Tribuna Expresso

Perfil

Um Azar do Kralj

Quando Portugal empata, isso é uma manobra de diversão. Quando o Brasil e a Argentina empatam, isso é destruição (por Um Azar do Kralj)

Vasco Mendonça escreve sobre percepções diferentes perante resultados iguais - e de como os portugueses adoram fintar o destino e viver tudo outra vez

Vasco Mendonça, Um Azar do Kralj

Anton Novoderezhkin

Partilhar

Argentinos e brasileiros protagonizaram dois dos três empates da prova até agora. O terceiro não surpreendeu ninguém: Portugal fez o que lhe competia e empatou com a seleção espanhola, conquistando três preciosos pontos rumo aos oitavos de final. Já a Argentina e o Brasil perderam dois pontos que se poderão revelar fatais nas suas aspirações.

O problema das culturas vencedoras - reais, como no caso do Brasil, ou imaginadas, como é a da Argentina - é que vêem no empate amplas razões para lamentar, analisar, reflectir ou até exigir mudanças. O vislumbre de uma calculadora deixa estes dois povos sul-americanos em estado de choque, na pele de um cidadão de nacionalidade futebolisticamente inferior.

Já nós nunca conhecemos o futebol sem o recurso a uma calculadora. Desde o torneio inter-turmas que o português se agarra à calculadora como se fosse um colega de equipa. O nosso nosso melhor onze de sempre joga em 4-3-3 com Ronaldo na esquerda, Eusébio no centro e o fulminante Gól Averáj (goal average) na ala direita. Gól Averáj é o nosso Garrincha.

Portugal não é o Brasil nem a Argentina. Eu sei. Não foi para isso que leu até aqui. Deixe-me terminar. Portugal é um país habituado a perder - de forma real e imaginada - que só recentemente foi obrigado a adaptar-se ao estatuto de nação vencedora de coisas. Até 2016, o corolário era simples: somos muito pequeninos e já começávamos a incomodar muita gente. Até que um dia nos fartámos de perder e levámos tudo à frente com uma série de empates.

Foi assim que, desde 2016, nos tornámos o mais temível underdog, em português sub-cão. Quando demos por nós, éramos duplamente campeões europeus, o que implicava duas mudanças de paradigma fundamentais: por um lado, tornou-se socialmente aceitável alguém gesticular como Salvador Sobral.

Por outro, tivemos que decidir se queríamos assumir o estatuto de favorito ou manter o nosso ADN de sub-cão. Felizmente, Fernando Santos, mestre do pensamento sub-canídeo, reviu as expectativas em baixa e avisou os portugueses de que desta vez não será tão fácil.

Joguemos com as nossas armas e a dose certa de realismo. Somos portugueses. Enquanto os poderosos se deleitam a jogar xadrez, nós ficamos no nosso cantinho a jogar ao chinquilho. Uma vez sub-cães, para sempre sub-cães.

É por isso que um empate funciona a nosso favor e destrói os outros.

Os jornais não falavam de outra coisa: Cristiano salva Portugal; Cristiano e mais dez. Não são mais dez, amigos. São vinte e dois e que os desdenha não perde pela demora. Quanto mais sub-cães, menos dão pela nossa presença.

Quando Portugal empata, isso é uma manobra de diversão. Quando o Brasil e a Argentina empatam, isso é sinónimo de destruição.

Para eles, o empate trouxe de volta, cedo demais, o medo quadrienal do falhanço, como se uma anomalia os privasse da merecida vitória. Para nós, o empate fez-nos querer fintar o destino e viver tudo outra vez - mas não lhes digam nada.