Tribuna Expresso

Perfil

Um Azar do Kralj

Estou cansado como William Carvalho, com uma mialgia de esforço no cérebro (por Um Azar do Kralj)

Apoderou-se mim uma outra sensação: a de que nós somos todos William Carvalho. Cada um com a sua mialgia de esforço. William nunca esteve cansado. Como qualquer bom funcionário português, teve simplesmente muito que fazer e viu-se limitado à condição de ter apenas dois braços e duas pernas

Vasco Mendonça, Um Azar do Kralj

David Ramos - FIFA

Partilhar

Há momentos em que a piada se faz sozinha: “William Carvalho pára devido a lesão”. É uma lesão com o timing humorístico dos maiores. George Carlin, Bill Hicks, Larry David, Mialgia de Esforço. A gargalhada deu-se porque, um dia antes, a consciência colectiva nacional - onde eu me incluo - ditara que William Carvalho tinha feito um mau jogo. Pior: que não tinha corrido nada. Que só passava para trás, ou para o adversário. Como é possível que alguém que fez tão pouco se lesione

Mialgia de esforço é bom demais. As pessoas gostam de se emocionar com enchentes no Terreiro do Paço, mas fiquem sabendo que todos os dias enchentes idênticas acontecem espontaneamente. O Terreiro do Paço da internet está no Twitter e no Facebook. Dezenas de milhares, às vezes milhões, acotovelam-se. Estão no palco ou na plateia, consoante o número de likes ou retweets. Vêem tudo, mas não viram nada. Eu sei, porque me sinto um deles.

Em teoria, a democracia nos meios digitais não tem problema nenhum. Na prática, tem os seus defeitos. Por exemplo: na internet, raramente a maioria deixa que a realidade estrague uma boa história. Há, ainda assim, quem procure o perdão. Eu idiota me confesso, após constatar que William foi quem mais correu, dos que melhor passou a bola e, pasmem-se, um dos mais rápidos em campo.

Nesta constatação, apoderou-se mim uma outra sensação: a de que nós somos todos William Carvalho. Cada um com a sua mialgia de esforço. William nunca esteve cansado. Como qualquer bom funcionário português, teve simplesmente muito que fazer e viu-se limitado à condição de ter apenas dois braços e duas pernas.

O Homo Digitalis também não está necessariamente cansado, pelo menos não no sentido físico. Corre mais do que nunca, aliás. Os seus polegares são membros prontos para a alta competição. Os olhos estão treinados para ler como Usain Bolt foi treinado para correr. O hashtag é o nosso combustível. No entanto, a avalanche de informação é tal que se torna difícil perceber o que procurar, se os factos que sustentem ou contrariem o sentido de opinião espontâneo a que assistimos um pouco por todas as plataformas digitais.

As opiniões dividem-se.

É a social media fatigue, uma doença moderna que o Google me diz ainda só ter nome em inglês. Em Portugal é descrito vulgarmente como “estou farto desta m**da do Facebook e do Instagram, é só gente burra“.

Em mês de Mundial, nós que gostamos de futebol somos isto tudo sob o efeito de esteróides. Ainda vamos a meio e minha persona digital já se sente como Maradona depois do Argentina - Nigéria. Há, como em William Carvalho, uma vontade de acorrer a todos os lances e uma incapacidade crónica de estar em todo o lado.

A diferença é que William está a defender a honra de um país e nós estamos a defender a honra de uma personagem criada numa rede social. Não vale a pena negarmos. Somos reféns acometidos da síndrome de Estocolmo, mas escusam de nos dizer.

No entanto, sem darmos por isso, prostrados pela mialgia de esforço do intelecto, esquecemos mais do que lembramos. Num episódio recente do muito recomendável podcast “Game Of Our Lives”, o realizador Werner Herzog, hoje com 75 anos de idade, recuou os anos 50 para recordar a primeira vez que viu uma equipa brasileira em campo. Foi o Santos de Pelé. Herzog discorre sobre o tema com uma voz que não se comove, uma voz que já viu tudo, e ainda assim nota-se nele o encantamento. O Santos ganhou 9-1 e Herzog conta que viu magia, 50 anos depois, como se nunca mais tivesse visto futebol exactamente assim.

É uma coisa bonita que vale a pena ouvir. Deixou-me comovido e assustado, por esta ordem.

Que Herzog esteja disposto a recordar isto em 2018 é sintomático do quanto o cineasta alemão aprecia o jogo ainda hoje. Aproxima-o de nós e não custa perceber porquê. O futebol é uma viagem que todos fazemos com maior ou menor nível de intelectualidade, e uma expressão visceral da emoção humana que nos aproxima.

Isso comove-me.

Não faço ideia qual é o destino da viagem, nem quero saber. Diria que o verdadeiro adepto aceitou ser condenado a esse labirinto afectivo, culminando no Mundial a cada quatro anos. Não é um labirinto no sentido trágico da personagem presa em si mesma, sem encontrar uma saída. Esqueçam essas crises existenciais de trazer por casa. Nós já encontrámos o caminho há muito. É aqui, sentadinho no sofá, a criar novas memórias que alimentarão as conversas daqui a quatro, oito, doze, dezasseis anos, assim por diante, enquanto a saúde nos permitir.

No entanto, talvez em nenhum outro Mundial como neste tenha sido que era demais. Não sei se decorre da minha condição individual ou do aumento do conteúdo publicado e das pessoas que o produzem, ou da dificuldade em encontrar o melhor desse conteúdo. Por enquanto, lembro-me mais facilmente dos melhores lances de Romário, Bebeto, Baggio, Bergkamp, Hagi ou Ronaldinho Gaúcho em mundiais passados há 16 anos ou mais, do que me lembro de quem jogou melhor no Inglaterra - Bélgica de ontem, um jogo pelo qual ansiava e do qual guardo, no essencial, o pontapé de Batshuayi que foi devolvido pela trave e lhe acertou na cara.

É isso que me assusta, mas passarei as próximas semanas como sempre, disposto a ser comovido mais uma vez, como se fosse a primeira.