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Um Azar do Kralj

Não somos 11, somos 11 milhões de Fábios Paim (o tributo do Azar do Kralj a Ronaldo)

Vasco Mendonça e Nuno Dias tentaram imaginar um país em que todos fossem iguais a Cristiano Ronaldo. E ficaram cansados só de pensar

Vasco Mendonça e Nuno Dias, Um Azar Do Kralj

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Gonzalo Arroyo Moreno

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Imaginemos um país em que todos somos iguais a Cristiano Ronaldo. Tentem vislumbrar um país em que somos os melhores, em tudo: políticos, carpinteiros, contabilistas, porteiros, meretrizes, escritores, comentadores desportivos, artistas circenses, médicos, canalizadores. Que Portugal seria este em que todos acordávamos imbuídos de um ambicioso sentido de missão: ser, todos os dias, o melhor do mundo naquilo que fazemos. Só de pensar nisso já ficámos cansados. Há até quem considere abandonar o texto já.

É pena, estamos a oferecer um carro a todos os que chegarem ao final.

Pensemos um bocadinho. O que definiria o melhor carpinteiro do mundo? Chega sempre a horas e sabe falar português; é educado com os clientes, com os colegas ou com as meninas que passam à beira da janela; nunca se enganou a orçamentar uma obra, que realizará com a mais absoluta competência; não deixa um único detalhe do seu trabalho à mercê do destino; só faz aquilo que sabe, e sabe muito, e é também por isso que não se irá oferecer para instalar tomadas ou desentupir canos porque isso é responsabilidade de outros colegas seus, que ele poderá recomendar; consegue discorrer sobre todo e qualquer tema relacionado com carpintaria; enfim, termina a obra dentro do prazo, certificando-se que o cliente está satisfeito.

Passa factura no final e limpa tudo antes de ir embora. No dia seguinte, e no seguinte, e depois desse, fará exactamente a mesma coisa, cumprindo o estranho desígnio de ser um dos melhores carpinteiros da história.

Quantos “carpinteiros” assim já conhecemos ao longo das nossas vidas medianas? Ou técnicos oficiais de contas? Ou advogados? Ou auxiliares de limpeza? Arriscamos a resposta: nenhum, ou quase nenhum. E, no entanto, gostamos muito de falar de meritocracia. Porquê? Porque nos é conveniente naquela instância tão frequente nas nossas vidas em que nos achamos melhores do que os outros. É geralmente nessa altura que vociferamos: se isto fosse uma meritocracia… faz lembrar aquele dizer de um amigo nosso: se a nossa avó tivesse testículos seria o nosso avô.

Um país em que todos fôssemos tão bons como Cristiano Ronaldo é uma ideia impraticável, antes de mais porque o estado deixaria de colectar receita fiscal e isso representaria um problema junto das instituições competentes. Mas impraticável também porque quase ninguém consegue convocar as forças necessárias, a perseverança, a ética de trabalho, o sangue, o suor e as lágrimas para para viver obcecado com o objectivo de ser o melhor. Mas que bonito que seria se todos fôssemos tão arrogantemente talentosos, trabalhadores e eficazes como o Cristiano.

Esta noite, perante mais 24 horas desperdiçadas em que poderíamos ter decidido avançar sem medos rumo à bola de ouro das nossas vidas, diremos a nós mesmos xixi netflix cama, que amanhã há mais. Num planeta só dele, à mesma hora, Ronaldo treinará livres e fará flexões enquanto atende às necessidades do filho, da namorada, da mãe, da cunhada, das irmãs e de quem mais lhe pedir ajuda, o que O rapaz teima em juntar a generosidade ao talento.

Em vez de suspirar por dias mais meritocráticos, em vez de pensar que o tempo-se-encarregará-de-provar-que-eu-era-assim-ou-assado, Cristiano Ronaldo vai aparecer desmarcado nas costas do tempo, esperar que ele recupere a posição, simular o remate com o talento do pé esquerdo e enfiar um petardão com a ética de trabalho do pé direito. Mais uma bola nas redes para o único português que merece uma estátua em vida e, sim, com os genitais bem definidos.

Como diz o slogan publicitário: não somos 11, somos 11 milhões – de Fábio Paim. Em plural Fábios Pains, só para nos achincalhar ainda mais. Quase todos, vá. Um bocadinho, admitam. Por falar nisso, já imaginaram? Se Fábio Paim tivesse sido um jogador de classe mundial e jogasse com a camisola 25, hoje teríamos milhões de pessoas a googlar FP25. Se nada mais neste texto vos agradar, guardem pelo menos este pensamento.