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Um Azar do Kralj

A noite em que o Benfica fez lembrar os tempos do Souness

Os autores de Um Azar do Kralj entraram numa máquina do tempo e recuaram aos anos que nenhum benfiquista quer relembrar: os de Scott Minto e os de Michael Thomas

Vasco Mendonça e Nuno Dias, Um Azar do Kralj

Comentários

FRANCISCO LEONG

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Ederson

Protagonizou uma das maiores desilusões da noite ao surgir no onze titular, logo hoje que Guardiola viera à socapa do aeródromo de Bragança para observar Júlio César. Teve a seu favor a participação pouco ativa numa das piores exibições do Benfica esta época. Acompanhou com segurança a trajetória da bola aos 41 minutos, em dois remates ao poste, o melhor dos inanimados em campo.

Semedo

A poesia portuguesa não tem perdido muito tempo com o drama da actividade laboral. É na boa, porque para descrever a exibição de Nélson Semedo em Chaves basta-nos “o poema dum funcionário cansado”, de António Ramos Rosa. Os versos dão-nos a conhecer um sujeito saído de uma repartição de finanças, perdido no aparente crepúsculo da sua existência, vencido pelo mantra mais depressivo de sempre: “débito e crédito”, “débito e crédito”, ou, no caso de Semedo, “defender e atacar”, “defender e atacar”. Demonstrou o estado anímico de quem pergunta “porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?” e a qualidade futebolística de alguém “cansado dum dia exemplar” que, para nossa angústia, a presente época teima em nos negar.

Lindelof (ou Paulo Madeira)

Uma primeira parte em que pareceu estar a recuperar de um almoço bem regado, vá, totalmente submergido, numas garrafinhas de Muralhas. Surge na segunda parte já com um guronsan no bucho e a coisa corre um pouco melhor, tendo até cometido a proeza de, em alguns momentos do jogo, penetrar o meio-campo adversário com maior clarividência do que os colegas pagos para a realização dessa mesma tarefa.

Lisandro (ou Ronaldo)

Exibição salva pelos regulamentos aos 18 minutos, num fora-de-jogo que benfiquistas menos dados à objectividade descreverão como “não digas disparates, o Lisandro subiu para colocar o gajo em posição irregular”. Foi, ainda assim, sintomático do estado de sítio em que o meio-campo e o ataque flavienses conseguiram colocar os jogadores mais recuados do Benfica, em especial nos primeiros 45 minutos. Acertou o passo na segunda parte e foi um dos onze melhores em campo nos últimos 15 minutos.

Grimaldo (ou Scott Minto)

Os seus anos na cantera revelaram-se hoje cruciais, tendo sido o único jogador do Benfica em campo que não terá confundido a camisola do Chaves com a do Barcelona. Foi frequentemente prejudicado pela presença de alguns colegas em campo, nomeadamente Pizzi, mas fez os possíveis por ignorar a situação de inferioridade numérica e terminou em grande, com uma assistência para o primeiro golo e um livre mal marcado para o segundo.

Fejsa

Na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, na Luz e #sejaondefor. Os leitores mais atentos saberão que já aqui se citou Sophia de Mello Breyner para descrever o profundo afecto que sentimos por Fejsa. Por isso, e não obstante ser o segundo jogo consecutivo abaixo daquilo a que nos habituou, também não vamos desatar a dizer mal do homem. Relembre-se apenas que, na última visita do Benfica a Chaves para o campeonato, há 18 anos, o titular nesta mesma posição foi Michael Thomas.

André Horta

Todos sabemos que os benfiquistas são uma grande família, mas a verdade é que não vimos André Horta abraçar nenhum familiar no final do jogo, o que talvez explique a sua pior exibição esta época. Felizmente, a solução é simples. Ao cuidado da SAD do Benfica: comprem uma Sharan, uma Ford Transit, eh pá, não sei, o que vocês acharem melhor, desde que enfiem lá os pais, os tios, os primos, a avó, o caniche e quem mais couber. O miúdo irá certamente retribuir com um regresso às boas exibições e 14 milhões de abraços e beijinhos.

Salvio

Há uns tempos, após algumas semanas a tentar disfarçar desânimo, o meu chefe veio ter comigo e perguntou-me se estava tudo bem. Eu expliquei que não andava contente com as minhas funções, que tinha alguma dificuldade em perceber que lugar ocupava na empresa. O meu chefe foi cinco estrelas: disse-me para tirar os dias de férias que precisasse e que pusesse as ideias em ordem, porque a empresa precisava muito de mim. Ora bem. Esqueçamos o facto de ter sido despedido entretanto. Eu não sei se é assim que estas coisas se passam no plantel no Sport Lisboa e Benfica, mas seria interessante Rui Vitória ter uma conversa honesta com Salvio no sentido de garantir que o nosso argentino favorito passe a entregar a braçadeira de capitão a Fejsa antes do início do jogo.

Pizzi

Tremeu que nem varas verdes perante Rakitic, Mascherano e companhia. Uma primeira parte sofrível de um jogador amado e odiado cujos passes falhados são automaticamente multiplicados por dez, o que perfez quatrocentos e trinta sete, isto na primeira parte. As jornadas anteriores pareceram indicar um princípio de acordo com Grimaldo para a execução de inúmeros ataques mortíferos com o espanhol encostado à linha e o português em zona interior, por isso não dramatizemos. Aliás, à hora em que escrevemos estas linhas, já Pizzi se tinha redimido com mais um golo na liga. Eu não vos disse para terem calma? #pissi não falha.

Guedes

As suas exibições começam a parecer uma espécie de Operação Coração do século XXI benfiquista. Neste caso, espera-se que os donativos venha do Valência ou de qualquer outra entidade legalmente detida por Peter Lim. Enfim. É verdade que Guedes tem passado mais tempo em campo devido às inúmeras lesões dos colegas, é inquestionável a sua entrega ao jogo, e ninguém duvida da sua vontade de celebrar golos e vitórias connosco, portanto, hoje evitaremos culpar o estagiário. Até porque ganhámos.

Mitroglou (ou Nuno Gomes)

Sófocles, pensador grego que não terá ficado fã do Twitter, disse que nenhuma mentira chega a envelhecer no tempo. Apesar de não perceber um charuto de futebol, a bojarda de Sófocles aplica-se lindamente à exibição do compatriota Mitroglou. Depois de lhe negarem um golo em posição legal aos 37 minutos, Mitroglou reagiu com a tranquilidade de quem, como nós, visita regularmente o citador.pt. Só mais tarde vingaria a verdade desportiva, com um golo pleno de oportunismo que colocou o Benfica na frente e alguns dos seus colegas fora da unidade de cuidados intensivos. Ao invés do vagamente insultuoso "sem saber ler nem escrever", deveríamos adoptar a expressão “uma vitória com a escolaridade obrigatória” - à imagem, aliás, deste cronista.

Cervi

Tentou cumprir o papel de desfribrilhador do ataque benfiquista e até cumpriu, na medida em que conseguiu não irritar nenhum adepto e perturbar alguns adversários. Tem tudo para vir a ser um belo suplente de Salvio, assim que Salvio se tornar suplente de Carrillo. Parece pouco, amigo Cervi? Se fosse fácil não era para nós.

Celis

Substituiu André Horta e continua a parecer alguém que conquistou a oportunidade de entrar no relvado depois de ter enviado 4 códigos de barras de Tulicreme para um apartado postal. Mais uma vitória #rumoao36, mais uns minutinhos #rumoàequipaB.

Carrillo

Ia marcando. Toda a gente sabe que o rapaz é habilidoso, mas nem sempre se entende com os colegas, como se de repente o António Zambujo fizesse uma canção com o Regula – o que, infelizmente, acabará por acontecer.