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Um Azar do Kralj

Pouco importa se jogámos bem ou mal, este Mundial fica triste sem Portugal

Vasco Mendonça está triste e nem os jogos do Mundial conseguem animá-lo, agora que não há Portugal

Vasco Mendonça, Um Azar do Kralj

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Que se lixe o Mundial, estou deprimido. Pouco importa se jogámos bem ou mal, este Mundial fica triste sem Portugal. Os amigos mais calculistas, conhecedores das entranhas tácticas e fanáticos da racionalidade, essa nação sem credo nem bandeira e muito menos sala de troféus, dizem que foi merecido.

Um pouco por toda a parte, é-me pedido que levante a cabeça e pense no próximo jogo, mas caramba, o próximo jogo é um Suécia - Suíça e sinceramente não sei o que fazer. Está bem. Saímos todos de cabeça erguida, caímos de pé, sentimo-nos gratos e coleccionámos outra mão cheia de lugares comuns na hora da despedida. Mas ninguém me tira que ainda não nos despedimos condignamente.

Bem tento distrair-me, mas para onde quer que olhe, só te vejo a ti. Foram quatro jogos e quase oito horas colado ao ecrã. Vi o Espanha - Rússia ir a penalties e pensar que bonito seria se o VAR tivesse ido dar uma volta ao bilhar grande naquele jogo contra o Irão e nos tivesse deixado passar em primeiro para depois limparmos o sarampo a estes russos. Já estou a ver tudo. Golovin tenta acompanhar o impulso de Ronaldo num lance de bola parada e não consegue melhor do que agarrar-lhe os tornozelos a dois metros de distância da relva. Marcelo assiste sentado calmamente ao lado de um daqueles ministros de pacotilha do Putin. Primeiro foi um daqueles apertos de mão firmes para intimidar, depois arranca-lhe a cabeça com uma gravata à Quaresma e ergue-a para o mundo inteiro ver. Seria o primeiro troféu e incidente diplomático deste Mundial.

Tu. Tu. Tu. A Croácia vence a Dinamarca nos penalties, a vitória é arrancada a ferros com um guarda-redes que teve a ousadia de imitar a prestação do nosso Labreca em 2004. Eu rebobino a cassete e lembro-me de um daqueles jogos mornos à medida de um Quaresma no prolongamento. Eliminámos os croatas no Euro 2016 e demos na pá aos dinamarqueses na qualificação para esse mesmo europeu. O meu tugacentrismo desfaz-se em lágrimas. Imagino Ronaldo a invadir o campo no jogo da Croácia dos quartos de final, possuído pelo mesmo sentimento de negação que escreve estes parágrafos, a evitar stewards como se fossem pinos até rodopiar sobre si mesmo, cravar os pitons na relva e gritar “EU. ESTOU. AQUI!”, segundos antes de ser atingido por um taser da polícia russa.

Vejo o Brasil - México e penso na bonita seleção do México, uma espécie de Portugal da Europa a quem falta um poucochinho para ultrapassar a maldição e chegar ao quinto jogo. Falta-lhe ser Portugal. Falta-lhe um poucochinho de sorte e um bocadão de Bruno Alves, titular no lugar de Pepe, imbuído da justiça poética que lhe permitirá marcar, aliás, perseguir impiedosamente Neymar pelo relvado fora, até este sair a rebolar e pedir para ser substituído por Firmino. Imagino William a domesticar Willian, Moutinho a manietar Coutinho, e Ronaldo a confortar Casemiro no final do jogo. Os meus amigos brasileiros a chorarem, eu a oferecer-lhes um ombro amigo encharcado em cerveja.

Finalmente, vejo a Bélgica a ultrapassar o Japão de forma absolutamente épica na última curva de Le Mans e lembro-me de entradas semelhantes na enciclopédia de futebol, escritas pela nossa seleção. E que bonita é esta seleção belga, possante, crente, multicultural e destinada a perder nos quartos de final. Falta-lhe aquele poucochinho. E é por isso que acredito. Acabaram connosco e perdemos bem, mas não acabaram com este amor. Esse ganha sempre. Desta vez, conseguiram adiar as nossas chances de mostrar ao mundo do que somos feitos. O sonho nem sempre se conquista à primeira. Pronto. Já desabafei. Faltam dois anos para mostrarmos o que poderia ter sido. Enquanto não chega o próximo, podem mandar entrar as equipas da Suécia e da Suíça.