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Um Azar do Kralj

O discurso direto de Um Azar do Kralj para o grande mister: prometeste 11 Eusébios dentro de campo, afinal foram 11 Rui Vitórias

Enquanto esperava, impacientemente, que um serviço lhe entregasse uma garrafa de whiskey e cianeto de potássio em casa, Um Azar do Kralj escreveu sobre Rafa, ou a primeira vez que viu um jogador ser expulso pelo próprio treinador. Portanto, por Rui Vitória, a quem recomenda que se organize, no final da época, um jogo de despedida, "daqueles à grande e à Benfica, com direito a estádio cheio, lendas de todas as idades e Mats Magnusson a rebolar na relva"

Vasco Mendonça, Um Azar do Kralj

Pedro Fiuza

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Bruno Varela

E ele que tinha prometido às filhas tirar uma selfie com elas na Vespa do Eliseu. Conseguiu a proeza de ser o único jogador do Benfica que não podia ter feito mais no lance do golo.

André Almeida

Ao fim de 150 jogos na Liga portuguesa, André Almeida regressou às suas origens futebolísticas. Subitamente deu por si no Estádio do Restelo a defender um empate e não mais acordou deste estranho pesadelo.

Rúben Dias

Cedo se percebeu que o árbitro estava num daqueles dias de deixar jogar - e bem, evitemos o choro que só nos fica mal. Estavam criadas as condições ideais para mais uma exibição segura e competente de Rúben Dias, que na sua cabeça não imagina um recinto de jogo com a forma rectangular, mas antes um octógono móvel da UFC. Felizmente para ele, o árbitro não entendeu que a sua entrada sobre Marega era merecedora de penálti. Infelizmente para nós, Artur Soares Dias seguiu o mesmo critério quando Zivkovic levou um encosto de Ricardo já perto do final. O critério largo de Artur Soares Dias não viu o karma a pontapear os benfiquistas na sua zona genital. É bem feita, amigos.

Jardel

Para que conste, o único que mereceu perder hoje foi Rui Vitória. Lamentavelmente, deu-se o caso de este representar actualmente o Benfica e ter autoridade sobre os indivíduos que entraram em campo, criando assim o equívoco de que homens como Jardel cavaram a sua própria sepultura.

Grimaldo

Ainda vou no quarteto defensivo. Porque é que eu aceitei fazer isto? A sério. O Sporting acabou de desperdiçar uma vantagem de dois golos no Restelo e nem isso me faz sorrir. Quero lá saber. Raios partam o Grimaldo, esse belíssimo lateral esquerdo.

Fejsa

O melhor jogador do Benfica foi também aquele cuja exibição se revelou mais contraproducente. Ljubomir Fejsa tem agora um grande problema para resolver: a única forma de manter o seu registo intacto - é campeão do respectivo país há dez épocas consecutivas - será se conseguir rescindir o contrato, tornar-se um jogador livre nos próximos dias e, se possível, assinar por uma equipa que seja matematicamente campeã para evitar embaraços maiores. Não vale a pena

Pizzi

Vejamos o copo meio cheio. Pizzi teve nos pés a primeira oportunidade clara para assegurar a Rui Vitória a renovação do contrato. Felizmente falhou.

Zivkovic

Não sei se já utilizaram um serviço chamado Glovo, mas é genial. Imaginem que estão em casa a escrever um texto sentados no sofá depois de uma derrota da vossa equipa que lhe custará o campeonato e decidem que querem beber mais uma garrafa de whiskey. Fácil! Abrem o Glovo, pedem o que quiserem e eles trazem. Assim, enquanto o estafeta não chega, podem continuar o que estavam a fazer ou acompanhar o seu trajecto directamente na aplicação. O meu já recolheu a encomenda. Passou agora pela Defensores de Chaves a todo o gás com Jameson e cianeto de potássio. Até já!

Rafa

Era o mesmo que eu agora começar a escrever um parágrafo cheio de intencionalidade, verve e sentido cómico para chegar um editor do Expresso e dizer: olha, tu está mas é caladinho. Por acaso até foi o pior parágrafo que escrevi hoje, mas imaginem que não era esse o caso e conseguirão perceber a minha indignação quando disseram ao Rafa para abandonar o relvado. Nunca tinha visto um jogador ser expulso por um treinador.

Cervi

Talvez devesse ter saído antes de Rafa, ou passado para lateral esquerdo e assim permitido a entrada de um jogador mais ofensivo. Enfim. Importaria analisar o sucedido, mas a vida prossegue ao seu ritmo furioso, imune à nossa necessidade de introspecção. Quando derem por vocês, já Pedro Guerra estará a falar de nomeações de arbitragens como se fôssemos todos parvos.

Jiménez

As muitas tentativas de combinação entre Bruno Varela e Raúl Jiménez não surtiram efeito e aí reside a explicação para a derrota de hoje. Todos lamentamos que Jonas não pudesse jogar, mas também todos sabemos que Bruno Varela não seria capaz de lançar um ataque em condições se a sua vida dependesse disso. Assim, Jiménez passou 90 minutos à mercê de um futebol directo, na expectativa de que os extremos do Benfica saíssem dos calabouços da defesa portista ou que Pizzi fosse o jogador que nós às vezes gostamos de acreditar que ele é.

Salvio

A ideia até era boa. Salvio é um agitador nato e o jogo do Benfica precisava de ser contaminado por ideias mais ofensivas e gente mais aguerrida no ataque. Infelizmente, um outro vírus combatia a natureza lutadora do antibiótico argentino. Minutos depois, Rui Vitória mandaria entrar Samaris.

Samaris

A sua tunnel vision voltou a manifestar-se e só a extrema simpatia de Artur Soares Dias evitou que Samaris fosse expulso ao fim de cinco minutos. Ironicamente, talvez isso tivesse alterado a ordem dos acontecimentos e obrigado o Benfica a fazer aquilo que os adeptos pagaram para ver, designadamente um tetracampeão sedento de mais um título. É bem feita. Assim levaram na boca do único pentacampeão.

Seferovic

Foi uma espécie de cuidado paliativo para um paciente que ainda não sabia estar prestes a morrer. Ou seja, foi simultaneamente triste e cómico.

Rui Vitória

Vi há pouco uma notícia no site de um conhecido jornal desportivo cujo título é o seguinte “Benfica não venceu os últimos três jogos com o FC Porto apitados por Soares Dias”. Não sei se foi Rui Vitória quem alertou a redacção para este facto e garanto-vos que o referido desportivo não é o jornal oficial do Benfica. Numa notícia tão simples (e algo patética) conseguiu-se sintetizar bem a cultura de um clube perdedor que o Benfica nunca deve ser, nem mesmo quando perde, ou especialmente quando perde.

Assim sendo, fica a contabilidade que interessa: Rui Vitória é bicampeão nacional sem nunca ter vencido o Futebol Clube do Porto. É caso para dizer que se arrisca a ser tricampeão, mas isso seria a segunda garrafa de whiskey a falar. Em nome da verdade desportiva que tanta gente gosta de papaguear, deveria ler-se “Benfica não venceu os últimos cinco jogos com o FC Porto em que Rui Vitória era treinador”.

Não me interpretem mal. Estou muito grato a Rui Vitória e já o disse aqui, mas tudo tem um fim. Grande mister: prometeste 11 Eusébios dentro de campo. Afinal foram 11 Rui Vitórias. Podia alongar-me, mas não quero mágoa entre nós. Por isso, faço uma sugestão à direcção. No final desta época, organize-se um jogo de despedida, daqueles à grande e à Benfica, com direito a estádio cheio, lendas de todas as idades e Mats Magnusson a rebolar na relva. Rejubilemos, gritemos pelo nosso Benfica e brindemos à próxima fase das nossas vidas. Chamemos-lhe uma festa de divórcio. Foi muito bonito, Rui. Chegou a ser amor, mas acabou-se.