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Um Azar do Kralj

Infelizmente, o Sporting continua a dar cama e comida ao filho irrequieto, insolente e irremediável - o presidente (por Um Azar do Kralj)

Um Azar do Kralj viu o clássico de quarta-feira de uma forma mais ou menos equidistante, pouco habituado a ver esta competição sem a presença do seu clube. E viu, também, o que não se via desde a volta olímpica contra a o Praiense: Bruno de Carvalho a correr bancada fora a festejar a vitória numa meia-final da Taça da Liga

Vasco Mendonça, Um Azar do Kralj

MANUEL DE ALMEIDA

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Comecemos pelo mais importante. Do ponto de vista de um benfiquista, a ausência desta prova traduz-se fundamentalmente em menos dois jogos sem Krovinovic em campo. Adiante.

Senti uma certa estranheza por ontem não ver a minha equipa em campo. Pareceu-me pouco natural, como se a festa da Taça da Liga fosse menos legítima sem o Benfica. E é. Gosta de fazer pouco quem não conquistou o troféu, mas a Taça da Liga é, por questões de natureza histórica, a competição do Benfica. E é bom que assim seja. É esse o compromisso simbólico a que uma instituição como o Benfica se vê obrigada: o de tornar toda e qualquer competição uma coisa quase caricatural, de tão previsível que é o seu vencedor. É por isso que o penta não chega.

Precisamos de um hexa, de um hepta e assim por diante, até os dirigentes, treinadores, jogadores e adeptos das equipas adversárias serem vergados a admitir, pelo menos no seu íntimo, que a prioridade para a época seguinte passou a ser a Taça de Portugal, e assim por diante, até que a prioridade seja conseguir apertar os atacadores, eventualmente apresentar onze indivíduos em campo.

E, mesmo chegado esse dia, a missão do Benfica manter-se-á tão válida como até então: dizimar os sonhos e as ambições dos demais intervenientes nesta caldeirada a que chamamos futebol português. Portanto, compreendam que tenha assistido com perplexidade, acima de tudo, às meias-finais de uma competição interna em que o Benfica não se encontra presente.

Nisto, como em tudo na vida, há que ver o copo meio cheio. Ver o jogo de ontem relembrou-me duas coisas. Primeira: tão importante como saber perder, é essa distinta elevação a que chamamos saber ganhar. Parece fácil. Ganhámos, que se dane. Mas não. Segunda: Nem todos sabem ganhar. Dirão que faz parte, e têm razão. Faz mesmo. Está no seu código genético.

Não é uma provocação gratuita. É estatisticamente comprovável. Se a cultura de um clube não se alimenta e evolui no tempo à base de vitórias, do que vive? Alimenta-se do passado, do insucesso, da meia vitória, da vitória moral, da vitória na vida, do troféu imaginário da verdade desportiva, da espuma dos dias que, dia após dia, vai apurando essa caldeirada que é o futebol português. É válido para todos e calhou a todos, mas alguns souberam reerguer-se.

Falo-vos do Sporting, portanto.

Oscar Wilde disse que estamos todos na sarjeta mas alguns de nós estão a olhar para as estrelas. Adaptemos ao futebol português: estamos todos na sarjeta quando nisto vemos Bruno de Carvalho a correr pela bancada fora porque ganhou uma meia-final da Taça da Liga. Desde a célebre volta olímpica após o jogo com o Praiense que não se via tal coisa. Por momentos pensei: será que o formato da competição foi alterado? Seria hoje a final da Taça da Liga? Seria, quiçá, a final da Champions League? Ligo a amigos a dar-lhes os parabéns?

Calma. Os amigos achariam que estava a fazer pouco. Nada disso, era apenas uma meia-final da Taça da Liga ganha nos penáltis pela pior equipa. Nada que não mereça ser celebrado com uma corrida desenfreada pela bancada, mas não era nada que não antecipássemos. É nas derrotas que melhor se conhece o feito, o carácter que molda o comportamento das pessoas.

Bruno de Carvalho teve amplas oportunidades de nos mostrar quem verdadeiramente é ao longo dos últimos anos. Reagiu a uma vitória como quem palita os dentes à mesa no Belcanto. Para um clube de aristocratas, foi digno de canalizador. Peço desculpa aos canalizadores pela comparação. O racismo social é como Bruno de Carvalho: não devia ter lugar nesta sociedade.

Os minutos vão passando. Jorge Jesus, por quem terei sempre afecto e respeito intelectual, explica que o Sporting não está em crise e tem razão. Muitos sportinguistas amigos celebram de forma relativamente moderada, como adeptos razoáveis de uma instituição séria. Sérgio Conceição, imune a um certo portismo de rede social que teima em contrariar a natureza vencedora do seu clube, explica e muito bem que o Futebol Clube do Porto foi melhor no jogo jogado, mas que o Sporting foi mais competente nos penalties.

Coisas de quem sabe ganhar e portanto está mais preparado para perder. Bruno de Carvalho lá continua a correr esfuziante e indiferente ao importante momento formativo contido numa vitória que Pinto da Costa (reparem nestas palavras de um benfiquista) teria celebrado com um aperto de mão a alguém sentado ao seu lado. Quem tem filhos e já os viu fazer semelhante figura sabe que não é assim que se celebra uma vitória, a não ser que queiramos criar um hooligan - quem celebra assim uma vitória arrisca-se a perder algo mais importante quando sair novamente derrotado: a dignidade.

Infelizmente, o Sporting Clube de Portugal continua a dar cama e comida a este seu filho irrequieto, insolente e irremediável. Alguém mais dado a eufemismo chamar-lhe-á enfant terrible. Eu cá chamo idiota.

No meio disto tudo, onde está o copo meio cheio, perguntam? Simples. A felicidade infantil de Bruno de Carvalho acaba por confirmar aquilo que o próprio já tinha negado.

Afinal a Taça da Liga é uma competição a sério, que até faz as pessoas correrem e saltarem em êxtase. É bom para a competição e bom para o dono natural deste troféu, o Benfica.

Por isso, fica a pergunta: quantos de nós, incluindo sportinguistas, vimos Bruno de Carvalho celebrar aos saltos, a correr por entre adeptos tolerantes da equipa adversária, o mítico título nacional da verdade desportiva 2015/16?