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Um Azar do Kralj

Este planeta pertence a Ronaldo. Nós limitamo-nos a viver nele (por Um Azar do Kralj)

Já passaram algumas horas desde o Portugal - Espanha, mas há coisas que o tempo nunca apagará da memória coletiva. Uma delas é, seguramente, Ronaldo

Vasco Mendonça, Um Azar do Kralj

Jean Catuffe

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Ainda estou a recuperar da noite de ontem. Depois de todo o investimento, Vladimir Putin deve estar fulo por ver um jogador que vale mais do que o Estádio Olímpico de Fisht, cuja obra se estima em 600 milhões de euros, mais ou menos o que Cristiano Ronaldo valeria se decidisse jogar as próximas partidas ao pé coxinho.

Para todos nós, foi uma noite emocionante que dificilmente esquecermos. Para Cristiano Ronaldo, foi sexta-feira. Fez um hat-trick, bateu mais uns quantos recordes, mostrou ao mundo inteiro que é o atleta mais inteligente da história da modalidade, enfiou-se numa banheira cheia de gelo e foi dormir que amanhã é dia de fazer tudo outra vez.

Aquilo que para nós é superlativo, hiperbólico, causa de histerismo incentivo e a razão pela qual acordei afónico esta manhã, é simplesmente trabalho para Ronaldo. Não nos enganemos. Ronaldo gosta de ser venerado. Ele vive para receber o nosso amor e nós vemos nele mais uma razão para acordar ao longo deste mês.

E sabem porque é que ele trabalha tanto? Porque nos quer devolver esse amor. Ronaldo nunca dá o nosso amor por adquirido. Sabe que tem de o conquistar em cada dia da sua vida. Por isso, olhem para a vossa cara-metade como Ronaldo olhou para a bola antes do terceiro golo - metaforicamente falando,que é para não me acusarem de incitar à violência doméstica.

Em 2018, as marcas de desporto gostam de dizer que nós devemos ser os nossos próprios ídolos. Às vezes, aparece um publicitário que nos diz ao ouvido: impossible is nothing. Dá tudo. Tu és muito maior do que pensas. Encontra a tua grandeza. Eu sei, porque nos meus tempos ocupados sou um desses publicitários que vos tenta convencer a comprar chuteiras, fatos de treino, bolas e quejandos. Vou contar-vos um segredo: é tudo mentira. Não matem os vossos ídolos. Eu, por exemplo, já expliquei aos meus filhos esta manhã que o pai é muitíssimo inferior ao Cristiano Ronaldo, em todos os capítulos da vida.

Impossible is nothing? O impossível é tudo. Tenhamos todos essa noção e seremos mais felizes. Agarremo-nos a Cristiano com todas as fibras do nosso ser, sentadinhos no sofá, na bancada ou na praça da cidade. Desfrutemos. Entreguemo-nos, adeptos e colegas de equipa, ao último acto da carreira de um dos maiores atletas da história. Eu sei que alguns nacionalistas dirão que estou a ser pouco ambicioso, mas sabem que mais? Já ganhámos. A nossa grandeza é afinal, tão somente, uma grande sorte: a de estarmos vivos ao mesmo tempo que ele.

Este planeta pertence a Cristiano Ronaldo. Nós limitamo-nos a viver nele.