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Um Azar do Kralj

Os suplentes inutilizados Cervi, Jimenez e Zivkovic, Vitória e o LinkedIn e outras considerações de Um Azar do Kralj ao quinto copo de vinho

Entre algumas frases que podiam ser de Pedro Chagas Freitas, a malta do Um Azar do Kralj lembra que Luisão não se pode sentar no banco de suplentes porque os únicos que podem sentar Luisão são os adversários e também que Jardel se juntou ao grupo de jogadores do Benfica com mais golos nesta edição da Champions que Jonas

Vasco Mendonça e Nuno Dias, Um Azar do Kralj

SERGEI KARPUKHIN/Reuters

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Bruno Varela

Há ocasiões em que as nossas batalhas representam uma causa maior. O objetivo pouco secreto de Bruno Varela, no fundo o seu combate de uma vida, a ser travado para sempre, pelo menos enquanto jogar de águia ao peito, e muito em especial nesta noite de desfecho previsível em Moscovo, o seu objetivo, dizíamos, era, acima de tudo, não ser ele o principal responsável pela derrota. Isso é aliás um comportamento sintomático de muitos jogadores neste onze. Missão cumprida, Bruno. Missão cumprida, rapazes. Ninguém percebe exatamente porque é que não jogamos uma beata, nem mesmo, ao que parece, o nosso treinador.

André Almeida

Em matéria de profundidade ofensiva, André Almeida calcorreou o terreno de jogo como Pedro Chagas Freitas dá um livro por terminado. Não chega conjugar sujeito com predicado. Em matéria de disciplina defensiva, foi mais um José Sócrates. Uma série de comportamentos indesculpáveis e a sensação de que ainda vamos levar com isto durante bastante tempo. Em suma, se juntarmos as duas esferas de competências em análise, talvez tenhamos um defesa competente, mas não é história que queiramos ver contada em livro, até porque já vimos o filme demasiadas vezes. Curiosamente, esta frase anterior poderia constar de um livro de Pedro Chagas Freitas. Perdoem-me.

Luisão

Os adeptos bem podem suplicar por alguns minutos do capitão no banco, mas Rui Vitória já foi muito claro: os únicos que podem sentar Luisão são os adversários.

Jardel

Ascendeu hoje a um dos clubes mais restritos da história das competições europeias. Juntamente com Seferovic, que marcou na derrota da primeira volta contra o CSKA, Jardel é agora o único futebolista do plantel com mais golos marcados na Champions do que Jonas e menos do que Svilar. É um daqueles golos irregulares que quase valem a pena, não fosse o facto de o termos sofrido.

Eliseu

O quinteto defensivo do Benfica tem o crescendo da pior confissão de sempre por uma ex-namorada apanhada em flagrante a trair-nos.

Bruno Varela: “Calma Vasco, isto não é o que estás a pensar”

André Almeida: “Ok, é mais ou menos o que estás a pensar”

Luisão: “Há mais ou menos dois anos”

Jardel: “Sim, no nosso quarto”

Eliseu: “Não, é filho dele.”

Ljubomir Fejsa

Fejsa já tinha avisado que as condições atmosféricas seriam o maior obstáculo, e confirmou-se. Vimos um clima de merda, não apenas ao nível da temperatura do ar e precipitação, como até entre os jogadores. Como sempre, Fejsa foi aquele gajo que no meio de uma tragédia tenta estancar a hemorragia ao ferido mais próximo de si, até perceber que há outros 9 a esvaírem-se em sangue. Que ele consiga manter o sangue frio depois de tudo isto e que este parágrafo seja publicado tal como foi escrito, bom, isso é uma dívida de gratidão que tenho para com o Expresso e a Herdade da Malhadinha Nova.

Filipe Augusto

É um Marias da Malhadinha 2010. Uma coisa magnífica. É que nem tenho adjetivos. Quem? O Filipe Augusto? Olha que foi um dos mais esclarecidos. É um jogador que tem ali potencial para se tornar uma referência muito importante no meio-campo. Sim, estou a beber sozinho. É o quinto copo, porquê? Deixa-me.

Pizzi

“Entrámos para este jogo com vontade de vencer”

Vá lá, diz a verdade.

“E queríamos ganhar para continuar a sonhar com o apuramento.”

Lol, todos sabemos que isso não iria acontecer. Não mintas.

“As contas estavam complicadas mas matematicamente era possível.”

A sério? Pareces o Rui Vitória.

“Não entrámos bem no jogo, o CSKA marcou um golo e não conseguimos pôr em prática toda a qualidade que este plantel tem, que é muita,”

Eu vou traduzir, Pizzi, mas só porque gosto muito de ti: “Não entrámos bem e saímos pior. Por um lado o CSKA não joga uma beata, por outro nós também não, o que equilibra as coisas. Nós até temos aqui malta que joga à bola, mas é preciso que joguem”

“Mas vamos levantar-nos. Conheço bem este grupo de trabalho.”

Ahahahah!

“Temos uma mentalidade muito forte e já demonstrámos isso. Vamos continuar focados e isso não vai abalar a nossa confiança.”

Mais ou menos. Esta época não temos tido, não demonstrámos, não vamos e já abalou. Enfim. Um abraço, Pizzi. Diz-se que a esperança é a última a morrer. O problema é que só vejo cadáveres à minha volta.

Toto Salvio

Exibiu parafusos a mais para o nível a que a equipa se apresentou hoje, e isto não é uma referência às dez placas que têm colocadas no seu corpo.

Jonas

A sua principal intervenção no jogo consistiu em tirar dos pés de Filipe Augusto uma das pouquíssimas oportunidades de golo. Eu vou repetir. Tirou dos pés de Filipe Augusto uma das pouquíssimas oportunidades de golo. Para não dizer a única.

Diogo Gonçalves

Voltamos a recorrer a um episódio de Seinfeld, neste caso “The Andrea Doria”. George Costanza descobre um T1 com 35 metros quadrados em Campo de Ourique por apenas 2000€/mês. Porém, se quiser ser ele o inquilino terá que o disputar com um sobrevivente ao naufrágio do SS Andrea Doria. George resolve por isso contar a história da sua vida sem esconder detalhes, na esperança de que aquela formidável combinação de humanidade, misantropia e inaptidão social sejam suficientes para convencer o senhorio. Já o sobrevivente do Andrea Doria limita-se a explicar como foi ser um de 1660 sobreviventes a uma tragédia que fez 46 mortos, e mais não é necessário. Fica ele com a casa. George vocifera: e então? A esmagadora maioria das pessoas sobreviveu! Diogo Gonçalves é um sobrevivente do Andrea Doria. O seu talento, antes mesmo de tocar na bola, é ser um produto da formação. Sempre que aperta corretamente os atacadores, é um talento a quem finalmente demos a devida oportunidade. Sempre que falha um passe, calma, é um talento a quem precisamos de dar tempo. Nesta triste analogia ilustrativa do processo mental de Rui Vitória, Cervi e Zivkovic interpretam o papel de um indivíduo careca com mais de trinta anos, uma série de neuroses e morada fiscal na casa dos pais. SERENITY NOW.

Cervi, Jimenez e Zivkovic

Suplentes inutilizados.

Rui Vitória

Sempre que chega à flash interview e à sala de imprensa, prepara mentalmente as frases para que estas fluem com a aparente normalidade de quem percebeu tudo o que aconteceu. Tudo o que vimos, explicar-nos-á, foi uma sequência de acontecimentos lógicos e incontornáveis, designadamente devido a factores vários que tudo fizemos para evitar, até porque o Benfica não é isso e este resultado não espelha o nosso valor e outras banalidades que tais, até uma pessoa ficar suficientemente entontecida ou mudar de canal. Rui Vitória é como todos os candidatos de emprego no LinkedIn. Nunca deram uma resposta idiota numa entrevista de emprego e nunca são contratados. Ainda assim, recusam-se a admitir que o erro seja seu. Resta-lhes levantar a cabeça e pensar na próxima desculpa.