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Um Azar do Kralj

Das tabernas aos clubes de swing: vá, precisamos de todos (por Um Azar do Kralj)

Isto é uma espécie de statement contra Velhos do Restelo e determinados comentadores ingleses que insistem em não ver a realidade: Portugal não precisa de jogar bem para ganhar

Vasco Mendonça, Um Azar do Kralj

Michael Steele

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Ainda se lembram?

Pouco importa
pouco importa
se jogámos bem ou mal,
vamos é levar a taça,
para o nosso Portugal.

Lembram-se pois. Caros compatriotas: keep calm and carry on. Em bom português, tenham lá calminha. Temos o melhor marcador da prova, que não por acaso é o melhor jogador que por lá anda. Fizemos mais pontos em dois jogos do que nos três da fase de grupos do último europeu. Temos um Presidente da República que dá flash interviews. Basta-nos um empate no próximo jogo - o nosso resultado favorito - para passarmos à fase seguinte. Por último, but not least, temos uma selecção recheada de talentos que ainda não se mostraram mas terão muito tempo para o fazer.

Ainda se lembram? Pouco importa, pouco importa, se jogámos bem ou mal. Vamos lá Portugal.

Em suma: Portugal não precisa de mais haters. E também não sei se precisa de meros adeptos. A palavra adepto soa-me sempre algo passiva. Qualquer indivíduo consegue ser adepto, mas nem todos são torcedores. O torcedor tem um verbo, tem acção e reacção. Enquanto nós torcermos, os outros retorcem na sua condição de derrotados.

É que, para haters, já bastam os estrangeiros. Ontem à noite ouvi o podcast diário do Guardian sobre o mundial e senti-me vagamente irritado. Primeiro, porque ouço podcasts até adormecer e o de ontem manteve-me acordado.

Em segundo lugar, porque metade da conversa consistiu num discurso vagamente odioso acerca do estilo de jogo da equipa portuguesa, evidentemente motivado pela inveja que estes tipos têm de, sendo eles também torcedores de uma equipa não joga um charuto, não conseguirem ainda assim ganhar nada. Oh my sweet tender hooligans: temos pena.

Esqueçam a calculadora. Esta conta faz-se de cabeça: Portugal não precisa de jogar especialmente bem para voltar a trazer o caneco. Como o mister já explicou, precisamos de disponibilidade física e mental.

E se a abnegação dos nossos rapazes não se discute, é importante reconhecer que temos reservado demasiados elogios para Cristiano Ronaldo e muito poucas palavras de carinho para com os restantes futuros campeões mundiais. Tem havido muito trabalho de ginásio, mas pouco no divã.

Ver jogadores como Bernardo Silva, Gelson Martins ou Bruno Fernandes chegarem envergonhados à zona mista, como se tivessem ido lá para pedir desculpa por não merecerem a companhia de Cristiano, é simplesmente triste. Tempos houve em que as exibições de Cristiano na seleção eram odiadas.

Todos nos lembramos disso, mesmo que tenhamos apagado os posts e tweets sobre o assunto. Pois bem, hoje o Cristiano da seleção é uma autêntica divindade de quem tudo se espera, incluindo que lidere a equipa portuguesa rumo a uma dobradinha inédita e absolutamente improvável. Ninguém precisa de o elogiar, porque Cristiano encontra combustível em tudo, especialmente nos odiadores.

No entanto, nem todos somos assim. Há ali muitos rapazes que precisam de um gesto carinhoso, de um afecto. Alguns precisam de um novo corte de cabelo, mas disso falaremos noutro dia. Estes rapazes precisam que Marcelo desça ao balneário para lhes dar um abraço ou que suba ao palanque para lançar um repto aos seus concidadãos.

Portuguesas, portugueses: onde quer que estejam. Das tabernas aos escritórios, passando pelas fábricas, pelos ginásios, oficinas, salas de espera de consultórios, manifestações da CGTP ou clubes de swing. Onde quer que se encontrem, guardem uma palavra de encorajamento para a seleção portuguesa e façam questão de a dizer bem alto, para que seja ouvida pelos adeptos mais cépticos, até chegar aos jogadores. Se o fizermos, essa palavra passará palavra até acabar no fundo das redes. Talvez aconteça o impensável e se torne moda dizermos bem da nossa equipa.