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Um Azar do Kralj

Já tínhamos saudades de um bom empate (isso e fixem este NIB)

Se não quiser ler graçolas inúteis sobre o Portugal-México (2-2) e a vida em geral, Vasco Mendonça e Nuno Dias pedem que visite a caixa multibanco mais próxima e faça uma transferência para a conta solidária da Caixa Geral de Depósitos: PT50 0035 0001 00100000 330 42

Vasco Mendonça e Nuno Dias, Um Azar do Kralj

ROMAN KRUCHININ/GETTY

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Rui Patrício

A nossa missão aqui na Tribuna Expresso é simples. Pedem-nos que olhemos para o jogo e digamos coisas espirituosas e bem humoradas sobre as incidências de um jogo de futebol. Esse exercício pressupõe, entre muitas outras coisas, que exista uma vontade de rir do lado de lá, e muita gana do lado de cá para vos fazer rir. Pois bem. Hoje estamos a escrever isto a contragosto. Não nos parece que seja dia de fazer piadas, ou então é exactamente o tipo de dia em que precisamos de rir com alguma coisa, seja lá o que for. Por isso, decidam vocês. Se não quiserem ler graçolas inúteis sobre este jogo e a vida em geral, pedimo-vos que visitem o vosso banco online ou a caixa multibanco mais próxima e façam uma transferência para a conta solidária da Caixa Geral de Depósitos: PT50 0035 0001 00100000 330 42. A Caixa já deu o exemplo e depositou 50 mil euros. Se forem dos que ainda assim têm vontade de rir um bocadinho, fixem o NIB à mesma e tratem disso daqui a 5 minutos. O Rui Patrício jogou lindamente, como aliás acontece quase sempre na seleção.

Cédric

Aos 33 minutos foi visto a aconselhar calma aos colegas, uma palavra de ordem paradoxal na medida em que alguns deles se encontravam a dormir. Não obstante termos decretado há alguns dias a sua desproporção ao banco de suplentes por troca com Nélson Semedo, correu e lutou o suficiente para justificar a sua continuidade em campo. Tem a intensidade de um lateral de liga inglesa, mas nem sempre isso é útil quando os colegas se movimentam à velocidade da distrital da Guarda. Indiferente a tudo isto, furou campo acima para enfiar um golo que quase nos deu a vitória, deixando Fernando Santos à beira de um ataque de nervos.

Pepe

Faltou um central à nossa defesa hoje para a apelidarmos de três estarolas. Num jogo em que o México passou a maior parte do tempo a mostrar a qualidade dos seus jogadores no importante gesto que é passar a bola para o lado, Pepe não resistiu ao efeito atordoante deste estilo de jogo e, tal como nós no sofá lá de casa, deixou que a sua cabeça tombasse para o lado enquanto alguém pedia para ver outra coisa na televisão. Tal como nós também reagiu em exaspero quando percebeu que alguém tinha mudado de canal, mesmo sabendo que a culpa fora essencialmente sua.

Fonte

Não conseguiu disfarçar o sorriso logo após a sua falha que deu o golo do empate ao México. O seu cérebro levou a melhor e, ainda que o marcador dissesse “outra vez um empate, caraças?” os seus lábios expressão o sentimento de dever cumprido. Fiel ao desígnio da selecção portuguesa, é neste momento um daqueles jogadores que tem tudo para crescer de jogo para jogo, fundamentalmente porque não dá para jogar muito pior do que lhe vimos hoje.

Raphaël Guerreiro

O saber popular diz-nos que água mole em pedra dura tanto dá até que fura, mas talvez não possamos dizer o mesmo dos cruzamentos efectuados por Raphael Guerreiro ao longo de uma hora e meia. Fez provavelmente o pior jogo pela seleção, quiçá da sua carreira, e reagirá a essa constatação com a calma que já lhe reconhecemos em circunstâncias mais adversas: com algumas acções defensivas improváveis num jogador com a sua compleição física e dois ou três cruzamentos milimetricamente bem medidos para a cabeça de Cristiano ou André Silva, que culminarão na sua presença no melhor onze desta competição desenxabida.

William Carvalho

Já vimos um filme de ficção científica sobre isto. Numa cidade longínqua, um homem brilhante até então conhecido pela distinta posse de todas as faculdades, começa a titubear. Ninguém percebe muito bem o que se passa. O pânico instala-se. Uma aldeia inteira cochicha, até que alguém mais pragmático resolve perguntar ao invidíduo e descobre a terrível verdade. É esta a sinopse de “O Homem que tinha a cabeça noutro lado qualquer” (um sólido 4.2 no IMDB). Na sequela a que hoje assistimos, William Carvalho aparenta estar em Kazan, mas na verdade todo ele parecia estar a disputar o jogo num descampado em Portalegre. Se tivermos em conta que estavam 39 graus, até se pode dizer que fez um excelente jogo.

João Moutinho

O problema de um meio-campo com Moutinho, William e André Gomes é que a coisa por vezes se transforma num tiki-taka dos pobres, com muito passe e pouca uva. Hoje foi um desses dias, e Fernando Santos percebeu isso muito antes de substituir o nosso pequeno génio, mas há jogadores que obrigam a um mínimo de dignidade no trato quando queremos que abandonem o campo. Por exemplo: se um jogador é substituído ao intervalo, a mensagem do treinador oscilará entre um “esquece, a jogar assim não calças” e o também conhecido “fiz merda, mas ainda vou a tempo de corrigir”. Se um jogador sair a 5 ou 10 minutos do fim, aplaude-se o seu sacrifício ou a sua grande exibição, ou insulta-se o treinador pela decisão tardia. Pior mesmo só o infeliz que é substituído aos 48 minutos, como se o treinador nos desse a entender que se esqueceu de fazer a substituição ao intervalo. Moutinho saiu aos 58 minutos, 10 longos minutos depois dessa suprema humilhação, agradecido pela atitude protocolar do mister e consciente de que não era o seu dia nem o nosso.

André Gomes

Há uma série interessante no Netflix chamada "Designated Survivor". A história trata da vida de um político de segunda liga quando, após um ataque terrorista ao Capitólio, se vê subitamente nomeado presidente dos EUA. Boa parte dos primeiros episódios mostram-nos um homem aterrorizado pela responsabilidade, paralisado pela fragilidade da sua posição, nobre nas intenções mas incapaz de tomar uma decisão. Aos poucos, Kiefer Sutherland vai ganhando a confiança só vista nos grandes líderes políticos. Conquista os seus pares no congresso e, mais importante ainda, conquista o povo. André Gomes está numa fase da sua carreira como internacional A em que a maioria das pessoas questiona a sua legitimidade democrática, mas o Kralj acredita que dias melhores chegarão. Odeiem à vontade, mas aqueles pezinhos fazem-nos acreditar num mundo melhor.

Nani

Há muito que não víamos um jogador pedir a substituição desde o primeiro minuto. Nani fez de tudo: alheou-se do jogo durante uma hora e tentou aproximar-se o mais possível do banco de suplentes, mas ainda assim passou uma hora em campo. Ao cuidado da Alberto Oculistas: mudem a graduação ao nosso mister.

Ricardo Quaresma

O seu penteado de hoje parecia consistir no desenho de um labirinto do qual não conseguia sair, pelo menos até Cristiano Ronaldo fazer uma das suas arrancadas e entregar-lhe meio golo num lance à sua medida: poucas coisas farão Ricardo Quaresma mais feliz do que um tipo da América Central com ar de cromo mesmo a pedir que lhe tirem as manias. Quaresma não enjeitou e sentou o referido sujeito, para logo a seguir correr a agradecer ao seu puto Ronaldo, enquanto nós em casa olhávamos, primeiro embevecidos, para estes nossos putos, depois algo deprimidos, que estes dois já não são assim tão putos e uma pequena parte de nós já começa a ter saudade deles.

Cristiano Ronaldo

É assim que se vêem os grandes líderes. Ronaldo esperou pacientemente uns bons 20 minutos até que os colegas acordassem e depois, com a entusiasmante previsibilidade só ao alcance dos melhores de todos os tempos, apareceu para decidir. Tem duas semanas para garantir, num mundo pleno de injustiças, garantir inequivocamente a quinta Bola de Ouro. Que pense apenas nisso como é costume e deixe o resto para o contabilista.

Gelson

É por aí, puto. Mais sangue na guelra, que tens o mundo inteiro a ver. Merecia o golo após um belíssimo lance de contra-ataque conduzido por André Silva. Enquanto não acertar duas ou três fintas vai-nos parecer um jogador ansioso, algo perdido. Questionaremos a sua presença em campo. Alguns recomendar-lhe-ão que procure outra carreira. Assim que fizer duas ou três revendas, bom, vai-nos parecer o melhor do mundo e quem quer que toque no menino tem a sua vida em perigo. Desculpa, Gelson. O problema não é teu. Nós é que só estamos bem na euforia ou na depressão.

Adrien Silva

Dele se esperava que agitasse as águas e desse ao meio-campo português maior clarividência e objetividade na construção ofensiva, mas acabou por fazer lembrar o jogador que acabara de substituir.

André Silva

Bela entrada a pedir muitos mais minutos em campo. Hoje não marcou e a imprevisibilidade do jogo começa a estragar-lhe as estatísticas que já faziam dele o melhor marcador da selecção desde Matateu ou coisa do género. Nada que o demova ou o faça tentar menos.

Já sabem, visitem o vosso banco online ou a caixa multibanco mais próxima e façam uma transferência para a conta solidária da Caixa Geral de Depósitos: PT50 0035 0001 00100000 330 42.