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Um Azar do Kralj

Um Azar do Kralj atrasou-se a fazer estes parágrafos mas tem coisas importantes a dizer sobre Herrera, as lágrimas e os ingleses

Vasco Mendonça começa por explicar por que motivo esta crónica vem com algum atraso e acaba com uma sugestão de derrota para o mundo se render aos britânicos

Vasco Mendonça, Um Azar do Kralj

Jean Catuffe / Getty

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Podia dizer-vos que tive um imprevisto, mas não é verdade. Sábado não tive forças para escrever a crónica diária do Mundial. Entre maratonas de futebol, assembleias destitutivas e aquilo que as pessoas ainda esperam de mim enquanto pai, tornou-se impossível alinhar alguns parágrafos. Mas não se pense que foram 48 horas aborrecidas na Rússia. Nada disso.

As minhas últimas 48 horas arrancaram com a titularidade Seferovic no Sérvia - Suíça. O suíço com nome de sérvio voltou a não marcar mas continua a justificar os 30 milhões que o Wolverhampton irá pagar por ele. Aquela capacidade para se alhear do jogo tem tudo para fazer as delícias dos adeptos ingleses.

Seguiu-se o Bélgica - Tunísia, um jogo que permitiu reconhecer todo o potencial ofensivo dos belgas e também algumas das debilidades defensivas que os farão cair aos pés do Japão ou do Senegal. Chega a ser embaraçoso ver jogadores como Lukaku, Lazard ou De Bruyne convencidos de que têm aquilo que é necessário para ganhar isto, como se estas provas se decidissem em função do número de golos marcados e não do número de faltas que escaparam aos olhos do VAR. Ponham os olhos no José Fonte e não desanimem, amigos. 2022 está quase a chegar, pode ser que corra melhor.

Seguiu-se mais uma vitória do México, que voltou a mostrar eficácia ofensiva e grande inteligência nos processos defensivos. Frente à Coreia do Sul, o selecionador mexicano apostou no clássico sistema de marcação à zona, a única opção possível quando não se consegue distinguir um jogador do outro. Podia dizer-vos que está aqui mais um outsider na corrida ao título, mas na verdade estamos apenas a assistir a uma série de equipas que irão capitular naquele registo estóico vulgarmente descrito como cair de pé. Não obstante, espero que o Herrera acabe de gatas e a chorar.

Ainda eu não tinha tomado acabado de almoçar e já os alemães derrubavam um sueco à entrada da área num jogo decisivo para as suas aspirações. Nada que impedisse a partida de prosseguir, empurrando um dos países mais bem geridos do mundo para a posição absolutamente contra-natura de queixinhas. O tipo que sofreu a falta ainda tentou esbracejar, mas a ausência de vocação dramática fez que o árbitro desatasse às gargalhadas, explicando que não é assim que se faz. Por mim tudo bem, desde que todos os jogos de futebol terminem com uma beldade sueca em lágrimas. Se os suecos não amparam estas miúdas, vamos lá nós. Quanto aos alemães, mantêm-se em prova, mas apresentaram níveis de ansiedade habitualmente exibidos por seleções como Portugal quando precisa de marcar oito golos fora a Itália e esperar por uma derrota da Hungria em casa com San Marino.

Já este domingo, a Inglaterra conseguiu a proeza de enfiar meia dúzia de golos a um adversário numa partida de um Mundial e mesmo assim ser remetida para segundo plano. Pobres coitados. Não só ninguém acredita nos ingleses (incluindo eles próprios) como é muito mais interessante - e moralmente válido - torcer pelo terceiro mundo, aqui representado pelo Panamá, que hoje celebrou o primeiro golo nesta prova com a alegria e a comoção de quem acabou de ganhar a final. Foi ver os ingleses cabisbaixos a pensar o que é que têm de fazer mais para voltarem a conquistar corações num Mundial. Experimentem perder nos oitavos e logo se vê.