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Um Azar do Kralj

A estatística é dura de rins, pelo que estejam caladinhos e deixem o engenheiro que interessa fazer o seu trabalho (por Um Azar do Kralj)

A MIT Technology Review anunciou que um computador previu o vencedor do Mundial e eu cliquei feito parvo, à espera que a previsão me surpreendesse - não aconteceu

Vasco Mendonça, Um Azar Do Kralj

Fernando Santos com o troféu conquistado no Euro 2016

Jean Catuffe/Getty

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A MIT Technology Review anunciou que um computador previu o vencedor do Mundial e eu cliquei feito parvo, à espera que a previsão me surpreendesse. Para parecer uma coisa tremendamente sofisticada, chamaram-lhe machine learning, uma maneira glorificada de dizer que pegaram numa data de estatísticas e puseram tudo num computador. A máquina por sua vez cozinhou uma cataplana de assunções e desfechos insípidos que - WAIT FOR IT… - dão a Alemanha como provável vencedora da prova após vitória sobre o Brasil.

Lá pelo meio, a notícia explica, numa tentativa desesperada de conferir credibilidade à coisa, que o autor do estudo é um alemão e que foram feitas cem mil simulações para chegar a esta conclusão. Fantástico. Como se tamanho insulto à nossa inteligência não bastasse, este hooligan formado em engenharia informática antecipa que Portugal será eliminado pela seleção francesa nos quartos de final.

Eu licenciei-me em sociologia e não preciso de correr nenhuma simulação num computador topo de gama para adivinhar que seria esta a fatal previsão de um alquimista alemão disfarçado de mago da técnica. Querem fazer de mim parvo. Pior, querem fazer de mim derrotado à partida.

Deixemo-nos de exercícios facciosos. O único mago da técnica que acerta noventa e nove em cada cem vezes chama-se Ricardo Quaresma. Estão a ver aquela trivela? Há-de cair entre os centrais, na cabeça do Guedes ou do Ronaldo.

Duvidam?

Corram lá o software mais uma vez, as vezes que quiserem. Não vai salvar o Coates, o Hummels ou o Thiago Silva do seu fatal destino. Perguntem ao software onde é que estava aquele remate do Éder no meio de tantos uns e zeros, que não foi capaz de adivinhar o nosso um a zero. Não tenham dúvidas. A estatística está contra nós, mas já provámos uma vez que é dura de rins e tem mau perder. Vamos a outra.

Bem sei que o domínio da ciência e da técnica têm o objectivo de nos fazer avançar em termos civilizacionais, mas a mim só me interessam as cem mil simulações de Gelson, Bernardo, Bruno e Guedes.

Talvez um dia destes estas técnicas de análise venham a ser utilizadas para alguma coisa verdadeiramente útil. Até lá, peço encarecidamente aos engenheiros do mundo que fiquem caladinhos e deixem o único engenheiro que interessa nesta história fazer calmamente o seu trabalho. Avance, mister Fernando Santos. Contra os algoritmos, marcar marcar. Os outros que ganhem no computador.