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Um Azar do Kralj

Acabou o gabinete de crise, crie-se o gabinete de festas (teremos de reunir os maiores especialistas, não das leis mas da paródia)

Um Azar do Kralj tem uma mensagem importante para os portistas que aguentarem a primeira parte deste texto sobre o SL Benfica-FC Porto deste domingo: “Os que lerem até ali e virem nisso um qualquer exemplo de desportivismo ou saber perder, deixem-me explicar-vos que tudo isto não passa de uma piada, pura encenação a armar ao adepto dotado de civismo. Na verdade, o que nós queremos mesmo é comer-vos vivos e passar a noite inteira a fazer memes com os vossos restos mortais”

Vasco Mendonça, Um Azar do Kralj

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Acima de tudo, o que espero do clássico é que se proceda a uma importante mudança organizacional na estrutura do Sport Lisboa e Benfica. Não esperemos sequer por segunda-feira. A noite de domingo será tão boa como outra qualquer para se anunciar a todo o país a extinção do gabinete de crise e a criação de um novo gabinete, desta feita dedicado às festas, muitas, que se farão um pouco por todo este país que veste e sente encarnado como o sangue que lhe corre nas veias.

Desse gabinete de festas espero tudo menos advogados. Teremos de reunir os maiores especialistas, não das leis mas da paródia. Imaginem uma task force formada pelos benfiquistas mais espirituosos, de língua mais afiada, gente capaz de golear na ironia e na mordacidade. Se quiserem alguém para servir cafés, contem comigo.

Eu sei no que estão a pensar. O Benfica já tem gente assim, mas esqueçam o Pedro Guerra e outros que tais. O líder do novo gabinete de festas, se quiserem o próximo diretor de comunicação do Benfica, devia ser alguém como o autor da página As Minhas Insónias em Carvão. Porquê? Porque precisamos cada vez mais, nomeadamente no limiar de perder a oportunidade de um pentacampeonato, da importante capacidade de nos rirmos de nós mesmos como rimos dos outros. Eu já estou a treinar para domingo à noite, se porventura o Benfica meter a pata na poça e se vir relegado novamente para segundo lugar.

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O sistema de rega está pronto, o quadro da luz pronto para ir abaixo, a cerveja geladinha pronta para congelar como na noite em que esqueci dela no congelador por causa de um golo do Kelvin. Enquanto não soubermos lidar com estas inflamações benignas da nossa cabeça, vulgo melão, não seremos capazes de saborear verdadeiramente as vitórias. Para os portistas que leram até aqui e viram nisto um qualquer exemplo de desportivismo ou saber perder, deixem-me explicar-vos que tudo isto não passa de uma piada, pura encenação a armar ao adepto dotado de civismo. Na verdade, o que nós queremos mesmo é comer-vos vivos, assistir à vossa acelerada putrefação e passar a noite inteira a fazer memes com os vossos restos mortais.

Que mais? Eu podia dizer que espero um bom jogo, mas estaria a mentir ou, na minha visão romântica das coisas, simplesmente a expressar uma redundância. Todos os jogos do Benfica são bons, porque joga o Benfica (exceto durante a década de 90, em que todos os jogos do Benfica eram maus). Se tiver que ser mais frio, diria que espero um jogo qualquer, seja ele qual for, desde que o Benfica ganhe. Benfiquista que se preze vive bem com as derrotas morais desde que levante a taça no final. Não somos imorais, somos, isso sim, suficientemente amorais para rir da tragédia moderna que é o adepto que se leva demasiado a sério. A sério.