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Um Azar do Kralj

É de considerar uma dupla Cristiano-Cristianinho num Mundial de 2030 (Um Azar do Kralj analisa a vitória na Letónia)

Portugal goleou a Letónia (3-0) e Vasco Mendonça e Nuno Dias analisaram a exibição da seleção de todos nós - todos nós que somos Eder, exceto, claro, Ronaldo

Vasco Mendonça e Nuno Dias, Um Azar do Kralj

Ronaldo bisou contra a Letónia

JANEK SKARZYNSKI/GETTY

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Rui Patrício

Quando se analisa a exibição de alguém que passou 90 minutos em campo, há um interesse ativo em observar as acções relevantes do sujeito analisado e transpô-las de alguma forma para o universo do autor, que tentará encontrar uma intersecção satisfatória entre a objectividade analítica e a subjectividade de um ponto de vista. Assim sendo, tenho a dizer-vos que esta é muito provavelmente a primeira e última oportunidade que terei de utilizar a expressão Rui dos Letões e não tenciono desperdiçá-la.

Cédric

Já não me lembro se foi Fernando Gil ou um empregado do Zé dos Cornos ao almoço quem me disse que todos temos uma pontinha de Eder. Farei os possíveis por ignorar a conotação sexual dessa observação, mas não enjeitarei a verdade nela contida e não é que isto continua a soar-me estranhamente sexual. Onde é que eu ia? Isso. Somos todos Eder, exceto Ronaldo. Ronaldo é Ronaldo, que por sorte euromilionária e probabilidade mediterrânica nasceu português. Já nós, os restantes portugueses, somos meros mortais que procuram aproveitar um destino que nos fez campeões europeus, mesmo que poucas vezes ao longo das suas vidas nos tenhamos sentido campeões. E, tal como Eder, agora excluído da convocatória, também nós desceremos à condição terrena para, com a pacata angústia de quem reconhece justiça na sua sina, ceder o lugar a Nélson Semedo.

José Fonte

O seu melhor lance em todo o jogo é uma segunda bola aos 39’ em que se vê obrigado a jogar com os pés. Meu Deus, o que lhe foram fazer. De repente, José Fonte dá por si livre de marcação numa zona habitualmente ocupada por Cristiano Ronaldo e André Silva. Tudo lhe parece confuso, a visão turva perante a novidade, mas Fonte parece identificar uma oportunidade para rematar. E assim foi. O resultado fez lembrar Pauleta se alguma vez tivesse jogado sob o efeito de álcool, mas a abnegação dos nossos jogadores não conhece limites, e foi assim que participou no lance imediatamente a seguir, mandando uma bola ao poste que Cristiano Ronaldo só precisou de encostar. Bêbedos estamos nós.

Bruno Alves

Diz-se dos veteranos em boa forma que envelhecem como o vinho do Porto. Pois bem, Bruno Alves mantém a titularidade na seleção e continua a envelhecer como um vinho de Carcavelos esquecido no areal das Avencas em agosto de 1958. Por um lado, sentimos uma estranha perplexidade por este vinho licoroso ainda não ter sido levado pelas marés. Por outro, vemos Luís Neto no banco de suplentes. Quem? Exato. Bruno Alves raramente se faz rogado e isso é bom, excepto se for expulso por vermelho direto, o que felizmente não aconteceu hoje. Apareceu na flash interview sem disfarçar o entusiasmo, como se fosse a última vez que respondia a perguntas desinteressantes de João Pedro Mendonça. Não será, mas é bom que ele viva com este sentido de urgência.

Guerreiro

Tem um pé esquerdo abençoado e por isso começou o jogo com uma mão cheia de cruzamentos inspirados que, infelizmente, foram esbarrando um após o outro na estatura dos adversários. Esta vicissitude da modalidade não o deteve e continuou a sacar cruzamentos tecnicamente perfeitos uns atrás dos outros à procura daquele do chamado espaço entre os centrais, onde infelizmente se encontrava quase sempre outro central. Não fez nada de errado, e não foi só isso que fez. É hoje - de longe - um dos melhores jogadores desta selecção a assegurar que a nossa posse de bola não resulta numa gigantesca perda de tempo. Contra si tem o facto de por vezes agir de forma demasiado objectiva, o que irrita alguns colegas mais dados a rodriguinhos.

William

É toda uma desconstrução. Depois de décadas a gabar as qualidades do falso lento, chegou a altura de homenagear o verdadeiro lento. Sem piadas. Pode não ter a velocidade de outros tempos, aliás, poderá não ter a velocidade de outros, isto é, poderá não ter a velocidade, mas nada disso o impede de ser um dos jogadores mais agradáveis que já vi jogar. Eu explico. Poucos jogadores no futebol contemporâneo dignificam o passe como William Carvalho. É praticamente a única coisa que ele faz em campo, e talvez por isso faça tudo para elevar o passe a uma arte. Hoje, como quase sempre, vimos muitos exemplos disso, mas nenhum passe terá ascendido exactamente ao mesmo nível estratosférico como o que fez aos 80 minutos para, se este Esporão Reserva 2013 não me trai, Nélson Semedo. Tinha tudo para ser um lance banal a meio do terreno, mas William Carvalho viu uma tela onde a maioria de nós vê linhas de passe. Se não acreditem, rebobinem e digam-me que não foi um dos lances mais bonitos de todo o jogo. Não vos sei descrever exactamente com que parte do peito interior do pé direito é que a bola foi tocada, mas estou certo de que sentiu prazer. Isso e é a estabilidade em pessoa, uma qualidade que em muito beneficia os habilidosos posicionados à sua frente no campo. Um dia, quando estivemos a levar 3 de San Marino, insultaremos a sua lentidão, mas apenas porque somos criaturas ingratas, quiçá ignorantes. William tem o mais banal é valioso dos super poderes num futebolista: a capacidade quase infalível de passar a bola ao colega mais bem colocado para a receber com vista à marcação de um golo. Que Deus nos perdoe.

Gelson

Pareceu acusar aquele nervoso miudinho de quem se prepara para jogar a sua primeira Taça das Confederações, o que é curioso, porque nunca se tinha dito isto acerca de um futebolista profissional. Não desesperem, é esperado que a sua ginga regresse em breve de umas merecidas férias em Menorca, onde se dividiu entre as praias de nudismo, algumas sessões de meditação e a ocasional conversa com o empresário para saber quando é que a coisa se resolve.

Moutinho

Há três gigantes na grande distribuição em Portugal: Sonae, Jerónimo Martins e João Moutinho. Tal como os dois primeiros, João Moutinho também soube escolher uma região vantajosa do ponto de vista fiscal para continuar a desenvolver o seu modelo de negócio. As câmaras evitaram filmá-lo de perto, sob pena de o apanharem a chorar convulsivamente no seu primeiro jogo sem Bernardo Silva em campo.

André Gomes

Tal como o jornalista José Gomes Ferreira, também André Gomes é uma vítima das redes sociais. Os seus passes falhados e as suas ideias de jogo são julgadas como se tivesse falhado uma previsão do crescimento do PIB ou, pior, como se tivesse aconselhado os depositantes de um banco a manterem o seu dinheiro onde estava. O seu futebol, porém, vai sobrevivendo à inquisição. Esteve no lance do primeiro golo e em mais algumas iniciativas ofensivas que beneficiaram da sua presença em campo. Talvez não seja o suficiente para escrever um livro a explicar aos português como devemos jogar futebol, mas é melhor do que nada.

André Silva

Demorou a aparecer no jogo e só aos 66 minutos conseguiu garantir o seu lugar na história das estatísticas que não interessam assim tanto mas ajudam a preencher tempos mortos quando um jogador da Letónia saí tocado de um lance dividido. André Silva agora 7 golos em 7 internacionalizações, em muito possíveis devido à deambulação de Cristiano Ronaldo na sua área de intervenção, mas nem por isso menos auspiciosos. Tem mais uns aninhos de actor secundário pela frente, que farão dele o John Goodman que esta equipa nem sempre teve.

Ronaldo

As primeiras intervenções no jogo pareciam substituir o já conhecido “calma, eu estou aqui!” por um modesto “sim, estou cá, mas tenham calma que a época já vai longa”. Nada mais enganador. Pouco depois, Cristiano apareceu no jogo e pronto, aconteceu aquilo que se esperava quando dão rédea solta ao melhor futebolista do mundo em Riga numa sexta-feira à noite. Dois golos, uma assistência para André Silva, e uma mão cheia de intervenções que denotam tudo menos o avanço da idade. A continuar assim, é de considerar uma dupla Cristiano-Cristianinho num mundial de 2030.

Quaresma

Reanimou o flanco direito e transformou a exibição melancólica de Gelson num autêntico Despacito. Assim que o viu, Ronaldo correu na sua direcção como se tivesse encontrado o único amigo na discoteca que não levou a namorada.

Nélson Semedo

Futuro titular da selecção na lateral-direita e não se fala mais nisso.

Nani

É que nem um mortal. Inadmissível.