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Um Azar do Kralj

“Started from the bottom, now we here” (Um Azar do Krajl explica por que razão nunca mais vai olhar para o futebol de Lukaku da mesma forma)

A história de vida do internacional belga Lukaku impressionou Vasco Mendonça, que passou a conhecer "um colosso de ser humano, talentoso e robusto quanto baste para aguentar todas as cargas e mais alguma"

Vasco Mendonça, Um Azar do Kralj

Julian Finney

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Tenho pouco tempo. Está a jogar-se o Polónia - Senegal. Passaram aproximadamente 24 horas desde o meu último postal. O futebol aqui na Rússia tem sido assim assim. Foram quatro jogos, vinte e nove remates à baliza, dez golos, trezentos mil tweets sarcásticos eliminados a seguir ao segundo golo de Inglaterra, e mesmo assim o melhor gesto técnico que me passou pela vista desde ontem foi um texto de Romelu Lukaku no Players’ Tribune, a publicação fundada por Derek Jeter que coloca as principais figuras das principais modalidades desportivas em discurso direto. O texto, intitulado “I’ve Got Some Things To Say”, é um admirável registo auto-biográfico sobre essa fúria de viver a que os académicos chamam mobilidade social e sobre como as diagonais de Lukaku em campo cedo se tornaram muito mais do que tentativas de ocupar o espaço vazio.

Guardo várias passagens do texto e só não fiquei com o nome do ghostwriter que escreveu isto na vez de Lukaku, mas há uma história que fica e terá determinado tudo o que aconteceu depois. Aos seis anos de idade, o armário belga, que na altura já seria do tamanho de uma cómoda, viu a mãe misturar água com o leite antes de lhe dar o almoço. A mãe sorriu como se não fosse nada. O filho percebeu tudo. Não havia leite suficiente, não havia eletricidade, não havia água quente, não havia nada. Aos seis anos, Lukaku percebeu que ia ter de correr muito para lá chegar, mas, conta, não hesitou por um segundo. Aos seis anos, perguntou ao pai com que idade poderia tornar-se futebolista profissional. Dito e feito. Aos dezasseis, assim o fez.

Não sei se vinham à espera de graçolas, mas o futebol é muito mais do que isso. Neste caso, é um autêntico desporto de combate que nos deu um colosso de ser humano, talentoso e robusto quanto baste para aguentar todas as cargas e mais alguma, sem nunca tirar os olhos da baliza. Lukaku diz que nunca jogou um jogo que não fosse uma final. Um Mundial é também isto: nuns dias é uma oportunidade para conhecer um centrocampista interessante do Panamá (ou fingir que já o conhecíamos, como faz um amigo meu); noutros, é a possibilidade de, numa avalanche de conteúdos, redescobrir aquele avançado belga que julgávamos conhecer.

Nunca mais vou olhar para o futebol de Lukaku da mesma forma. Afinal não eram meras diagonais para ocupar o espaço vazio. Aquele remate não era simplesmente a vontade de marcar. É uma final perpétua a que nós, adeptos, continuaremos a assistir. A Bélgica, que ainda assim não passará dos oitavos, acabou de ganhar um adepto. São histórias assim, das que não misturam água com o leite, que fazem este mês valer ainda mais a pena. Como diz o outro: started from the bottom now we here.