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Um Azar do Kralj

A antevisão do dérbi, por Um Azar do Kralj: tristes tempos estes em que vivemos abaixo das nossas possibilidades

Um Azar do Kralj está com dificuldades em antecipar coisas positivas do dérbi: se o Benfica perder, fica sem os milhões da Champions; se o Benfica ganhar, Rui Vitória continua no clube

Vasco Mendonça, Um Azar do Kralj

Jonas jogou - e marcou - no dérbi da 1ª volta, mas ainda está em dúvida para o dérbi da 2ª volta

Foto Carlos Costa/Getty

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Os adeptos bem queriam o 37, mas neste momento temos um catch 22 que é um belo 31. Se os somarmos, dá 53, o número de vezes que Luisão foi ultrapassado em corrida no jogo frente ao Tondela. Os números não mentem. Esqueçam as contas da calculadora. Aqui ficam as contas do rosário a que nos agarramos em véspera de dérbi.

Derrota ou empate sem golos

Se perdermos ou empatarmos sem golos, é muito provável que Rui Vitória seja despedido ou rescinda para assinar pelo Al Hilal. Calma, não celebrem já: se o resultado for um destes, não pomos os pés na Champions. Estaremos, portanto, severamente lixados, para não dizer aquela palavra começada por 'f' que tantas vezes empregámos esta época. A circunstância de nos vermos com dinheiro a menos dará azo a uma nova narrativa segundo a qual o Benfica se vê obrigado a libertar prematuramente alguns dos seus ativos para respeitar o necessário equilíbrio das contas do clube, como se alguém quisesse saber disso. Já estou a ver tudo: um dia destes, pouco depois de acordar, vou abrir o Sapo Jornais no telefone e descobrir que João Félix foi vendido ao Wolves por €35 milhões mais objectivos. A partir daí, decidam vocês. Tanto me faz se é a Gestifute ou o Benfica a pagar a substituição do ecrã partido.

Vitória

Se ganharmos, conservamos uma réstia de dignidade e garantimos o acesso à 3ª pré-eliminatória da Champions. Calma, não celebrem já: se isso acontecer, é provável que Rui Vitória se mantenha como treinador principal. Para desgosto de muitos, a próxima época começará a ser planeada com aparente serenidade, isto até chegarmos a um particular em agosto em que levamos 6 de uns suplentes do Arsenal, agora treinado por Leonardo Jardim, ou do Neuchatel Xamax treinado por Daúto Faquirá. Quer um quer outro embarcarão naquela solidariedade semi-corporativa dos “colegas” e dirão que o Benfica é uma grande equipa e Rui Vitória está a construir uma nova equipa. Sim, porque entretanto se vendeu metade dos jogadores com lugar cativo no onze e outra metade que fazia as delícias das catorze pessoas que assistem aos jogos do Benfica B, sim, adivinharam, incluindo o João Félix. Mas, mas, mas, então e o dinheiro da Champ… caluda. Isso era a narrativa do parágrafo anterior. Esta é a nova. Habituem-se, amigos. Isto (também) é o Benfica.

O futuro

Em suma, para quem chegou há uns anos e se habituou a celebrar títulos na Liga como se isso fosse um dado adquirido, será uma noite de sábado difícil de engolir, seja qual for o desfecho. Nenhum benfiquista deveria ser obrigado a fazer contas que não passem exclusivamente pela gestão do orçamento familiar. Tudo o resto - futebol, modalidades amadoras - deveria ser à grande e à Benfica. O que nos sobra? Um passado de Vitória e um futuro de Marco Silva ou Paulo Fonseca, para adulterar um conhecido slogan associado ao nosso mister Rui. Isso e a vã glória de saber que mais nenhum clube neste país sabe celebrar títulos como nós.

Pensando melhor, acho que vou acabar por partir o ecrã do telefone, aconteça o que acontecer. É isto, afinal, um catch 22. Um belo 31. Uma situação de m***a. Um problema sem solução capaz de apaziguar a alma e nos devolver a alegria que só nós, benfiquistas, sabemos verdadeiramente agradecer. Tempos tristes estes em que nos obrigam a viver abaixo das nossas possibilidades.