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Um Azar do Kralj

Em jeito de balanço à 1ª volta da Liga, Um Azar do Kralj dedica uma playlist poema a Rui Vitória

Para Vasco Mendonça, a Liga 2017/18 é o que aconteceria "se o filme “A Ressaca” fosse protagonizado pela estrutura do Benfica". O campeonato está difícil, mas ainda há esperança

Vasco Mendonça, Um Azar do Kralj

JOSÉ COELHO/LUSA

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Pediram-me um balanço da primeira volta e eu fiz as contas. Já lá vão 169 dias. Eu explico. No dia 28 de julho de 2017, exatamente às 12h28, decidi que chegara finalmente o momento. Ganhei. Passaram-se 169 dias e não voltei a pegar num cigarro. A lista de agradecimentos é extensa. Começa na Pfizer e acaba na família e nos amigos. Não posso dizer que inclua o Benfica. Não me interpretem mal. Estou grato ao Benfica por variadíssimos motivos, tantos que lhes perdi a conta enquanto procurava a melhor forma de terminar esta frase. Mas a verdade é que já lá vão 169 dias sem fumar e não posso dizer que esse feito se deva ao nosso Benfica - quite the contrary. O balanço que faço desta primeira volta é que deixei de fumar apesar do Benfica.

Pedi ajuda ao Google e rebobinei. Parece que nesse mesmo dia 28 de Julho a capa do jornal do clube dizia em maiúsculas “vencedores natos”. É um facto que a manchete dizia respeito a diversas conquistas em outras modalidades, mas não deixa de ser irónico que uma pessoa tropece assim nestas coisas sem fazer grande esforço. Parece coincidência, mas não é. Existe uma razão simples. É que o Benfica é um clube cronicamente vencedor. Pode dizer-se que isso é um problema ou um defeito: os adeptos não se cansam de ganhar. Podia ser bem pior. Há neste país quem não se canse de perder.

O primeiro grande teste surgiu um dia depois de deixar de fumar. Perdíamos por 5-2 frente ao Arsenal. O jogo pedia uma análise descontraída por entre meia dúzia de bafinhos junto à piscina. Ao contrário do Benfica, eu lá me aguentei nas canetas. Era uma equipa nitidamente atordoada a que se apresentava no Emirates Stadium. Havia um embaraço visível em ter que apresentar um onze nestes trajes menores, mas o patrocínio da Emirates lá falou mais alto e assim fomos a jogo em cuecas.

Destacavam-se já algumas das propostas para a nova época: na baliza, Júlio César substituía Ederson. Aurélio Buta tentava mostrar-se como alternativa a lateral direito. Filipe Augusto espalhava magia, perdão, espalhava-se ao comprido. Trocado por miúdos: o primeiro destes atletas aposentou-se. O segundo obrigou-me a ir ao google procurar o seu clube atual. O terceiro continua a obrigar-me a vê-lo jogar. Convenhamos que esse está longe de ser o balanço rigoroso da primeira volta e encontrámos outras soluções entretanto, mas era já revelador de uns quantos caroços dos quais não nos livramos quando tentamos espremer o Benfica 2017/18 bem espremidinho.

Só daqui a muitos anos saberemos o que realmente se passou, portanto até lá é fazer os possíveis por especular. Eu suspeito que terá havido uma violentamente nefasta noite de copos após os festejos do tetra. Rui Vitória, o presidente Luís Filipe Vieira e Rui Costa ter-se-ão juntado para fazer um balanço da temporada. Bagacinho puxa bagacinho e alguém, num momento de bazófia fatal, terá dito: vocês querem apostar que conseguimos ser campeões sem Ederson, Semedo e Lindelof?

Imaginem o presidente de cabeça encostada à de Rui Vitória, naquela cumplicidade própria de quem devia ter parado de beber há três horas, a repetir: “queres ou não? quanto é que apostar? apostamos já aqui!” Infelizmente Rui Vitória terá respondido “vamos a isso, presidente!”. Sinceramente, prefiro acreditar que o plantel com que arrancámos a temporada ou aquele com que chegamos a janeiro de 2018 resulta essencialmente de um conjunto de decisões que devem mais ao coração e ao garrafão do que à racionalidade. Não metam a inteligência ao barulho, senão o caso seria mais sério. O pior Benfica dos últimos anos é mais ou menos o que aconteceria se o filme “A Ressaca” fosse protagonizado pela estrutura do Benfica. Se eu quisesse ser simpático, e quero muito, diria que o filme tem, apesar de tudo, um final feliz. Toda a gente sobrevive à festa e chega a tempo do casamento. No nosso caso, importa por isso perguntar: será que ainda vamos a tempo?

A resposta é: sim. Passo a justificar. Não, não estamos fatalmente afastados do penta. Nem fatalmente nem coisíssima nenhuma. Digo isto sabendo que não, não vamos subitamente começar a jogar o melhor futebol das nossas vidas e não vamos resolver os problemas deste plantel com contratações milagrosas em Janeiro. E sabem que mais? Não temos necessariamente que viver angustiados com isso.

Lembram-se de sentir angústia quando viram o Bruno Aguiar em cuecas no balneário a celebrar um título agarrado ao Simão Sabrosa? Conhecem alguém que se tenha recusado a ir para o Marquês por termos sido campeões com apenas 65 pontos? Nem eu. Por isso, acreditemos e acima de tudo não estranhemos se no final desta temporada virmos um Filipe Augusto fazer figura semelhante. Depois dos últimos anos, seria o mais lógico. Em suma: o balanço desta primeira volta é que não jogamos muito, mas nem sempre ganha quem joga melhor: ganha quem tem mais pontos. O balanço desta primeira volta é que, aos poucos, por entre copos de plástico esvaziados numa longa noite a festejar o tetra, acordamos a dormir no chão. Já curámos a ressaca e parecemos hoje prontos para enfrentar o longo dia que temos pela frente, até à próxima noite de festa. São só 51 pontinhos para conquistar, ou, no mínimo, para cair de pé.

Sim, Rui Vitória nem sempre esteve bem. Os adversários melhoraram. Algum dia teria de ser. Sim, alguns dos nossos jogadores envelheceram mal. Outros não tanto; além disso descobrimos Rúben Dias e Krovinovic. Sim, tem havido jogos sofríveis em que não se sente a mesma fome de vencer. Pudera: em matéria de títulos nacionais, passámos de subnutridos a obesos mórbidos. Deixem estar. A banda gástrica pode ficar para os outros. Sim, temos e continuaremos a ter algumas crises de fé. Para responder a todas essas, criei uma playlist que se pode ouvir e ler como um poema. Ora experimentem. E acreditem.