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Um Azar do Kralj

A poesia do futebol está no facto de ter casa em toda a parte e em lado nenhum. Porque casa é onde há chão e balizas (por Um Azar do Kralj)

Vasco Mendonça começa com um poema e acaba com uma declaração de interesses, num texto que gira à volta do futebol inglês

Vasco Mendonça, Um Azar do Kralj

Alan Crowhurst

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As Casas

As casas habitadas são belas
se parecem ainda uma casa vazia
sem a pretensão de ocupá-las
tornam-se ténues disposições
os sinais da nossa presença:
um livro
a roupa que chegou da lavandaria
por arrumar em cima da cama
o modo como toda a tarde a luz foi
entregue ao seu silêncio
Em certos dias, nem sabemos porquê
sentimo-nos estranhamente perto
daquelas coisas que buscamos muito
e continuam, no entanto, perdidas
dentro da nossa casa

Desengane-se quem pensa que o crónico insucesso da seleção de futebol inglesa será explicado por Luís Freitas Lobo ou Pedro Henriques. Nada disso. E também não é preciso ir ao Twitter procurar um geek que se alimente a estatísticas de jogo. A reflexão de hoje não resulta de uma única estatística nem tão pouco vive refém de ocorrências observáveis. Se há alguma verdade naquilo que escrevo hoje, devo-a ao poeta e teólogo José Tolentino Mendonça, recém-nomeado bibliotecário do Vaticano e autor de um poema admirável, intitulado As Casas.

Não é seguramente uma descrição bem conseguida dos princípios técnicos e tácticos que caracterizam o jogo da seleção inglesa, mas talvez os versos sejam mais claros, até mesmo fiéis à cultura da nação descrita; talvez assim se consiga uma análise lúcida de um regresso a casa eternamente adiado, em que um país inteiro observa como se, simultaneamente, estivesse à porta de casa, estrangeiro na sua condição, e dentro da mesma, a abraçar a familiaridade do jogo como se nunca tivesse saído dali.

As “ténues disposições” de que o poeta fala são as ideias de jogo abrutalhadas dos ingleses, que há décadas procuram, através da sua liga e da sua formação, colonizar o dito futebol que inventaram com uma matriz de jogo vinda de outras latitudes. O objectivo é, então, tornar os ingleses mais competitivos e continentais, sem que isso os prive de uma dose de identity politics tão bem expressa em Football’s coming home, canção que celebrou o regresso literal do futebol a Inglaterra para o Euro 96 e que persiste mais de 20 anos depois, já o kick and rush foi há muito goleado pela periodização tática.

A máxima inglesa dita que o futebol, invenção pródiga de um povo, está destinado a voltar a casa. Não me refiro ao futebol vagamente desinteressante praticado pela seleção inglesa, mas à cristalização de uma vitória épica num desempate através de grandes penalidades, uma invenção de israelitas seguramente apostados em afastar o futebol da sua casa. Isso ou a verdadeira poesia do futebol reside no facto de este ter casa em toda a parte e em lado nenhum. A casa é onde houver chão e balizas.