Tribuna Expresso

Perfil

Um Azar do Kralj

Lindelöf trocou de corpo com Tahar, Rafa tem um bom barbeiro e Samaris anda com os contribuintes à perna (a análise de Um Azar do Kralj)

Pode encontrar estas e outras considerações neste um-por-um feitas por Vasco Mendonça e Nuno Dias ao jogo do Benfica na Turquia

Vasco Mendonça e Nuno Dias, Um Azar Kralj

Comentários

OZAN KOSE

Partilhar

Ederson
Batido duas vezes à margem das leis. A primeira aos 4 minutos, ainda o Benfica fingia estar com medo dos turcos, a segunda aos 58’ num lance em que tudo fez para evitar a vitória do sistema corrupto que rege a UEFA e um belíssimo remate de um turco. Passou grande parte dos minutos seguintes a arriscar a sua integridade física em nome do Benfica, numa espécie de fundamentalismo lampiónico que só lhe ficou bem.

Nélson Semedo
Se Nélson Semedo fosse turco, Erdogan saberia o que fazer. Impediria todas as estações televisivas de voltarem a transmitir as imagens daquele golo. Suspenderia o acesso ao YouTube. Prenderia qualquer jogador de Football Manager. Enfim, teria a coragem política necessária para proteger Nelsinho das investidas do grande capital. Infelizmente, não é esse o país em que vivemos. A esta hora a Câmara Municipal de Lisboa já autorizou a construção de uma via exclusiva do aeroporto até ao estádio da Luz de forma a acomodar os camiões cheios de dinheiro. E sim, tal como o leitor suspeita, as obras só terminam no próximo Verão. “Estamos a trabalhar para si” o caracinhas.

Lindelöf
Imaginem o filme Face Off se em vez de John Travolta e Nicholas Cage os protagonistas fossem Victor Lindelöf e Tahar El Khalej. O bem acaba por superar o mal nesta história, mas jamais esqueceremos aquela cena do Tahar a beijar a mulher do Lindelof. Sacana.

Luisão
Foi o João Perna da defesa benfiquista. Não se pode dizer que tenha sido totalmente alheio às situações comprometedoras ocorridas em Istambul, mas a matéria de prova está em factos imputáveis a colegas seus. Portanto, respeitem o nosso mestre graduado na Sorbonne de uma vida com a águia ao peito. Verdade verdadinha? A velha desculpa de culpar os velhos ainda não tem pernas para o nosso capitão.

Eliseu
Um remate ao poste logo aos 2 minutos foi a sua forma elegante de dizer “parem lá de me chamar gordo”. Os adeptos acederam ao seu pedido e de facto fez um jogo bastante positivo, vencendo boa parte dos duelos com Quaresma. Perto de fim, já esganado e a sonhar com um baklava para sobremesa, acabaria por alinhar numa patuscada com Lindelof de onde resultaria o terceiro golo do Besiktas e uma entremeada mal grelhada.

Fejsa
Ljubomir recorda como se fosse hoje a primeira conversa que teve com um treinador de futebol. Essa figura, sábia aos olhos das crianças, austera no trato, simples no verbo e nas instruções, aproximou-se dos jovens talentos do Hajduk Kula e disse-lhes apenas: “meus caros, quando passa a bola, não passa o homem. Vamos lá dar cabo deles”. Todos os meninos correram para as suas posições, excepto um. Ljubomir olhou o mister nos olhos e perguntou: “mas, mister, porque é que a bola há-de passar?” A impertinência valer-lhe-ia uma substituição. A história acabaria por dar-lhe razão.

Pizzi
Primeira metade quase tão inspirada como os recentes posts no Instagram - a defender com agressividade, a atacar com passes rápidos na saída do meio campo. Infelizmente, a segunda parte trouxe-nos uma equipa diferente, na qual Pizzi perdeu gás, linhas de passe e, suspeitamos, paciência. Como se não bastasse, ganharia a companhia de Samaris no seu raio de acção, provocando uma ilusão de segurança que se revelou fatal.

Salvio
A maior ameaça ao seu modo de vida encontra-se no lado esquerdo do ataque benfiquista. Salvio pensava ter evitado o pior quando as fintas, os golos e as assistências começaram a aparecer - só que não. No corredor oposto uma criatura diabólica de nome Cervi teima em fazer tanto ou mais pelo ataque benfiquista e, simultaneamente, dá um apoio muito eficaz na defesa. E porque é que tudo isto é bom? Porque Cervi ainda agora chegou e já contribui para elevar/manter a fasquia daquilo a que chamamos “jogar à Benfica”, um fundamento técnico-táctico bem sintetizado por Luís Piçarra quando destacou a importância de ter na alma a chama imensa que nos conquista e leva à palma a luz intensa do sol que lá no céu risonho vem beijar.

Gonçalo Guedes
Um golo logo aos 9 minutos num lance tipicamente seu: aquele limbo entre o lance genial e um tropeção na bola, o despique entre a gravidade e a força do querer, a aerodinâmica periclitante daquelas magníficas orelhas, tudo isto permitiu ao miúdo contornar o guarda-redes turco e colocar o Benfica na frente. Nunca deixou de pugnar por um mundo melhor, mundo esse em que o Benfica é vitorioso mesmo quando não ganha. Esteve em quase todos os momentos de alegria da equipa e em nenhuma das ocasionais figuras tristes. Já que falamos em pugnar por um mundo melhor, a sua substituição por Samaris foi um bocadinho como ver Barack Obama ceder o lugar a Trump.

Mitroglou
É que já nem o estou a ver bem.

Cervi
Podia amanhã aparecer no jornal como cúmplice do Pedro Dias e nós diríamos o mesmo: connosco sempre foi um miúdo cinco estrelas.

Jimenez
Neste momento qualquer indivíduo federado neste país começa a justificar uma oportunidade a titular no lugar de Mitroglou. Imaginem um internacional mexicano avaliado em 80 milhões.

Rafa
A sua barba foi a única coisa que regressou a 100%. Parabéns ao barbeiro. Ainda não foi desta que vimos o velho Rafa. Sabem? Aqueles míticos 59 minutos em Tondela. Encostou demasiado à linha, encostou à box.

Samaris
Não é fácil substituir Gonçalo Guedes. A ânsia dos adeptos pede garra, vontade, benfiquismo. Samaris surgiu em campo com os níveis anímicos de um funcionário público a quem acabaram de anunciar o aumento da idade de reforma. E fez o que qualquer funcionário público faria: culpou os governos das últimas 4 décadas, ligou a escalfeta e anunciou uma pausa para ir ao café. Os contribuintes continuam à espera que volte.