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Bruno 4ever: uma crónica de tweets, posts, facepalm e de culpa (por Um Azar do Kralj)

Na noite em que Bruno de Carvalho cai da direção do Sporting, Vasco Mendonça reflecte sobre como foi possível chegar até este ponto

Vasco Mendonça, Um Azar do Kralj

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Não consigo precisar a data, mas nunca mais me esqueci. José Eduardo Bettencourt tinha acabado de criar uma conta no Twitter. Já foi há uns anos e lembro-me que a coisa causou alguma surpresa, seguida daquela dose de embaraço que, em adolescentes, reservámos para os nossos pais sempre que apareciam numa festa de amigos e tinham a infeliz ideia de abrir a boca para dizer qualquer coisa espirituosa. Assim foi. Bettencourt - JEB para os que se lembram - foi por ali fora no seu Blackberry e, no seu primeiro tweet de sempre, escreveu “Sporting 4ever”, tornando-se motivo de chacota de toda a internet que perde tempo com estas coisas.

Lembro-me de achar o tweet algo pateta vindo de quem vinha e pensar qualquer coisa como “bem, pior que este não há-de escrever… aposto que já contratou alguém para gerir as suas redes sociais, e fez ele muito bem. isto é um terreno escorregadio e cada vez mais pantanoso”. Não consigo precisar a data, mas sei que isto aconteceu em 2009. Quase uma década depois, continuo a prestar atenção ao que se escreve no Twitter e no Facebook. E talvez seja esse o facto mais lamentável em todo este percurso de Bruno de Carvalho: que lhe tenhamos dado toda esta atenção. Quanto mais atenção lhe demos, mais difícil se tornou - para os sportinguistas - correr com ele.

Sim, Bruno de Carvalho foi responsável por alguns dos melhores e mais divertidos momentos de internet nos últimos anos. Sim, Bruno de Carvalho procurou a atenção de todas as formas e mais alguma. Sim, Bruno de Carvalho diz coisas pertinentes por entre um chorrilho de desconsiderações por tudo e todos. E sim, é muito mais fácil criticar a postura dos jornalistas do que apresentar uma alternativa à cobertura da atualidade do Sporting Clube de Portugal que não implique saber o que diz e faz o presidente do clube. Mas, e aqui incluo-me, somos todos um bocadinho culpados.

Eu, por exemplo, fiz muitas piadas sobre o ex-presidente do Sporting, algumas de muito mau gosto. Poderia dizer que poucas vezes lhe dediquei parágrafos aqui na Tribuna. Na verdade, não escrevi mais coisas porque, sempre que o fiz, fui insultado pelos seus cães de guarda. É também este o legado de Bruno de Carvalho: alguns dirão que devolveu a dignidade ao Sporting Clube de Portugal. Eu digo que o atirou para a sarjeta e, para aí sobreviver, criou um braço armado digital que tentou sujar todos os que criticaram Bruno. Mas lá está: somos todos um bocadinho culpados. Os nossos pais não nos ensinaram a devolver todo e qualquer impropério com outro insulto. Eu cometi esse erro algumas vezes. Não foram os nossos pais.

Foi a internet quem nos educou dessa forma. E nesse meio Bruno foi, é e continuará a ser exímio, pelo modo como explora a natureza voyeurística deste meio, pelo treino que foi adquirindo, e também porque quase ninguém vai virar a cara enquanto Bruno mantiver esta utilização patológica das redes sociais.

Somos todos um bocadinho culpados. Quando António Salvador, presidente do SC Braga, disse que se recusava a lutar com um porco porque não se queria sujar, muitos foram os aplausos. É assim mesmo! As verdades devem ser ditas! Teve uma resposta à altura! Na verdade, estávamos todos a chafurdar com os tais porcos.

Em todo este processo, Bruno de Carvalho conseguir levar a minha relação com o Sporting Clube de Portugal a um extremo impensável. Enquanto benfiquista, sempre desejei o insucesso desportivo de um dos nossos principais rivais, mas também isso se tornou complicado com Bruno de Carvalho. Se a sua presidência continuasse por muito tempo, o mais provável seria também eu tornar-me sportinguista - por solidariedade para com tantos amigos e familiares que vi reagirem aos posts, comunicados, entrevistas e comícios do Bruno escondendo a cara num proverbial facepalm.

Podia dizer-vos que íamos aprender com tudo isto e melhorar, mas é mentira. O facto é que Bruno de Carvalho é um activo demasiado valioso para esta economia de conteúdos digitais, e ele sabe isso. É um animal futebolístico único em Portugal, capaz de produzir opiniões à mesma velocidade com que insulta todos os que dele discordam. É aquilo que o meu povo gosta. E não terá qualquer problema em intensificar ainda mais esse registo que tão bem domina, desde que isso lhe permita sobreviver. Não será certamente o único no nosso panorama mediático, mas não há mais ninguém exactamente como ele.

Bruno de Carvalho começou por ser aclamado na tribuna presidencial. Hoje entrou pela garagem e sairá pelo esgoto, quando finalmente terminarem a recontagem ou desligarem o wifi. Mas tenham calma. Não faltará muito para regressar à superfície, num canal de tv ou rede social perto de si. Bruno 4ever.