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Um Azar do Kralj

Queremos que se ensine Ronaldo nas escolas (Um Azar do Kralj deseja um país com mais gente assim)

Vasco Mendonça escreve sobre "a vontade de ganhar patológica" de Cristiano Ronaldo que, aos 33 anos, vai voltar a mudar de clube e de país - e vai, ao que tudo indica, voltar a ser bem-sucedido

Vasco Mendonça, Um Azar do Kralj

OLGA MALTSEVA

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O vídeo de despedida que o Real Madrid publicou nas redes sociais em homenagem a Cristiano Ronaldo dura 6 min 37 seg. A duração recomendada de um vídeo publicado no Facebook, segundo especialistas, é de 1 minuto. Se for publicado no YouTube, a duração recomendada é de 2 minutos. A nossa atenção a esse ecrã dura uns 10 segundos.

Ao fim de quase 7 belos minutos de tributo a Cristiano, não vimos uma décima parte dos golos marcados pelo português. A meio do vídeo fica-se a sensação de que Ronaldo já fizera mais do que o suficiente para entrar na história do clube, mas essa não é a história que Cristiano Ronaldo quer contar.

A história de Ronaldo é a resposta competitiva à pergunta: como acordar todos os dias com vontade de ganhar, se já se ganhou tudo? Não me refiro ao ganhar das frases de auto-ajuda ou dessa abstração que é o nosso melhoramento enquanto criaturas pensantes. Isso não é nada. Falo antes de uma vontade de ganhar patológica. Como é que se acorda todos os dias com tanta gana? Porquê? O que faz Cristiano continuar a correr? Mais importante, como cultivar essa ambição sem perder lucidez no processo? Quando dermos por nós sem fôlego e sufocados pela nossa própria ânsia de grandeza, já Ronaldo estará mergulhado numa banheira de gelo a decidir que músculos do seu corpo irá trabalhar amanhã.

Vou arriscar uma resposta. Para lá do culto narcisista em que o tentam encaixotar, para lá da ambição financeira, muito para lá da psique motivacional do comum atleta de alta competição, está Cristiano Ronaldo, um homem que, para ganhar sempre, se convenceu de que começa todos os dias a perder. É por isso que o adoramos e o invejamos. Queremos ser como ele, queremos que isto se ensine nas escolas, queremos um país com mais gente assim, em sentido real e figurado. Só temos um problema: não fazemos ideia de como lá chegar. Aliás, para dizer a verdade, não queremos assim tanto. A nossa atenção a um ecrã dura 10 segundos, a nossa resiliência é sazonal, e a nossa empatia tem limites. Esqueçam a adoração e a inveja. Muitas vezes apetece odiar alguém assim.

Ronaldo vai voltar a ser aplaudido no Allianz Stadium, em Turim

Ronaldo vai voltar a ser aplaudido no Allianz Stadium, em Turim

Filippo Alfero - Juventus FC

Da próxima vez que virem Ronaldo ir buscar uma bola ao fundo das redes num jogo contra o Sassuolo, esqueçam o resultado do jogo. Ronaldo joga contra ele mesmo, contra o destino fatal do seu corpo. Ronaldo não quer provar que é um grande jogador. Isso foi mais do que conseguido. Ronaldo joga para ser estudado por académicos. Ronaldo joga para tirar o emprego ao cronista, por escassez de palavras que lhe façam justiça. Ronaldo joga para ser imortal. Joga para ser investigado. Joga para ser uma ciência exacta.

É por isso que as próximas gerações de futebolistas, por muito entusiasmantes que sejam, começam condenadas. Um jogador ambicioso e absurdamente talentoso como Mbappé passará a sua carreiras a tentar, sem sucesso, matar o seu ídolo Ronaldo, tudo isto enquanto Ronaldo continua a correr para a imortalidade. Aqueles jogadores que o abraçam quando ele regressa de ir buscar a bola ao fundo das redes? Não estão simplesmente a saudar um colega. Estão, mais uma vez, a tentar confirmar a veracidade de Cristiano Ronaldo, em carne e osso. Em carne e golo. Sorte a nossa.