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Cancelem o dia do Pai. Owen Wright já ganhou

Vasco Mendonça explica quem é Owen Wright e por que razão é que o surfista fez um brilharete no Quiksilver Pro Gold Coast

Vasco Mendonça

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Imagine este dia do pai. Acorda de manhã cedo, dá um beijo à mulher e aos filhos, pega neles e nas pranchas e vai passar o dia à praia. O sol brilha. É mais um dia de verão numa terra abençoada. O mar não está perfeito, mas ficou tudo em casa a ver a patrulha pata ou a fotografar o pequeno-almoço. Afinal o mar está perfeito. O crowd é aproximadamente zero, tirando uma dúzia dos melhores surfistas do mundo, que de modo muito cordato vão apanhando ondas à vez. A coisa corre tão bem, mas tão bem, que a maioria deles acaba por sair do mar para ir ter com as suas famílias. Felicíssimo dia do Pai.

Parece mentira. As ondas não estão nada más, a miúda e os putos brincam sossegadamente na areia, e um dos melhores amigos que se pode ter apareceu para dividir o line-up consigo. É o Matt. Há mais de um ano que não surfava com ele, pelo menos não assim, num dia de verão numa terra abençoada sem mais ninguém para dropinar. Parece perfeito, mas é melhor do que isso. Há uma coisa que eu ainda não disse ao leitor: há um ano este pai não sabia se algum dia voltaria a surfar. Uma violenta lesão cerebral fez os médicos recearem o pior. Imagine o leitor que era um dos melhores surfistas do mundo e lhe diziam que talvez o sonho de ser o melhor dos melhores, que não vivera por uma nesga, tivesse chegado ao fim. Daí em diante viveria um dia de cada vez, a lutar para que o prognóstico reservado voltasse a ser uma vida sem reservas. Um ano depois, exactamente no dia do pai, 3 meses depois de o seu primeiro filho nascer, o mar está perfeito e a terra parece novamente, agora sim, abençoada.

Há ondas que cheguem para todos. São só dois, o que ajuda. Owen Wright e Matt Wilkinson disputam as ondas na final da primeira etapa da World Surf League, uma competição que talvez nunca tenha tido tanto talento como em 2017. A tal amizade dá lugar a uma disputa entre dois animais competitivos, sem cedências nem contemplações. No final ganhará o melhor. E ganhou mesmo. Qual verdade desportiva, qual quê. Isto é um bocadinho maior. Owen sai da água em ombros. Ganhou, sem espinhas, sem favores. A vida deu-lhe uma segunda oportunidade e ele agarrou-a com unhas, dentes e sei lá mais o quê. Não é um conto de fadas. Aconteceu mesmo há umas horas atrás. Cá fora, milhares de testemunhas, incluindo os melhores surfistas do mundo, os amigos de sempre, centenas de fotógrafos que procuram a melhor forma de captar este momento ensopado em água salgada. Quis o cliché que as lágrimas fossem salgadas também.

Finalmente, a mulher e o filho. O campeão abraça ambos e em nenhuma outra madrugada de domingo a vida terá parecido tão justa. Cancelem o dia do pai. Owen Wright já ganhou.