Tribuna Expresso

Perfil

Um Azar do Kralj

Ridículo, embaraçoso, sofrível: o novo programa da BTV devia chamar-se “Vergonha Imensa” (por Um Azar do Kralj)

Vasco Mendonça rebobinou a fita e viu aquilo que não esperava no canal do seu clube: uma réplica de um programa do clube rival

Vasco Mendonça, Um Azar do Kralj

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Partilhar

A notícia caiu que nem uma bomba num país sem jogos para o campeonato há duas semanas. Infelizmente não me refiro à polémica revelação feita por Bruno de Carvalho de que o Pai Natal é verde. Não. Vinha aí algo muito mais interessante. Não é todos os dias que recebemos uma notificação da aplicação oficial do clube como esta: “os nomes do novo Apito Dourado, às 18h00”.

O quê? Como assim? Onde? Porquê? A perplexidade foi tal que precisei de uns minutos para me recompor. Fui à procura de mais informação e parece que já se sabia desde ontem. Quando dei por mim reparei que a comunicação social já fervia a reboque de um comunicado oficial do clube lançado no dia anterior. MATA, dizia um desportivo. ESFOLA, dizia outro. Preparem-se que vem aí material do bom!

O conteúdo daria pelo nome de “Chama Imensa” e prometia apresentar a partir das 18h00, perdão, mais do que apresentar, prometia “denunciar os nomes da estrutura montada pelo FC Porto para ameaçar e controlar as entidades desportivas, em especial o setor da arbitragem”.

Não é pouco.

Foi por isso que também eu, como muitos benfiquistas, decidi que era hora de saber toda a verdade. Assim que cheguei a casa, rebobinei e sentei-me no sofá. Um apresentador explica que o propósito do programa é o de divulgar a forma como as competições profissionais de futebol estão a ser condicionadas em Portugal.

Ingenuamente, penso: será que é desta que vamos descobrir o que levou alguém a contratar o Douglas?

Ultrapassado o intróito do figurante Luis Costa Branco e uma reportagem sofrível com screenshots de coisas que já todos vimos, seguiu-se uma declaração de Luís Bernardo, diretor de comunicação, que explicou desde logo a real motivação do clube: “queremos marcar a diferença e não haverá nenhum julgamento público.”

É uma postura institucional que o adepto civilizado preza, ou prezaria, se essa mesma postura não fosse derrubada por uma entrada a pés juntos contida na premissa do próprio programa: divulgar “os nomes do novo Apito Dourado”.

Pior: fazer tudo isto por intermédio de José Marinho. E quem é José Marinho, perguntam vocês? Não vos vou maçar com um extensa nota biográfica. Dou-vos a versão curta e grossa. José Marinho é a resposta do Sport Lisboa e Benfica a Francisco J. Marques. José Marinho é a resposta do Sport Lisboa e Benfica a uma pessoa que não merece resposta, a não ser dentro de campo ou nos tribunais, sempre que tal se justificar (e talvez se justifique).

O espectáculo já leva meia hora, ou assim parece tal é a duração do monólogo. Tudo se mantém morno e desinspirado, um pouco como as exibições do Benfica esta época: lances mal gizados, falta de ligação entre os setores (da argumentação e da verdade), um desenho tático inconclusivo, uma vaga ideia de jogo.

Como se isto não bastasse, todo este formato de entretenimento televisivo parece-nos estranhamente familiar. Será que é um daqueles conteúdos da Endemol que foi transmitido em outros países e agora chegou cá?

Não. É só uma réplica embaraçosa do programa do Porto Canal: várias pessoas sentadas à mesma mesa cedem a palavra a Francisco Marques, perdão, José Marinho, que aproveita a gentileza e passa a hora seguinte a falar de tentáculos e de polvos. Spoiler alert: o espectador sai dali com uma mão cheia de nada. Pior: no final continuamos em terceiro lugar, sem jogar a ponta dum chavelho, e com quatro derrotas consecutivas na Champions. Rumo ao quê?

O momento alto deste primeiro episódio de “Polvo Azul” é um organograma. Neste, vemos os principais intérpretes do novo Apito Dourado que tantos estragos promete fazer esta época.

José Marinho começa pela cabeça do polvo e refere Pinto da Costa. É o início de um dos piores monólogos dos últimos anos no futebol português. José Marinho segue por ali fora, qual Salvio sem linhas de passe a correr na direcção de meia dúzia de adversários.

Prossegue indiferente ao sentimento de vergonha alheia que as suas palavras geram no espectador. Este dá por si a desejar o fim de mais uma exibição sofrível. A imagem permanece no ecrã e eu dou por mim a decifrar o tal organograma. A cabeça do polvo é José Sá, tem Ricardo Pereira na direita, Alex Telles na esquerda, Felipe e Marcano no centro da defesa e vai por ali fora com uma série de malfeitores técnico-táticos comandados pelo malfeitor-mor, o excelente treinador Sérgio Conceição. A PJ que ponha os olhos nisto!

José Marinho já perdeu a bola, mas continua a correr: o organograma é assim e assado, estas pessoas isto e aquilo, há um braço armado que faz e acontece. O espectador acaba por não perceber se todas estas manobras já aconteciam enquanto o Benfica conquistava o primeiro tetracampeonato da sua história. E convém que não perceba.

Estamos perante uma manobra de diversão, entretenimento do mais alto gabarito. No site oficial do clube, uma notícia remete para o vídeo com a versão completa do programa e a manchete anuncia em maiúsculas “A DENÚNCIA É NOSSO DEVER”. Ó diabo. Então não era E Pluribus Unum? Um pouco por toda a internet, os benfiquistas dividem-se. Ao fim de umas horas, a dúvida permanece: afinal quem é que nos anda a comer de cebolada? Os outros ou os nossos?

Não sei o que fazer para tornar este novo programa da BTV melhor do que é. Talvez se a malta tentasse falar sobre futebol, mas não tenho a certeza. Também não sei se é possível tornar o programa pior, mas acredito que José Marinho está a trabalhar afincadamente para cumprir esse desígnio. Talvez a minha única sugestão fosse mesmo mudar-se o nome da coisa: em vez de Chama, passaríamos a chamar-lhe “Vergonha Imensa”.

É que a única chama que eu vi hoje foi a de um clube inexplicavelmente em auto-imolação, meses após ter conquistado um tetracampeonato.

Resta-me desejar que a memória me traia daqui a alguns anos e eu só me consiga lembrar de contar aos meus filhos, sócios desde o dia em que nasceram, que se sagraram tetracampeões quando ainda não sabiam caminhar e que mais nada interessa acerca desses anos.

Por fim, saibam que existe uma linha telefónica e um email para onde devemos enviar quaisquer denúncias que considerarmos relevantes: [email protected]. Por isso mesmo, antes de publicar o texto aqui na Tribuna, fiz questão de o partilhar com a nova equipa de investigação do Sport Lisboa e Benfica. Espero que consigam encontrar e punir os responsáveis por aquilo que vi hoje. Pela verdade desportiva: não a dos outros, mas a nossa, com orgulho muito seu.

O Sport Lisboa e Benfica é infinitamente superior a isto. Toda a gente concordará que não sejamos anjinhos, mas não nos façam passar por parvos ao fazer disto o principal tema em vésperas de uma visita ao Porto. E depois, se a coisa der para o torto à chegada ao Dragão, também não digam que isto não foi um comportamento incendiário.

Quero lá saber se os outros são assim ou se são piores. Ah, e para que a tal memória não nos traia: hoje, pela primeira vez em muito tempo, posso dizer que um funcionário do meu clube superou o presidente do Sporting Clube de Portugal em matéria de rídiculo.