Tribuna Expresso

Perfil

Um Azar do Kralj

Neymar (1992-2018) (Um Azar do Kralj diz adeus ao génio, herói, vilão, idiota e bobo de serviço, consoante o dia)

Vasco Mendonça escreve sobre Neymar, "génio, herói, vilão, idiota e bobo de serviço, consoante o dia, o minuto de jogo ou o resultado"

Vasco Mendonça, Um Azar do Kralj

Kevin C. Cox

Partilhar

Foi bom enquanto durou e, ao contrário do que se pensa, vamos ter saudades dele -de Neymar, leia-se. Eu que o diga. Nos últimos dias tenho essencialmente celebrado eliminações atrás de eliminações, rindo do infortúnio de uma Espanha ou da ingenuidade de uma Croácia que se acha ainda capaz de vencer a prova. É esta, também, a beleza de um Mundial. Perante a impossibilidade de coroar Portugal como justo campeão mundial, poucas coisas me satisfazem mais do que saber que, em 32 equipas, só uma festejará verdadeiramente, e essa não sabe festejar como nós. Já alguém imaginou os suecos a celebrarem um título mundial? Pobre povo. Aposto que nesse dia se vão deitar às onze da noite, isso ou celebram aumentando o salário mínimo no dia seguinte.

Enfim. Precisamos de mais. Dos perdedores e de tudo o resto, e sobram poucos à medida que avançamos. Até Neymar pareceu perceber que o fim estava próximo. Corria o minuto 51 do Brasil - Bélgica, dirá a biografia daqui a alguns anos, quando Neymar tocou de raspão em Fellaini, um tipo com menos vocação para a modalidade do que uma unha encravada de Neymar. Assim que sentiu o cabelo encaracolado de Fellaini por perto, Neymar atirou-se para o chão. O lance fora, como outros antes, algo patético e indicativo do quanto Neymar nos consegue irritar. É como a sua capacidade de resolver jogos. Basta querer. Neymar atira-se para o chão e as bancadas entram em erupção. Pénalti, agressão sem bola, pena de morte. Nada. Nem um cabelo de Fellaini lhe tocou. Neymar lembra-se do resultado do jogo e, pela primeira e única vez neste Mundial, pede ao árbitro que ignore os pedidos de VAR e mande prosseguir o jogo. Neymar, enfim, compreendeu a sua finitude, já tarde demais, com dois golos no bucho. Percebeu ainda a tempo de nos proporcionar mais um momento rico em carga dramática, como se quer, com a desilusão que o mundo inteiro ansiava. Sobrarão quatro equipas europeias. É demasiada civilização.

Há quem diga cheio de moral que o futebol não precisa de jogadores como Neymar. É uma crítica justa à sua atitude, mas uma opinião pejada de ignorância. Do ponto de vista do cronista, que é tão espectador como os outros todos, nada faz mais falta a este mundial, e ao futebol, do que Neymar. De pé, a rebolar, ou deitado no chão. Neymar tem tudo o que o futebol sempre precisou para ser o desporto extraordinário que é hoje. É génio, herói, vilão, idiota e bobo de serviço, consoante o dia, o minuto de jogo ou o resultado.

SAEED KHAN

Por isso pergunto: mesmo sabendo que teremos a oportunidade de celebrar a derrota de mais algumas equipas, de quem é que nos vamos queixar daqui em diante? Quer se queira quer não, Neymar tinha uma coisa que poucos têm neste mundial. Tem uma personalidade. É verdade que por vezes o torna insuportável, mas isso seria ignorar por completo a tristeza que é um jogador tão bom, tão novo ainda, ver hoje a sua carreira sentenciada a uma inevitável irrelevância, a uma sensação de ter ficado aquém. Lukaku é carismático, mas é um rapaz essencialmente bem formado. Mbappé podia ser nosso amigo. Modric não é capaz de fazer mal a uma mosca, a não ser que tenha uma bola colada ao pé. Griezmann não celebra golos contra seleções em que jogam amigos seus. A equipa russa, toda junta, tem o carisma de um camião cheio de troncos na A23.

Neymar, mais jogador e personagem do que esta gente toda, chegará ao Mundial de 2022 com 29 anos de idade e, passo a indicar: o saldo bancário de Mário Jardel, o peso de Walter e a motivação de Ronaldinho Gaúcho ao assinar um contrato de duas semanas com um clube de futsal mexicano - em suma, vai chegar acabado ao Dubai. Espero que seja convocado. O que restar dele será atirado ao Índico. De nós, restará saudade nem que seja da desilusão.