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Um Azar do Kralj

Há um apanha-bolas a caminho da Sibéria e Elideus está a caminho das meias-finais – por um Azar do Kralj

Um por um, a análise de Vasco Mendonça e Nuno Dias aos jogadores de Portugal

Vasco Mendonça e Nuno Dias, Um Azar Do Kralj

SRDJAN SUKI / EPA

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Rui Patrício
Um ou duas saídas a fazer lembrar um gajo que não sabe dançar a tentar divertir-se num arraial de santos, mas de resto teve um jogo sossegado com duas ou três defesas muito seguras que impediram a cidade de Auckland de entrar em polvorosa. Mentira, são 5 da manhã da Nova Zelândia e ninguém quer saber disto.

Nélson Semedo
É um pouco estranho que o melhor lateral-direito presente na Taça das Confederações só tenha sido titular ao terceiro jogo. Enfim. Mais vale tarde que nunca.

Pepe
Não nasceu em Portugal, mas sabe bem do nosso respeito pelas superstições. Pouco se fala sobre isso, mas há mais de 10 anos que Pepe entra em campo com um colar de alhos. A origem pode ser encontrada num livro de Moisés Espírito Santo, mas vocês querem lá saber. Superstição, dizíamos nós. Da última vez que Pepe não jogou uma meia-final por castigo, fomos tão somente campeões europeus. Portanto, da próxima vez que ouvirem um comentador televisivo dizer que Pepe perdeu a cabeça, pensem duas vezes. Talvez seja ele o único que sabe o que está a fazer.

Bruno Alves
Exibição caracterizada pelo entendimento quase telepático com Rui Patrício aos 58’, uma relação com Pepe que já viu melhores dias e algum desrespeito pelo adversário, o que resultou em dois ou três quase-golos. Dada a sua compleição física e apetência natural para a mocada, teria feito mais falta no Mundial de râguebi de 2007 do que no jogo de hoje. P.S. - é possível que o uso do termo mocada neste contexto ofenda alguns adeptos do râguebi. Vivemos bem com isso.

Eliseu
Foi um bom regresso à titularidade. Fez uma assistência para golo e falhou alguns passes que nunca esperámos verdadeiramente que acertasse, mas acima de tudo afastou o perigo em lances perigosos da Nova Zelândia como só ele sabe. Parece fácil, mas poucos são os jogadores a quem podemos confiar esta responsabilidade. Por exemplo: Raphael Guerreiro teria exibido a sua conhecida superioridade civilizacional, ajeitando elegantemente com a parte inferior do pé esquerdo, procurando uma linha de passe para sair a jogar, correndo toda uma checklist de imperativos técnico-tácticos apenas ao alcance dos melhores, para no final um semi-amador neozelandês enfiar uma lá dentro (vimos uma versão disto contra o México). Já Eliseu é o Mário Jardel do Deus-nos-acuda: aparece quase sempre à hora certa no lugar certo, pronto para mais um valente charuto enquanto os modelos tácticos desabam à sua volta. Há um apanha-bolas a caminho da Sibéria neste momento, e Elideus está a caminho das meias-finais. Abençoado seja.

Danilo
É estranho ver um médio defensivo correr, dobrar, vascular, lutar, conquistar, pugnar, perseverar, antecipar, e ainda assim ser um bocadinho inferior a William Carvalho, o fundador do movimento slow football. Até a expressão de Danilo na flash interview parecia acusar esta absoluta inevitabilidade. Assim seja.

João Moutinho
Sabem quando se diz que algo funciona como um relógio suíço? É um elogio, mas experimentem olhar para um relógio suíço a funcionar correctamente durante 90 minutos e digam-nos que não morrem de tédio. Vá lá. Falamos no fim.

Bernardo Silva
Vamos ser muito parcimoniosos nesta análise, o que é curioso, porque o próprio uso da palavra parcimonioso é em si de uma cagança pouco condizente com a dita parcimónia. #AgoraPensem. A razão desta análise mais curta é, aliás, bastante prosaica. Estamos a glosar uma ode (epá, parem) a Bernardo Silva que será publicada aqui na Tribuna algures entre amanhã e o dia em que formos para casa, e não queremos queimar muitos cartuchos. Por falar nisso, quando é que vimos para casa? Tudo bem, Fernando Santos não quer voltar a usar essa sob pena de lhe rebentar nos pés, mas ainda assim sentimos que o jornalismo português tem feito pouco para encontrar respostas. Pois é, disto não falam os truques.

Quaresma
Terá sentido o mesmo em relação ao adversário de hoje que um all black em 2007 quando soube que iria ser titular contra os Lobos. Ou seja, riu-se, esfregou as mãos de contentamento, e voltou a pegar no comando da PS (na verdade, hoje seria mais provável que fosse para o Instagram ver miúdas). A sua exibição alternou entre laivos do Quaresma miúdo que maltrata o adversário a cada oportunidade e o Quaresma pai de filhos, um indivíduo razoavelmente ponderado que abdica de parte do seu talento em prol dessa epidemia a que chamamos jogo de equipa.

Ronaldo
É espantoso. Se eu tivesse acabado de pagar 14 milhões em impostos, nem saía da cama. Ronaldo é diferente. Em poucos dias, não só deu alegrias aos portugueses como aos espanhóis. Jogou como sempre. Numa semana em que a maioria falou dos seus direitos de imagem, Ronaldo cumpriu escrupulosamente com os deveres da sua imagem: marcar golos e continuar a ser o dono desta merda toda.

André Silva
Teve pelo menos meia dúzia de oportunidades para se tornar o avançado com mais golos por jogo na história da selecção de futebol sénior. Desperdiçou pelo menos 5. Um adepto mais exigente, ou parvo, diria que assim não vai a lado nenhum, mas afinal isto é a Taça das Confederações. Este jogo foi visto por alguns milhares de portugueses e meia dúzia de russos embriagados. Para compensar a sua perdularidade (finalmente perdularidade num texto nosso!), deu um golo a marcar ao Nani. Ou seja, entre o deve e o haver, é o segundo melhor avançado da selecção desde Pauleta. O adepto mais exigente diria desde Makukula.

Pizzi
Assumiu sem medos a responsabilidade de substituir os pés de Bernardo Silva e explanou com lucidez, visão de jogo, sábia ocupação do espaço, sublime fio de jogo, e fino recorte técnico porque é que o melhor jogador da Liga NOS deveria ser titular da selecção. Não estamos certos de que alguém tenha prestado atenção.

Nani
Substituiu Ronaldo e mostrou-se mais esclarecido, excepto no momento de festejar o golo, que consistiu num remate cruzado após lance individual competente, um daqueles que já todos os adversários de Nani conhecem excepto estes tipos da Nova Zelândia. Mas dizíamos: Nani tem um novo festejo de golo, mas precisa de trabalho. Nani avançou decidido na direção de uma das câmaras e mostrou uma das suas caneleiras. Problema: só o operador de câmara terá visto o que estava na dita caneleira. A realização russa, já na terceira garrafa de vodka, escusou-se a recuperar imagens do episódio. Pareceu-nos ainda assim que Nani disse mamã, mas é difícil perceber a utilização de acentos quando se lê lábios. Seria mama? Nunca saberemos (mentira, provavelmente já há 10 “reportagens” dos desportivos sobre isto).

Gelson
Estão a ver aqueles jogadores que entram em campo cheios de gana e assim que tocam na bola fazem estragos? Foi mais ou menos isso. No seu primeiro lance individual, Gelson fez gato sapato de um neozelandês. Na segunda vez em que tocou na bola, fintou-se a si próprio. Acaba por ser uma metáfora razoável para o seu momento de forma.