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Um Azar do Kralj

“Tenho medalhas que cheguem do Marcelo, uma casinha e contrato com Alberto Oculista”. Um Azar do Kralj ouviu a palestra do mister

Não se preocupem, é humor e ironia. Vasco Mendonça imaginou uma palestra motivacional curiosa dada por Fernando Santos aos seus jogadores instantes antes do jogo decisivo com o Irão

Vasco Mendonça, Um Azar do Kralj

Stuart Franklin - FIFA

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Não sei bem como dizer-vos isto. Parecem apenas mais noventa minutos, mas é a nossa última oportunidade. Das duas uma: ou nos comportamos como uma equipa ou isto vai tudo pelos ares, passo a passo, falha de marcação sobre falha de marcação.

Neste momento estamos às portas do inferno, rapazes. Acreditem. Lá fora estão milhares de pessoas que esperam que nós façamos o óbvio: procurar o golo. Encantar. Deslumbrar os líricos da modalidade. Temos duas hipóteses. O continuamos a procurar o golo - e arriscamos ser dizimados - ou podemos lutar para manter as coisas exactamente como estão. Um passe para o lado de cada vez.

Eu não posso fazer isso por vocês. Sou demasiado velho. Mas quando olho à volta e vejo estes jovens sedentos de golos e vitórias - enfim - só me lembro da mesma ingenuidade com que começámos o Europeu. E vejam onde chegámos. Não é por mim que digo isto, meus caros. Já recebi medalhas que cheguem do Marcelo. Tenho uma casinha de campo. Tenho um contrato simpático com a Alberto Oculista. É por vocês.

À medida que envelhecemos, parece que começam a tirar-nos as coisas. Por exemplo, ainda há bocadinho tinha aqui os meus óculos de ler e agora já não sei deles. Ah, afinal estão aqui. Enfim. Faz parte da vida.

(um oficial da FIFA entra no balneário e avisa que estão prontos para subir ao relvado)

Hã? Calma, meu amigo. Restar calmex. Français? Inglish? Keep calm… Slowly you go far, máfrénd. Bem, onde é que eu ia? Exacto. Empatar faz parte da vida. E às vezes só percebemos isso quando começamos a perder coisas. No campo e fora dele. Os jogos decidem-se nos detalhes. Um golo de vantagem e ficamos logo cheios de bazófia a achar que já está ganho. Um golo de desvantagem e já fomos. Já perdemos vezes suficientes para perceber que às vezes um empate chega.

Mantenham a calma e não tirem os olhos do lance. Ora empates de que precisamos estão à nossa volta. Estão em cada pausa do jogo, em cada lateralização, em cada demora na reposição da bola, em cada discussão inconsequente com o árbitro. Nesta equipa, nós lutamos por esse empate. Nesta equipa, desunhamo-nos pelo empate.

Eu não posso empatar este jogo por vocês. Bem queria, mas estas artrites vão de mal a pior. Para isso, vão precisar de um dos colegas que estão ao vosso lado. Olhem para eles. Olhem com atenção. Sabem quem é? É alguém disposto a dar a vida para que o resultado não se altere até final. E sabem porquê? Porque sabem que vocês fariam o mesmo por eles, até ao final do tempo regulamentar.

É isto o futebol, meus caros. É isto a vida. É isto uma equipa. Ninguém disse que seria fácil, mas foi para isto que vocês se alistaram. Como se costuma dizer, em qualquer combate, ganha quem estiver disposto a morrer. Mas isso é uma metáfora e nós queremos empatar, portanto tenham calma e troquem a bola o mais possível até os iranianos se cansarem. Se por acaso marcarmos, tudo bem. Se não, tudo, bem. Logo se vê. Sem euforias. Para isso não contem comigo, pelo menos até dia 15.