justas, mas sem mangas, que lhe davam o ar pitoresco de ser um tenista acabado acabado de ser resgatado de um barco a afundar-se algures no Pacífico.

Ainda não estávamos no tempo em que tínhamos de falar de cabras, traduzidas de G.O.A.T. (Greatest Of All Time), embora já se desconfiasse que estes dois, e entre eles, viesse a estar grande parte da melhor história que o ténis tem para contar.

Catorze das últimas 16 finais de torneios do Grand Slam pertenciam ao suíço, ou ao espanhol, uma bipolaridade no ténis que se estava a acentuar, cada vez mais, mesmo que Federer ainda fosse o ditador de raquete na mão que liderava o ranking há mais de 200 semanas. Era a sexta final de Wimbledon para o suíço – ele vencera as cinco anteriores e, nas derradeiras duas, o vencido tinha sido Nadal.

O pirata espanhol já era elogiado e condecorado como um prodígio em terra batida, um talento que prosperara nos quatro títulos em Roland Garros, mas ainda envolto em dúvidas, porque quem é incrível e quer ser o melhor teria de ser imbatível, a certa altura da sua vida, em todas as superfícies, e não apenas na predileta que tinha no seu quintal, em Maiorca, enquanto crescia.

Clive Brunskill

Faltava um pouco da verde e lendária relva de Federer a Nadal - o espanhol teria que o derrotar onde se pensava que o suíço era imbatível.

Ao longo de longas quatro horas e quarenta e oito minutos, o canhoto esticou tanto a fasquia da qualidade de jogo, que vimos o, também por norma, imperturbável e mecânico helvético, a refilar. A gritar de frustração.

Em cinco sets, Federer aproveitou apenas um de 13 oportunidade para quebrar o serviço de Nadal. Sofreu e correu e fustigou-se no tempo em que a sua esquerda ainda não era potente, nem batia tão cedo na bola, como é hoje, tempos em que aprendeu e lidar com as rotativas bolas do espanhol.

E perdeu (6–4, 6–4, 6–7(5–7), 6–7(8–10), 9–7).

E acabou a final a conter as lágrimas que choraria, durante meia hora, na reclusão do balneário. Porque, admitiria mais tarde, sentia-se a remoer a frustração que a cabeça lhe mostrava como uma evidência: começava a sentir-se encurralado por um tenista mais novo, forte, rápido e pujante, que começava a inverter uma tendência. Dois meses depois, Nadal chegaria a número um do mundo, pela primeira vez.

Perder tornou Federer “mais humano” e ganhar “foi um passo em frente” para Nadal, que lhe “abriu caminhos para ganhar noutros lugares”, palavras dos próprios. O sueco Björn Borg, dono de 11 títulos do Grand Slam, todos entre Roland Garros e Wimbledon, definiu-o como "o melhor jogo de ténis" que viu na vida.

Possivelmente, estava a falar por todos nós.