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Um Azar do Kralj

Um Azar do Kralj nomeia Pizzi como ministro da basculação antes de fazer uma ode ao seu argentino preferido

Esse argentino, como já devem ter percebido, é Salvio. E como estes cronistas o veem a gostar tanto do Benfica, acham que talvez seja altura de "de comprar aquele T3 em Telheiras, inscrever os miúdos no São João de Brito e deixar crescer a barriga. Uma barriguinha cheia de títulos"

Vasco Mendonça e Nuno Dias, Um Azar do Kralj

JOSE MANUEL RIBEIRO

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Ederson

Meia dúzia de defesas seguras e uma saída algo distraída num canto que quase acabava em golo. Nem parece dele. Deve ter-se esquecido de fazer o check-in para Manchester. Quem nunca. Enfim. Fez uma época extraordinária e só o voltaremos a ver através da televisão ou das redes sociais, onde nos dedicará uma canção de forró quando o Benfica se sagrar pentacampeão nacional. Valha-nos isso.

Nélson Semedo

Muito bem a simular o corte aos 29’, provocando o pânico na equipa técnica do Bayern Munique, que anda escaldada depois da contratação de Renato Sanches. Rapidamente sossegaria os seus futuros patrões, excepção feita a dois ou três lances em que foi comido de cebolada por Rafinha. Bom, o mais importante é que já recebemos comprovativo de transferência.

Luisão

Um dos poucos jogadores que não se despediu dos adeptos hoje tem 36 anos de idade. É este o estado em que se encontra o plantel do Benfica. Ainda a recuperar dos festejos do tetra, Luisão pareceu algo enferrujado perante a robustez física dos porteiros de discoteca que compõem a frente ofensiva do Vitória de Guimarães. Conseguiu ainda assim manter a calma e evitar um arraial de pancadaria digno de capa do Correio da Manhã. Só não evitou o segundo golo, num lance em que o capitão julgou ter ouvido Ederson dizer “deixa que é minha”. Na verdade, tudo não passou de uma partida pregada pelo vento. Por essa altura já Ederson seguia num Uber a caminho da Portela.

Lindelof

A análise individual de hoje parece um daqueles placards do aeroporto com a hora de embarque. Lindelof até podia ter jogado mal hoje que continuaríamos a pedir a sua permanência no plantel, mas o sacana quis fazer mais uma exibição segura, polvilhada aqui e ali com aquela típica insegurança sueca de quem já passou tempo suficiente no sul da Europa. Na mala levará muitos títulos, a receita da caldeirada de peixe do Barbas e demasiadas peças de roupa impróprias para o clima britânico. Ao seu lado, encostada à janela, irá Maja, estranhamente circunspecta. Lindelof perguntar-lhe-á por que suspira, quando deveria dizer: "Não chores, Maja. Um dia o destino voltará a juntar-nos, num qualquer empréstimo com opção de compra".

Grimaldo

Tarefa ingrata a de ocupar o lugar de Eliseu nesta fase da vida do clube. Ainda não pode aspirar ao museu como o seu colega de flanco, mas continua a fazer exibições de uma estranha sobriedade, demonstrando que nem todos os laterais modernos têm que ser uns estouvados que entram pelo relvado adentro com uma Vespa.

Fejsa

Não teve tempo para grandes proezas. Assim que Fejsa abandonou o relvado devido a lesão, o comentador da RTP explicou que ele e Samaris eram "jogadores diferentes", um eufemismo que chega a ser amoroso. Agora é esperar que a lesão não seja grave ou, caso haja clubes interessados, que ele regresse melhor do que nunca daqui a 6 meses.

Pizzi

Melhor em campo, mas de longe. É uma das pessoas mais esclarecidas em Portugal neste momento. Se Mário Centeno é o Ronaldo do Ecofin, Pizzi é o Ronaldo da transição defesa-ataque. Devia ser ministro da basculação. Hoje assistimos a mais uma demonstração cabal de que o Benfica tudo deve fazer para o manter no plantel. Sugiro que nos transformemos num principado livre de impostos. Seríamos o maior principado do mundo. Enfim. Não me tiram a garrafa da frente e ainda falta meia dúzia de jogadores. Lembrei-me de outra coisa. Há poucos dias vimos um conjunto de pessoas eleger Bas Dost como melhor jogador do campeonato. Seria uma discussão válida se todos começássemos por dizer o que é que bebemos antes de expressar as nossas opiniões. Eu estou a beber Monte da Peceguina tinto. E eles?

Salvio

É complicado. Lembram-se quando queríamos muito vender o Salvio e ele partiu um braço ou lá o que foi? Pois bem, a venda foi ao ar e nós ficámos com um argentino aparafusado, cheio de ilusión e a ocasional lesión. O tempo foi passando. Enchemos a barriguinha de títulos e habituámo-nos a ver Salvio no meio da festa, como se tivesse desistido de sonhar com mais. E agora a pergunta que nos faz pensar: quantos argentinos que passaram pelo clube nos últimos anos declararam amor eterno ao Benfica?

O Gaitán não conta, está agora a arrumar as cadeiras do Vicente Calderon. Quantos desistiram das suas ambições internacionais por nós? O Bossio também não conta. Esse desistiu da carreira antes mesmo de chegar a Lisboa. Salvio continua a decidir jogos. Continua a fazer-nos acreditar, mesmo depois de 10 lances individuais que só ele julgava possíveis. E não parece interessado em ir a lado nenhum. Talvez seja altura de comprar aquele T3 em Telheiras, inscrever os miúdos no São João de Brito e deixar crescer a barriga. Uma barriguinha cheia de títulos. Mais que não seja porque o seu contrato de arrendamento termina em Julho e o senhorio está a pensar pôr a casa no Airbnb.

Cervi

Apetece-nos fazer que nem uma betinha com 20 mil followers no Instagram quando partilha uma foto no ginásio, e citar Rihanna: work, work, work, work, work. Pelo que temos visto nas notícias, o futebol simultaneamente perfumado e raivoso de Cervi ainda não surgiu nos radares dos grandes europeus. Podíamos fazer mais uma piada sobre a altura do nosso pequeno génio, mas seremos superiores a isso.

Jonas

Neste momento, o Quim Berto está na RTP a explicar o que se passou. É por isso uma boa altura para declararmos mais uma vez o nosso amor ao Benfica, um clube enorme que viveu connosco, nas palavras certeiras do Pedro Ribeiro, um autêntico Vietname. E que bom é ter sobrevivido a esses anos de ração de guerra para hoje besuntarmos os dedos em filet mignon. Ver Jonas em campo é, em muito, semelhante à sensação que tivemos quando vimos Pablito Aimar com a nossa camisola. A qualquer momento, em qualquer zona do terreno, arriscamo-nos a ver um tratado futebolístico. Por pouco não marcou num belíssimo lance com Grimaldo, mas deu a marcar com um remate mal defendido que colocou Jiménez na cara de Miguel Silva.

Jiménez

Agora que Jiménez se prepara para entrar na história do clube, deixamos apenas um conselho: lavem a máscara antes de a exibir no museu. É que tirar uma máscara de lucha libre das cuecas e colocá-la na cara é muito semelhante a despir as próprias cuecas e colocá-las na cara. Aconteceu-nos uma vez em Albufeira e prometemos não repetir a façanha, nem por amor ao Benfica. Já agora, imaginem que o homem não marcava e chegava ao balneário com uma máscara dentro dos calções, ainda por estrear. Felizmente os seus pés habilidosos evitaram essa situação altamente embaraçosa.

Samaris

Este gajo não estava suspenso? Que escândalo! Ainda por cima jogou bem. Aquela entrada ao Celis é de um descaramento sem igual. Então um jogador do Benfica que deveria estar suspenso por quatro jogos enfia uma fruta num jogador emprestado pelo seu clube, quase atirando o adversário para o estaleiro? Que bonita é esta vida repleta de contradições. Carrega Andreas!

Rafa

Mostrou sérias dificuldades em manter o penteado que tinha preparado para o jogo de hoje.

Felipe Augusto

Entrou para segurar Marega e companhia, mas quando deu por isso já Marega tinha tropeçado nos próprios pés e o árbitro apitado para o final.

Nota final: Adeptos do Vitória de Guimarães

Gigantes. Mereciam mais uma taça. São um dos poucos clubes fora do círculo dos três grandes que enche o seu estádio. O futebol português precisa de mais clubes e adeptos assim. Quero muito o penta, o hexa e o hepta, mas se esse ciclo tiver de ser interrompido que seja por uma equipa como esta. Sairíamos todos a ganhar.