Tribuna Expresso

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Um Azar do Kralj

Luisão e Grimaldo fizeram um Fim de Semana com o Morto com Jardel (e há mais clássicos do cinema na análise à Supertaça de Um Azar do Kralj)

O espanhol, depois de tanto ajudar a que não se descobrisse que o colega brasileiro estava falecido, teve o seu momento Groundhog Day, num sábado à noite de tourada em que Seferovic conseguiu ser o touro e o cavaleiro ao mesmo tempo

Vasco Mendonça e Nuno Dias, Um Azar do Kralj

FRANCISCO LEONG/Getty

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Bruno Varela

Não vai ser fácil recuperar de Ederson. Bruno Varela parece sempre muito menos seguro entre os postes, ao lado destes, ou em qualquer outra posição que ocupe acordado. Tínhamos um guarda-redes que fazia assistências para golo. Agora temos um guarda-redes que cria lançamentos laterais a favor do adversário. Se Bruno Varela tivesse sido observado hoje como potencial substituto de Ederson, o relatório seria “eh pá, não.” Nota positiva para os sucessivos atrasos na reposição da bola em jogo. Foram cerca de quarenta e dois lances em que segurou a bola convictamente e se atirou para o chão sem qualquer necessidade. Os colegas bem lhe tentaram explicar que não estamos a lutar pela manutenção, mas ele não foi em conversas.

André Almeida

Avizinha-se uma época estranha. A principal função de André Almeida sempre foi fazer esquecer a ausência temporária de alguém melhor do que ele. Nesse papel foi muitas vezes exímio. Os adeptos, aliás, sempre avaliaram as suas exibições utilizando a bitola “é esforçado, pá, até à baliza joga se for preciso”. Hoje, pela primeira vez em muito tempo, André Almeida entrou em campo porque não há de facto ninguém mais talentoso ou bem preparado do que ele. Nota-se que esse protagonismo o deixa desconfortável, enquanto jogador e talvez até enquanto benfiquista. Nem mesmo André Almeida achará a sua titularidade uma situação recomendável. Assim, os adeptos passarão a avaliá-lo de acordo com a nova bitola: “não me lixem com este André Almeida, andámos 2 meses a a pastar e agora não temos defesa…”. A sua exibição não foi especialmente desastrosa, mas esteve muito longe do elogio máximo a que o seu futebol pode aspirar, e que será ironicamente um sinal de vivemos tempos trágicos. Senão imaginem alguém dizer “salvou-se o André Almeida, fossem todos como ele!”

Luisão

A sua oração no final dos jogos parece cada vez mais curta. Há 10 anos Luisão agradecia a Deus pela vitória nos 90 minutos e pedia-lhe mais títulos. Hoje agradece-Lhe acima de tudo pela estabilidade dos sinais vitais. A exibição de hoje não foi espantosa, longe disso. Chegou a parecer parado em alguns lances, dada a diferença de pique em relação aos adversários. Ainda assim, continua a aparecer cronicamente em meia dúzia de momentos ai-Jesus com a impetuosidade de alguém muito mais novo e muita fome de vitórias. Pelo menos assim foi até hoje, dia em que se tornou o jogador com mais títulos na história do clube. Seria um excelente momento para se retirar, se não continuasse a ser absolutamente necessário em campo. É que chegamos ao fim dos jogos e sai-nos quase sempre um “ainda assim, salvou-se o Luisão!”

Jardel

As últimas exibições de Jardel fazem lembrar o clássico Weekend at Bernie’s, adequadamente traduzido para português como Fim-de-semana com o Morto. Para quem não viu, a história do filme é fácil de apanhar: dois tipos - vamos chamar-lhes Luisão e Grimaldo - descobrem que um colega de trabalho faleceu, mas não podem deixar que os outros descubram. Nisto, passam aproximadamente 97 minutos a transportar o cadáver de um sítio para outro, a safá-lo das situações mais absurdas, convencendo muita gente de que o falecido continua entre nós. Já o pobre do Jardel passa o filme todo com uns óculos escuros a tapar-lhe os olhos, sempre apoiado em alguém para não se estatelar. A coisa está tão bem feita que em algumas cenas ele chega mesmo a parecer vivo. Luisão e Grimaldo quase conseguem evitar que se descubra, mas às tantas fartam-se, até porque não lhes pagam para isso. O filme teve uma sequela em 1993, desta vez protagonizada por um argentino no papel de falecido.

Grimaldo

Níveis de bazófia acima do esperado na primeira parte. O adversário tinha outros planos para si e foi-lhe tirando as manias, pelo menos até se lesionar. Esta história das lesões é o nosso Groundhog Day. Santa paciência.

Fejsa

A equipa respira melhor com a sua presença em campo. Isto dito assim parece uma melhoria ligeira, mas não. É uma questão de sobrevivência. Quando digo que a equipa respira melhor com a presença de Fejsa em campo, é porque a sua ausência coloca o quarteto defensivo numa espécie de waterboarding auto-infligido em que as admissões de culpa vão surgindo literalmente aos pontapés.

Pizzi

O seu futebol há muito que vai exibindo níveis estratosféricos, mas é como se já nada nem ninguém o consegue fazer descer desta camada da atmosfera terrestre. É perfeitamente compreensível. Se tivéssemos o Filipe Augusto cá em baixo à nossa espera, também não descíamos. Melhor em campo.

Salvio

Qualquer jogada de Salvio pode ser descrita por uma das seguintes combinações de palavras:

Bem, Salvio. Mal. Não. Porra, Salvio.

Bem. Solta. Tens um gajo a pedir a bola. Solta a bola. Solta a @€£# da bola!

Isto foi o Salvio? Vá lá…

Era o Salvio outra vez?

Quanto é que achas que recebemos por ele?

Lá tás tu a inventar… Solta a bola! Isso! Leva! Vai! Gooooloooo! Este gajo quando quer…

Cervi

É hoje um dos jogadores que mais motivos nos dá para dizermos coisas como “temos munta fortes do meio-campo para a frente” ou “era aproveitar e despachar já o palhaço do Carrillo”. Cervi voltou a ser um dos mais adultos em campo, conseguindo algumas das melhores combinações ofensivas de todo o jogo com Pizzi e Seferovic e apoiando defensivamente sempre que o jogo pedia a disciplina táctica e entrega de um anão com sangue latino.

Jonas

Quantas vezes podemos dizer que Jonas não foi o melhor jogador em campo ou o melhor avançado da equipa ou o autor do melhor golo? Aproveite-se este raro momento de vulgaridade na sua carreira e celebre-se. Tão cedo não teremos outra oportunidade.

Seferovic

Potente e gracioso. Aqui estão dois adjectivos que não resultam quando os juntamos numa frase. Agora já está. Seferovic é um misto de touro e cavaleiro. Passa metade do jogo a enfiar os cornos de forma inteligente nos defesas adversários, desgastando-os sem perder pulmão. Por outro lado, se a bola lhe chega aos pés tem técnica e inteligência suficientes para se esquivar aos cornos do adversário e ir por ali fora, tudo isto a um sábado à noite em direto na RTP. Queixem-se agora, ativistas.

Filipe Augusto

Ainda não é certo para nós que seja jogador de futebol.

Eliseu

Exibição estranhamente sóbria, como todas as que fará até Maio. A partir do momento em que entrou na Luz a guiar uma Vespa encarnada, Eliseu deixou de ser um mero futebolista e tornou-se um novo acontecimento no calendário cultural do país. O seu problema hoje em dia já não é fechar o corredor esquerdo e apoiar no ataque. É falar com fornecedores de pirotecnia, com a empresa de aluguer de drones, fechar o contrato de aluguer do parapente, encomendar o bolo com a stripper, contactar os tipos da iluminação, saber do catering e finalmente escolher um nome. Por nós fica já Milhões de Eliseu.

Raul Jimenez

Tem tudo para ser o melhor suplente de sempre. Farta-se de correr, parece incomodado quando estamos a perder, tem aquela caga monumental de acertar na baliza ao primeiro remate, e vê-se que não gosta de ser suplente. É perfeito. Banco com ele.

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