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Um Azar do Kralj

O Safety Check necessário quando Samaris joga, o futebol como a arte do pizzível e outras considerações por Um Azar do Kralj

Vasco Mendonça e Nuno Dias destacam ainda a exibição de Rúben Dias, um rapaz que junta "velocidade, a atitude incansável, a coragem de oferecer o corpo às balas e a humanidade necessária para passar 90 minutos perto de Douglas"

Vasco Mendonça e Nuno Dias, Um Azar do Kralj

Michael Steele/Getty

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Svilar

Para os mais distraídos ou otimistas, aqui fica o resumo: esta criança meio maluca evitou a goleada de um Man. United que, tal como na Luz, terá rodado um charrinho pelos titulares antes do jogo. De resto, comportamentos típicos dos mais novos: num minuto faz com que nos apaixonemos por ele e agradeçamos a benção de o ter connosco, no minuto seguinte é capaz de testar a nossa paciência até à exaustão. No caso de Svilar, esta circunstância dá-se, 9 em cada 10 vezes, quando é obrigado a utilizar os pés. Cada pontapé de Svilar é uma perigosa viagem ao desconhecido. Já agora, aproveitamos para informar que Svilar se tornou hoje o guarda-redes mais novo a ouvir os melhores adeptos do mundo num jogo da Champions League.

Douglas

É tão fraquinho a defender que até a falta do primeiro pénalti é patética, como se nunca tivesse tentado derrubar um adversário. Douglas é ultrapassado não uma mas duas vezes por Martial e, a muito custo, lá se deixa cair por forma a atingir o adversário nas pernas. Volta a falhar e acaba por jogar a bola com o braço. O lance deixa dúvidas porque nada no comportamento defensivo de Douglas parece intencional, nem mesmo quando o seu braço toca na bola. Fora isso, teve uma ou outra iniciativa ofensiva esclarecida, primeiro no flanco direito, depois um pouco por todo o lado, para chegar a lado nenhum.

Ruben Dias

Enorme. No final do jogo, disse, e passo a citar: “batemo-nos com os grandes e há que ressalvar isso”. Não víamos um defesa-central do Benfica utilizar o verbo ressalvar desde Samaris na flash-interview depois de ganharmos ao Zenit. Se a isso juntarmos a velocidade, a atitude incansável, a coragem de oferecer o corpo às balas, e a humanidade necessária para passar 90 minutos perto de Douglas, bom, então não restam dúvidas de que temos aqui um novo líder para a defesa benfiquista.

Jardel

Exibição estranhamente pacata, para ele e para nós, como se subitamente tivéssemos encontrado uma dupla de centrais capaz de estabilizar o batimento cardíaco dos benfiquistas. Com a sorte e pontaria que os nossos prognósticos têm revelado, é de esperar que Jardel faça um hat-trick na própria baliza já em Guimarães.

Grimaldo

Decisão sensata de Rui Vitória ao substituir um dos jogadores mais completos e fiáveis do plantel, que voltou a não comprometer e deu a Diogo Gonçalves (ou até a Pizzi, num lance em que fica por marcar pénalti) a confiança e o espaço necessários para algumas das melhores diabruras vistas hoje em Old Trafford. Sabendo da necessidade já manifestada por Mourinho em contar com mais um lateral-esquerdo, e tendo o jogo de hoje confirmado o que já se sabia (Grimaldo é muito melhor do que Blind), Rui Vitória optou por retirar Grimaldo do jogo, como quem diz “não vem que não tem”. E diz muito bem.

Fejsa

Excelente. A sua exibição de hoje conciliou duas realidades que coexistem neste Benfica: por um lado, vimos o regresso daquele Fejsa tetracampeão que leva tudo à frente e até sabe passar a bola; por outro lado, vimos um homem com a convicção serena de que o jogo estava perdido. Ainda assim, Ljubomir não enjeitou a oportunidade, mostrando que neste esquema tático à laia de um 4-3-3 é menino para mandar nisto tudo.

Samaris

O Facebook devia criar um Safety Check para quando o Samaris joga. É importante sabermos que os nossos amigos e familiares benfiquistas estão seguros depois de mais um ataque.

Pizzi

Se, como disseram Otto Von Bismarck, Cesare Pavese e um amigo nosso que acha que só ele é que vai ao citador.pt, mas dizíamos, se a política é a arte do possível, então o futebol é a arte do pizzível. A grande verdade é que o nosso pequeno génio ainda não atingiu o nível a que nos habituou na época passada. Tal como todos os cantos marcados por Pizzi, o seu futebol é curto para tanta ambição dos adeptos e muita da desinspiração ou falta de ideias da equipa tem origem nos pés de Pizzi. Hoje foi um bocadinho melhor e até sofreu um pénalti não assinalado, mas nós somos malta que tende a ver o copo meio vazio. A não ser que nos sirvam mais um bagaço. Nesse caso pode ser meio cheio. Encha mais. Não se acanhe. Isso.

Salvio

Esforçado com uns pózinhos de magia e um final amargo. Não se pode criticar um ala direito quando este é obrigado a fazer a dobra ao Douglas. Assim que o Zivkovic recuperar da lesão, talvez Rui Vitória se digne a colocar Salvio na posição de lateral. O QUÊ? O ZIVKOVIC NÃO ESTÁ LESIONADO? ENTÃO PORQUE É QUE NÃO JOGA?

Diogo Gonçalves

Um pontapé magnífico aos 17 minutos podia ter virado este jogo do avesso. É a quadragésima quarta vez que o vemos fazer aquele movimento para dentro à procura do remate, e reparem que só o vimos jogar três vezes. Só precisa de aperfeiçoar o movimento e poderá substituir Robben enquanto jogador mais irritante do futebol mundial que faz sempre a mesma jogada e quase nunca falha. O tal remate não foi a única decisão acertada que tomou ao longo do jogo, e também não foi o único remate com selo de golo desviado por De Gea. É verdade que esta coisa do Vitória colocar os miúdos a jogar se torna um bocadinho ridícula e populista quando vemos Cervi no banco de suplentes ou Zivkovic na bancada como se fossem ambos veteranos a pedir o render da guarda, mas, no entretanto, este puto Gonçalves é bem capaz de se fazer. E quem diz fazer diz vender, né? :(

Raul Jimenez

Uma vez tentaram vender-me um relógio de pêndulo mexicano, mas eu estava sóbrio.

Eliseu

Rui Vitória tentou aproveitar o pontapé-canhão de Eliseu para pôr à prova o inexperiente De Gea, #sóquenão.

Seferovic

Suplente inutilizado.

Jonas

Entrou já perto do fim não para marcar golos e fazer aquelas coisas que gostamos de ver em Jonas, mas para segurar a bola e garantir uma preciosa vitória moral a Rui Vitória.

Rui Vitória

Se Rui Vitória acha que a quarta derrota consecutiva em quatro jogos na Champions permite tirar ilações positivas, tem razão. Mas o sorriso que ostentava no final do jogo perante os cânticos dos adeptos, como quem diz “missão cumprida”, não teve piada nenhuma.