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Não tiveram piedade do velho e humano Roger

Ao fim de quatro horas e treze minutos de ténis e de um quinto set que foi até ao 13º jogo, o serviço e as direitas estrondosas de Kevin Anderson eliminaram Roger Federer (2-6 6-7 (5-7) 7-5 6-4 13-11) nos quartos-de-final de Wimbledon, o torneio que já era vulgar esperar que vença, ou chegue sempre à final. Quando e se lá regressar, o suíço que tem oito títulos na relva inglesa já terá 37 anos

Diogo Pombo

John Patrick Fletcher

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Comecemos pelas verdades absolutas que é possível termos como certas nesta errância de vida, que é pegar na raquete e bater contra uma bola saltitona.

Roger Federer é o príncipe do ténis sempre que o ténis se joga sobre relva, em particular no tapete verde de Wimbledon, o mais tradicional dos Grand Slams que já ganhou por oito vezes e onde deixa sempre a impressão não será a última conquista; mas, e este ponto é o mais incontornável, Roger Federer é humano e como a idade apanha todos os exemplares da nossa espécie, os seus 36 anos também o fazem ser mais falível e errático.

E suscetível a coisas como estas sucederem, mesmo que inesperadas: sofrer a bom sofrer frente a um tenista no geral inferior, mas superior no poderio do jogo de serviço, nas brutais pancadas de direita ao fundo do court e na estrondosa maneira como bate na bola.

Conjugação de forças e poderio que funcionam na relva, onde a bola bate e sempre acelera, mesmo que seja a superfície onde o estilo aparentemente descontraído, e sem esforço para inventar bolas incríveis de Federer, mais prospera. O suíço tomou o primeiro set imperialmente (6-2), angustiou para levar o segundo (7-6) e foi engolido no terceiro (5-7) e quarto (4-6) sets pela fúria precisa do sul-africano.

Eles levaram o jogo para o derradeiro tira-teimas que expôs os meros 28 dias a que Federer está de chegar às 37 voltas dadas ao sol.

Não que o suíço tenha errado por aí além, jogado mal ou piorando abruptamente as suas estatísticas (todas as percentagens de pontos ganhos no primeiro e segundo serviços, a devolvê-los ou na rede, são suas). Federer foi sendo cansado e desgastado por Anderson, que esticava os pontos até o suíço falhar por cansaço ou o sul-africano o bater com uma bola acelerada com brusquidão.

John Patrick Fletcher

O tempo foi passando e nenhum lograva quebrar o serviço ao outro. Raramente o ameaçavam, sequer. Chegou ao ponto de Roger se enfadar, e errar, com um “we need to watch the football” (“precisamos de ir ver o futebol”) vindo da bancada, a meio de um ponto que parecia já pertencer ao suíço - porque a Inglaterra joga às 19h e, por estes dias e por mais tradicional e cavalheiresco que Wimbledon seja, os ingleses vibram com a hipótese de o país poder estar na final do Mundial.

Até que, no único ponto de break de que foi alvo no quinto set, Roger tremeu. Errou duplamente, cometeu a sua única dupla falta no jogo e deu a oportunidade para Kevin Anderson servir, pela primeira vez, para ganhar o encontro em vez de evitar perdê-lo.

O gigante e decidido sul-africano atropelou (11-13) o suíço já rendido às evidências da força alheia. Ao fim de longas e desgastantes 4h13, em particular para o tenista mais perto de ser quarentão, Kevin Anderson fechou o encontro, seguiu para as meias-finais e logrou a proeza de eliminar o oito vezes campeão de Wimbledon nesta fase precoce do seu Grand Slam preferido.

E assim nos deixará Roger Federer a duvidar e a pensar se, neste ano que passará, ele ainda terá pernas e vontade para dosear o corpo entre torneios, saltar a terra batida e guardar-se para mais um ataque à glória na relva de Wimbledon. Se assim o for, terá 37 anos quando regressar, em 2019.