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Um Azar do Kralj

Já nos toparam, Benfica. Agora, é tomar 10 comprimidos para a azia prescritos por Um Azar do Kralj

Os autores de Um Azar do Kralj estão a dar tudo pelo clube deles. Martin Luther King, picanha, Marco Borges e um supergante estão entre as curas para a maleita pós-Setúbal

Vasco Mendonça e Nuno Dias, Um Azar Do Kralj

CARLOS COSTA

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1. O déjà vu

Muitos leitores terão sentido um estranho déjà vu causado pela disposição técnico-táctica do Benfica ao longo das últimas semanas. Que estranho… O que é que isto nos faz lembrar? Jogadores ansiosos, previsíveis, incapazes de virar um resultado. Pois é, pá! Vocês lembram-se daquela equipa sem uma ideia de jogo a quem a malta deu um número invulgar de novas oportunidades na época passada? Estão a ver ou não? Às tantas perdemos contra o Arouca, estávamos a meio de Agosto e o Carmo e a Trindade já tinham ruído. Ainda não? Às tantas o treinador ia à sala de imprensa, dizia que se fosse fácil não era para nós, um gajo irritava-se, passava o resto da noite a discutir se era melhor contratarmos o Marco Silva ou o Bielsa. Nada? Depois passaram-se uns meses e fomos tricampeões. Eeeeeexactamente. Essa equipa! Estávamos a ver que não se lembravam.

2. O Big Brother

Agora mais a sério: “E é quando eu vejo pá, que o tempo tá a apertar pá, e que há aí palhaços pá, que falam falam falam falam falam falam pá, mas não os vejo a fazer nada pá, não é?, aahhhh, é pá, já me começo sei lá pá, começam-me realmente já... já a dar cabo da cabeça né?, e... pronto, é pá não, não sei, se calhar é do cansaço, pá não, pode ser também, pode ser que seja do cansaço também, eu é pá, eu tenho calma pá.” Espantoso como as palavras de Marco Borges, estrela da 1ª edição do Big Brother Portugal, continuam a fazer tanto sentido 17 anos depois. Tem havido muita conversa sobre a superioridade do Benfica. Demasiada, ao ponto de já tresandar a bazófia (tu aí, não te auto-excluas). E qual é o problema? Em parte nenhuma, já que poucas pessoas com um pingo de honestidade intelectual neste país duvidam da justiça da actual liderança no campeonato. Direi exactamente o mesmo no dia em que Porto ou Sporting ultrapassarem o Benfica na classificação. Por outro lado, quando a superioridade começa a equivaler a exibições em velocidade de cruzeiro, como se o tetra fosse um acontecimento inevitável, quando se exagera em experiências a montar o onze titular, quando o nosso treinador demonstra alguma passividade a agir sobre os acontecimentos no relvado; e, acima de tudo, quando a nossa ideia de jogo parece voltar ao bola-nas-alas-e-fé-em-Deus que tantas alegrias nos deu no início da época passada, é pá, não sei, se calhar é do cansaço, eu tenho calma pá, mas o tempo tá a apertar pá, é que há aí palhaços pá.

3. O impostor

Estamos a viajar com um caso sério de síndrome do impostor. É uma teoria interessante segundo a qual pessoas inteiramente capazes – geralmente das melhores que andam aí – duvidam de si mesmas e temem dia e noite vir a ser desmascaradas como a fraude que realmente são. O tratamento chama-se terapia da coerência e é uma espécie de nem tanto ao mar nem tanto à terra. Implica falar com um outro impostor licenciado em psicologia e especializado em tratar estas coisinhas. De certeza que temos um lá no Seixal. Esta pessoa dir-nos-á essencialmente para nos deixarmos de porcarias, que na verdade somos tão bons em determinados capítulos das nossas vidas quanto algumas das nossas acções dão a entender de acordo com a realidade dos factos e até de acordo com a percepção de muitos dos que nos rodeiam – e que, acima de tudo, não vale a pena dramatizar. Os benfiquistas estão há 1 época e meia a tentar fugir dos seus adversários directos com receio de que um dia se descubra que nunca fomos assim tão bons, que afinal não chegámos a recuperar da saída do JJ, que este tricampeonato é um engano, que o tetra é uma ilusão patética. Tudo isto é um efeito indirecto de traumas gerados por algumas crises das últimas décadas, mas também uma consequência retorcida da estratégia do Sporting, que vai tentando ganhar títulos com a ajuda do nosso antigo treinador, com requerimentos à federação, e com níveis incríveis de choro. Às vezes olho para o campo e dá-me a sensação de que tanta água mole está a furar, e que a única terapia coerente passará por primeiro ganhar, depois ganhar e finalmente ganhar.

4. Sopas e descanso

No Pizzi No Party. É preciso dar descanso a este homem; isso ou melhores condições para desempenhar o seu trabalho. Esta é uma das posições em campo que mais nos pareceu ter sido positivamente influenciada pelo trabalho de Rui Vitória, e que agora parece exigir a sua intervenção urgente. É que, mestre Rui, fomos topados. E agora? Ontem voltámos a ver o nosso miúdo ser acossado por indivíduos de verde e branco – cenário aterrador ao qual não estamos habituados – quase sempre sem o apoio necessário para fazer o que faz melhor: colocar a bola no espaço que separa o meio-campo da defesa adversária e com isso dar início ao nosso carrossel ofensivo, um movimento perpétuo que tantas goleadas e golaços já nos garantiu. Por falar em verde e branco, se este bloqueio na nossa construção ofensiva já seria irritante contra um Sporting, imaginem contra um Moreirense ou um Vitória de Setúbal. Tenham paciência: o rapaz é objectivamente o jogador mais produtivo deste campeonato, mas não pode com uma gata pelo rabo.

5. Está a chorar?

Menos choro, malta. Tenho visto demasiados benfiquistas explicar a exibição de ontem em função de um erro da arbitragem no último lance do jogo. Há poucas coisas mais patéticas do que justificar a derrota de ontem com a arbitragem. Se Martin Luther King fosse vivo hoje, seria certamente benfiquista, e diria: “Meus amigos, eu tenho um sonho. É um sonho profundamente enraízado no Sonho Benfiquista. Tenho um sonho que vamos ganhar dez campeonatos consecutivos. Tenho um sonho que vamos manter os miúdos da formação mais do que 1 época no plantel principal. Tenho um sonho de que não seremos chorões. Acima de tudo, tenho um sonho de que, independentemente dos erros da arbitragem, continuaremos a levar esta merda toda à frente, dê por onde der. Agora parem lá de chorar e vamos ao Edmundo, passei a manhã a sonhar com a picanha.”

6. O superagente

Menos Jorge Mendes, mais Jorge Mendes. O nível exibicional de alguns jogadores e a especulação jornalística têm levado o Benfica a aparecer muitas vezes na notícia enquanto recipiente de propostas milionárias pelos seus craques. 8 em cada 10 vezes, essas alegadas propostas dizem respeito ao passe de futebolistas agenciados por Jorge Mendes. Reparem: nada tenho contra o grande capital ou contra Jorge Mendes, que aqui serve como metáfora do agente FIFA. Aliás, se os meus pais tivessem poupado mais ao longo da vida, também eu estaria agora a encomendar um daqueles quarenta Lamborghini Centenario que foram feitos. Mas é impossível que tanta telenovela não condicione jogadores como Nelson Semedo, Lindelöf ou outros que tais. Falemos por isso menos de Jorge Mendes, o empresário, e mais de Jorge Mendes, o sócio emigrante que vinha de propósito à Luz para ver o Guedes jogar. E, por este andar, vai ver o Carrillo.

7. Os vouchers

A primeira versão deste produto pareceu ter sido um sucesso. Conseguiu imensa cobertura mediática, ajudou adeptos de outras equipas a explicarem o insucesso desportivo do seu clube e encheu o bandulho a meia dúzia de árbitros. Mas a verdade é que continuamos a depender exclusivamente da qualidade das nossas exibições, o que nos leva a crer que o produto não teve a eficácia desejada. Nestas coisas, o Benfica deve ter uma mentalidade startup e voltar à estaca zero. Se a malta da Apple tivesse ido de férias depois de lançar o iPhone 3, hoje não estaríamos todos a dar €700 por um telefone. Isso e haveria menos chineses a suicidarem-se lá na fábrica. Mas dizíamos: o que falhou neste produto, amigos? Como é que o podemos tornar melhor e mais eficaz? Será o valor da refeição? Devemos pensar num produto mais ambicioso e incluir outros serviços ou experiências? Por exemplo, o Porto oferecia viagens, pequenos almoços, a companhia insuspeita de mulheres. Não tenhamos vergonha de aprender com os melhores.

8. A boçalidade dos petardos

Petardos não são exigência. São boçalidade. Receber a equipa no Seixal é bom, receber a equipa no Seixal e atirar petardos é só estúpido. De certeza que foi só meia dúzia de adolescentes, mas ainda assim... Os pais que os metam na linha. Ou a polícia, vá. Mas mantenha-se a exigência. O grande perigo de não se exigir nada é que, no final, podemos mesmo acabar com um grande nada. O que seria um nadinha deprimente.

9 . O vício do jogo

Há um livro chamado “Addiction By Design” que é uma descrição fascinante do vício do jogo. A antropóloga Natascha Schull passou algum tempo a estudar o comportamento de jogadores de casino e assistiu a coisas fascinantes. Por exemplo, sabem porque é que algumas mulheres usam vestidos pretos quando vão ao casino em Las Vegas? Porque assim podem urinar mais discretamente sem terem de abandonar a slot machine, que não é qualquer uma, mas aquela slot machine que, dita o vício, está destinada a compensar a nossa perseverança patológica. E porque é que os viciados no jogo o fazem? A autora do livro explica. Certo, também é pela fortuna que podem ganhar, mas, muito mais importante, o viciado vive para os pequenos highs, para aquela pequena moca resultante de um pico de adrenalina recompensado com endorfinas. Podia ser uma slot machine, como uma nova finta do Rafa, um hat-trick do Mitroglou ou mais um lance genial do Jonas. É este o nosso vício e assim continuaremos, perseverantes, viciados neste Benfica que não quer outra coisa senão ganhar. E, sim, vamos continuar um bocadinho tremidos, sem abandonar o lugar no estádio ou no sofá, à espera dessa sorte que também nos tem faltado.

10. Um pedido

E, pelo amor de Deus, tenham calma.