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Um Azar do Kralj

Eu vi Deus de charuto aceso na boca e não me importei, porque a Ele tudo devia ser permitido num estádio (por Um Azar do Kralj)

16 de Junho ficará para a história como o dia negro em que Maradona foi impedido de fazer o que bem entender num estádio de futebol. Ele, sim, devia ser a única excepção à regra.

Vasco Mendonça, Um Azar do Kralj

Chris Brunskill/Fantasista

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Este sábado não foi um dia qualquer. Foi o grande dia das excepções neste Mundial 2018. É um dia em que eu me posso virar para as pessoas à minha volta e dizer: calma, hoje há mais jogos do que é habitual, isto não vai ser sempre assim, ok? sim, já vou limpar o rabo o miúdo, epá, podes por favor ter calma?

Foram então quatro jogos. Sim, haverá mais dias com quatro jogos, mas não assim, não a quatro horas diferentes num sábado de pré-verão, como que inviabilizando qualquer tentativa de praticar algo que se assemelhe a uma vida social. A festa começou logo às 11 da manhã com um França - Austrália, que todos tivemos de ver devido à nossa ancestral rivalidade com os franceses (dura desde 2016) e porque convinha ir tirando algumas notas para este texto. A França mostrou que ter meia dúzia de craques não faz um campeão do mundo e que o hype em torno de Pogba é tão justificável como uma selfie num funeral. Já a Austrália voltou a demonstrar que é uma potência mundial do rugby.

Mas não tenha dúvidas, leitor. Não faço isto por si, mas por mim. Se há quatro anos tive a sorte de estar em casa em licença de parto, desta vez consegui um belíssimo asilo futebolístico com o Expresso em que, durante quatro semanas, tenho um pretexto para me alienar de quaisquer outras atividades humanas, uma condição que a minha esposa se vê obrigada a aceitar porque, objetivamente falando, as fraldas e aqueles boiões de papa biológica não se vão pagar sozinhos.

E fomos por ali adiante, até tropeçar na excepção seguinte. Decorria o Argentina - Islândia quando Deus aka Diego Armando Maradona foi avistado a fumar um charuto no seu camarote. Os nervos tomaram conta da situação e o homem esqueceu-se que estamos em 2018. Instalou-se mais uma daquelas broncas sem nexo, assente na grande questão filosófica “Meu Deus, que exemplo estamos nós a dar aos mais jovens?”

A polícia da internet não tardou a condenar o acto. Convocaram-se manifestações. Os islandeses inventaram um cântico de protesto. Messi falhou um penalty. Antes que se organizasse um Prós e Contras sobre o tema, Maradona pediu às pessoas responsáveis pelos seus posts no Facebook e no Twitter que elaborassem um pedido de desculpas. Assim foi: “Sinceramente no sabía que no se podía fumar en el estadio, pido disculpas a la gente y a la organización.” Triste. Assim voltámos a bater no fundo enquanto civilização. 16 de Junho ficará para a história como o dia negro em que Maradona foi impedido de fazer o que bem entender num estádio de futebol. Ele, sim, devia ser a única excepção à regra.

Seguiu-se o Peru - Dinamarca. Tentei passar pelas brasas despercebido, para que ninguém questionasse a minha entrega ao trabalho. Falhei espectacularmente, o que dificultou o visionamento do Croácia - Nigéria em condições mínimas de segurança, vulgo, sem ouvir bocas sobre o ridículo que é assistir a quatro jogos no mesmo dia a pretexto de “trabalho”. Lá me penitenciei e jurei que não repetiria a proeza, pelo menos durante os próximos quatro anos. Agradecido pela vida - não confundir com o defesa croata - lá fui perdoado. É isto, afinal, o amor: ter alguém que, por entre as múltiplas ocorrências da vida, nos aceita como somos naquele dia em que pusemos quatro jogos de futebol à frente de tudo o resto. Se têm uma pessoa assim, nunca mais a larguem - nem mesmo à hora do Costa Rica - Sérvia.

O texto de hoje é dedicado à Mafalda, ao Miguel, ao António e ao Joaquim.