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Um Azar do Kralj

Talvez seja por causa de Ronaldo que um dia alguém inventou a expressão "faz-me um filho" (por Um Azar do Kralj)

Onde se fala da ética de trabalho e do talento de Ronaldo. E da rap battle de William. E do Guedes que não sai da frente

Vasco Mendonça, Um Azar do Kralj

XIN LI

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Rui Patrício

No melhor pano cai a nódoa. Depois de uma exibição sem mácula em que tudo fez para negar a evidente passagem do tempo no centro da nossa defesa, Rui Patrício recusou ao jovem De Gea o autógrafo pelo qual ele tanto ansiava e prosseguiu indiferente rumo ao balneário. Foi preciso Cristiano Ronaldo voltar atrás e dar um abraço ao miúdo lavado em lágrimas.

Cédric

Já na zona mista, Cédric explicava que há erros em todos os jogos e é preciso corrigi-los. É este pragmatismo e capacidade de auto-análise que tão bem nos distingue hoje em dia. Somos capazes de fazer das fraquezas forças, dos erros uma oportunidade para aprendizagem. Depois de 90 minutos a dar tudo pelo seu país, Cédric teve a lucidez necessária para admitir que aquele bigode não é uma boa ideia.

Pepe

Que azar dos diabos. O único jogador esta noite atingido pelos cotovelos de Diego Costa é também o único de quem os árbitros jamais terão pena suficiente para assinalar a mais que óbvia falta. É um pouco como se Dias Loureiro se juntasse a uma manifestação dos lesados do BES. Pepe terá sempre a fama e o proveito nestas coisas, mesmo quando levar frutas como a de hoje. Apresentou a frescura física e o discernimento que fazem dele uma espécie de Statler para o Waldorf Fonte.

José Fonte

Joga actualmente na China, mas comporta-se como se vivesse no Centro Comunitário da Gafanha do Carmo. É um elogio e uma constatação. José Fonte alia a simpatia à geriatria como poucos nesta seleção. A coisa complicou-se desde cedo, mas a culpa não é dele. José Fonte já costuma estar a dormir às sete da tarde. Felizmente o próximo jogo decorrerá à hora da sueca e contra um adversário teoricamente mais fraco.

Raphaël Guerreiro

Se tivermos em conta que passou mais de metade da partida a correr atrás da bola e que soma menos minutos de jogo em 2018 do que a maioria dos leitores, pode dizer-se que Raphaël Guerreiro fez uma exibição soberba, repleta de bons indicadores e tão auspiciosa como a nossa estreia, ou seja, vamos todos ter calma e continuar a acreditar.

William Carvalho

Jogou como se estivesse numa rap battle, aguardando pacientemente que o adversário desfiasse o seu novelo de rimas algo inconsequentes. Ouviu insultos à sua família, à namorada, à crew e até aos seus adorados cães, tudo isto enquanto preparava mentalmente a sua resposta, que consiste num conjunto de versos estranhamente sobre a nossa mortalidade que terão levado Iniesta a dizer “este tipo sabe umas coisas, onde é que ele joga mesmo?” Perguntas bem, Andrés. É esse mesmo o problema e a sua maior virtude. Tecnicamente, William joga em todo o lado e em lado nenhum.

Moutinho

Exibição plena de sacrifício. Imaginem passar 90 minutos a correr atrás de David Silva, Infesta e companhia, tudo isto enquanto procuram o vosso filho mais novo. Felizmente, Bruno Fernandes estava bem na companhia de um senhor espanhol mais velho que o encontrou à deriva no lado esquerdo do campo. Tal como Pedro Granger e Francisco Garcia, também Moutinho tenta a todo o custo negar a passagem do tempo e manter um espírito jovem, mas terá que decidir em breve se quer continuar em esforço a apresentar a Caderneta do Panda ou se não será melhor substituir o Avô Cantigas.

Bruno Fernandes

Estão a ver aqueles jogadores que não se dá por eles mas são determinantes? Bruno Fernandes é o oposto disso. É determinante quando se dá por ele. Hoje não foi o caso. Podíamos dizer que se escondeu do jogo, mas seria um eufemismo. O que queremos dizer é que os espanhóis enfiaram-no no bolso. Jogou como um jogador livre, sim, mas um daqueles que passa o verão a actuar na equipa do sindicato dos jogadores. É o jogador que mais se arrisca a perder o lugar no onze contra Marrocos.

Bernardo Silva

O nosso melhor jogador a definir no último terço do terreno desenhou vários pontos de interrogação enquanto procurava as linhas de passe necessárias à construção do futuro campeão mundial. Bernardo Silva jogou contra o pior dos adversários, pela inveja visível que o jogo dos espanhóis lhe causa. Também ele vive para as trocas de bola infindáveis, anseia por guardar a bola até o adversário se irritar, espera pelo momento certo para desferir o mais duro dos golpes, mas quando acorda do sonho tem o Cédric e o Moutinho marcados a pedir-lhe a bola.

Gonçalo Guedes

Sai da frente, Guedes. A sério, desvia-te só um bocadinho. Deixa passar a malta que isto hoje não era para ti.

Ronaldo

Talvez seja por ele que se inventou a expressão “faz-me um filho”. Efectivamente, se todas as mulheres portuguesas o consentirem e se os espermatozóides de Cristiano Ronaldo demonstrarem o talento e a ética de trabalho que vemos dentro de campo, o futuro do futebol português está mais do que assegurado. No essencial, foi uma exibição conseguida.

Quaresma

Já perto do fim limpou três ou quatro adversários num slalom imparável e, já perto da baliza, desferiu um remate frouxo. Não deu golo, mas tirou o sono a meia dúzia de marroquinos e a toda a seleção iraniana.

João Mário

O seu futebol cerebral não era para aqui chamado. Na verdade, ninguém era para aqui chamado a não ser Cristiano Ronaldo e João Mário cedo compreendeu isso, limitando-se a fazer um pouco mais do que o colega Bruno Fernandes.

André Silva

Quantos adeptos de futebol já viram André Silva despenteado? Importa reflectir sobre isto.