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Um Azar do Kralj

Precisamos do Renato de volta e, sobretudo, precisamos que o Bayern pague parte do salário. “Portanto, vê lá isso” (por Um Azar do Kralj)

Vasco Mendonça escreve uma carta aberta a Renato Sanches, que não conhece, mas no qual vê coisas à antiga, à Benfica. Ele pede-lhe que volte a vestir o “manto sagrado”

Vasco Mendonça, Um Azar do Kralj

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Olá, Renato. Não nos conhecemos. Sou apenas um entre milhões de adeptos que amam o Benfica tal como tu. Não nos conhecemos, mas acho que sei algumas coisas acerca de ti.

O Renato que eu conheço é uma força da natureza capaz de levar tudo à frente e deixar qualquer dia mau para trás.

O Renato que eu conheço é uma improbabilidade estatística, mais uma de tantas produzidas pelo nosso futebol, pelo trabalho associado a um talento que não se antecipa mas estava escrito.

Dizem que o Renato que eu conheço faz lembrar o Davids em campo. Eu cá não sei quem é que me fazes lembrar. Não me ocorre o nome de outro jogador exactamente como tu. E isso é bom. Escreve a tua história e marimba-te no resto.

O Renato que eu conheço não se deixa intimidar pela adversidade nem se esconde do adversário. Finta, pressiona, insiste e resiste até a bola ser sua e a derrota dos outros.

Dizem que o Renato que eu conheço foi apaparicado pela imprensa e levado ao colo pelo hype. Chegaram a dizer que o Renato que eu conheço é trintão como eu. Quem dera aos trintões, eu incluído, terem um décimo da tua fúria. Nós trintões não conduzimos as nossas vidas como tu conduzes a bola. Por isso não, não preciso de ver o BI. És um jogador de outro tempo, isso sim, à antiga. À Benfica.

Ainda assim, o Renato que eu conheço nunca deixou de jogar como se fosse apenas mais um. Mais um dos que jogam, um dos que juram pelo manto sagrado.

O Renato que eu conheço talvez não chegue a ler isto, mas decidi tentar na mesma. Se eu pudesse pedia ao Chief Keef, ao Future ou ao K-Dot para te passarem este repto em forma de verso, mas nenhum deles me atende o telefone, portanto segue nesta prosa humilde.

O Renato que eu conheço é um miúdo ligeiramente irresponsável que falha os passes do modo mais enternecedor que já vi. Ainda bem. Não é um jogador feito, mas tem tudo para se fazer.

Dizem os especialistas mais despojados que, para sermos felizes, basta o amor e uma cabana. Para um futebolista não é bem assim. A carreira é curta, a pressão mais que muita, e os contratos nem sempre abundam. É aí que entram a estratégia e o planeamento, Renato, essas malditas convenções dos seres pensantes que nunca falharam um passe e teimam em querer saber onde é que nos vemos daqui a 5 anos. Eu sei lá.

O saber acumulado pela estratégia dir-nos-á que um futebolista emigrado aos 19 anos de idade não tem nada que regressar ao clube que o formou um ano depois. Tem que continuar a ganhar mundo, músculo e milhões em ligas mais competitivas. A minha discordância em relação a este ponto é profunda e romântica.

O Renato que eu conheço deve obedecer, antes de mais, ao imperativo emocional. O Renato que eu conheço tem uma oportunidade única de ser o primeiro vencedor do prémio Golden Boy a dar meia volta para regressar ao local onde foi feliz. Tem uma oportunidade de, mais uma vez, fazer aquilo que dele não se espera em campo e ganhar metros ao adversário fazendo um caminho cada vez menos percorrido: o do amor à camisola. É esse que nos traz de volta.

Precisamos do Renato destemido que quase deitou a Luz abaixo com aquele remate fora da área. Precisamos do Renato trabalhador. Precisamos do Renato carismático. Precisamos do Renato impiedoso. Precisamos do Renato no Marquês. Não precisamos do Renato salvador. Como sabes, o Benfica está bem e recomenda-se. Precisamos do Renato temido pelos adversários, que joga sempre um contra onze, acompanhado de pelo menos mais dez futuros pentacampeões. E bom, em nome do realismo, precisamos que o Bayern pague uma parte do salário desse Renato. Vê lá isso com eles.

O teu patrão Rummenigge disse ontem que precisas de mais minutos em campo. Eu concordo. Tu e nós, benfiquistas. Depois foi a tua vez. Disseste nas redes sociais que fica mais difícil se não acreditares em ti. Concordo. Mas olha: fica muito mais fácil quando tens milhões que acreditam em ti. Quero acreditar que o Renato que eu conheço sabe isto. Cá te esperamos, miúdo.