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Um Azar do Kralj

Brasileiragem é ginga e ambição, é cueca e convicção, é uma rua da favela e o relvado europeu (por um Azar do Kralj)

Vasco Mendonça escreve sobre o que significará ser brasileiro e torcer por um país

Vasco Mendonça, Um Azar do Kralj

Julian Finney

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Soube há uns dias que em 2018 se assinala o 50º aniversário do slogan do FC Barcelona, “Mês que un club”. Para assinalar a data, clube preparou uma campanha de comunicação internacional, que terá arrancado já este mês na Rússia. A campanha é protagonizada por Lionel Messi e mostra um futebolista a braços com o fardo de ser um dos melhores da história, mas só se for no seu clube. Fora isso, as melhores recordações de Messi com a camisola alviceleste vestida são Messi a vomitar, Messi a caminhar indiferente enquanto o jogo decorre noutra zona do campo, Messi a olhar para o infinito com ar de quem sente falta dos colegas do Barcelona, e finalmente Messi com um olhar semi-perplexo para fingir que não percebe o que acabou de acontecer.

Més que un club, seguramente, e mais do que um país. Quem tem dúvidas só precisa de rever uma entrevista recente de Rakitic em modo pré-mundial. Nesta, o colega de balneário do argentino explica que Messi sofre pela sua Argentina e ninguém deveria duvidar disso. Quando temos que perguntar por sentimento patriótico a um croata que joga no mesmo clube espanhol, ficamos um pouco mais esclarecidos. O Barcelona é a verdadeira nação de Messi e os argentinos não perdoam isso. O slogan que deu abrigo e alimento ao futebol de Messi é a suprema ironia para um país que, afinal de contas, já tinha inventado um Messi.

Chama-se Diego Armando Maradona e fuma charutos dentro de estádios, porque há muito se tornou muito mais do que um jogador. Os argentinos que o digam. A continuar assim, chegará o dia em que Messi terá de se esconder numa casa de banho para fumar os seus cigarros eletrónicos.

Há toda uma psicossociologia dos slogans futebolísticos, mas também dos nomes nas costas da camisola. O Brasil, por exemplo, chega a este mundial como a seleção de Neymar, um jogador que parece retirar prazer do facto de exibir uma personalidade vagamente insuportável e menos futebol do que muitos dos seus colegas. Se o Brasil fosse a “seleção de Coutinho”, a “seleção de Marcelo” ou até mesmo a “seleção de Casemiro”, talvez eu conseguisse torcer mais por eles em 2018. Assim fica difícil. A seleção de Neymar devia ficar na primeira fase.

Passaria apenas o Brasil à fase seguinte. Mas isto é um adepto português a falar, para quem a imagem de uma perna de Neymar a ser arrancada por Bruno Alves me entusiasma mais do que dez cabritos do brasileiro contra a Costa Rica. Se tentar tirar os óculos de torcedor, compreendo que o Brasil é hoje Coutinho, Marcelo, Casemiro e também Neymar, o melhor jogador do mundo a realizar as suas tarefas com uma perna em Mogi das Cruzes e outra em Moscovo. Talvez o melhor jogador do mundo a ser aquilo que o futebol moderno exige e aquilo que a rua lhe ensinou.

Há nisso uma verdade e houve quem percebesse. O mote do Brasil em 2018 é a Brasileiragem, conforme campanha da Nike, eterna patrocinadora do futebol brasileiro. É um dos melhores filmes publicitários que eu vi a propósito deste mundial, um daqueles festivais de cinematografia, pirotecnia e contratos de direitos de imagem que geralmente só a Nike tem dinheiro para pagar. Do ponto de vista de quem o criou, Brasileiragem é, antes de mais, aquele momento formidável em que o publicitário encontra uma coisa que permite vender chuteiras e por acaso também é rigorosamente verdade. Isso significa que o publicitário pode ir a casa ver os filhos antes de começar a trabalhar nos 95% que faltam para essa ideia se tornar alguma coisa apresentável.

Do ponto de vista do torcedor, Brasileiragem é aquele caldeirão visual e lírico que define justamente o país, a seleção e o indivíduo. É um golo de letra e celebra beijando o símbolo na camisola. Tem espaço para um país inteiro e para a sua forma de viver o jogo, um jogo que este país inventou ou reinventou, como preferirem. Tem espaço até para vedetas como Neymar, mesmo que ao longo do filme ele não seja visto a cair depois de um adversário espirrar perto de si. Seria verdade, mas não é essa a verdadeira história.

Brasileiragem é também, e talvez mais do que qualquer outra coisa, terapia de grupo para todos os brasileiros que desejam virar a página. É ginga e ambição, é cueca e convicção, é uma rua da favela e o relvado europeu. É isso tudo e uma certa sede de vingança. “Essa camisa tem história”, grita uma criança para a roda de amigos que fecha o anúncio. E tem mesmo. E os jogadores começam a mostrar tudo isso em campo. Brasileiragem é jogar pelo símbolo que está na frente da camisola e vender os nomes nas costas. É, voltando às palavras da criança no anúncio das chuteiras, “p’á dar a vida, parceiro”.

É muito mais do que um clube. É um país. Veremos se conseguem fazer justiça ao slogan e juntar-se a Portugal na final do próximo dia 15.